
A forma como as empresas desenvolvem produtos e serviços está passando por uma alteração com as facilidades que a inteligência artificial oferece. E a maneira como financiam a inovação também está se alterando. Com ciclos tecnológicos mais curtos e pressão por resultados, encontrar capital para transformar projetos em soluções de mercado virou um desafio estratégico para empresas de todos os portes.
No Abes Summit 2026, especialistas apresentaram caminhos para acessar recursos públicos e privados, como compartilhar riscos de desenvolvimento tecnológico e formas de atrair investidores internacionais. Também apontaram que um obstáculo recorrente é muitas empresas deixarem de buscar financiamento porque consideram o processo burocrático ou não sabem qual instrumento combina com seus projetos.
IA já representa uma parcela relevante dos investimentos
Os números apresentados por Sérgio Rossi, especialista em investimentos estrangeiros da ApexBrasil, ajudam a dimensionar a disputa por capital. Segundo o executivo, o mercado global de venture capital movimenta cerca de US$ 500 bilhões a US$ 550 bilhões, e aproximadamente metade desse volume foi direcionada a startups de inteligência artificial em 2025.
No Brasil, a oportunidade também passa pela presença de investidores estrangeiros e pelo fortalecimento do ecossistema local. Rossi afirmou que o país concentra cerca de 50% do capital de venture capital investido na América Latina e reúne entre 200 e 250 fundos desse tipo.
A mudança de interesse dos investidores internacionais ficou evidente no contato da ApexBrasil com grandes corporações e seus braços de investimento. Rossi contou que, nos últimos anos, a procura por oportunidades relacionadas à transição energética ganhou uma nova companhia: a inteligência artificial.
Essa é uma demanda que Rossi passou a ouvir de investidores internacionais com frequência desde o fim de 2024. O interesse inclui oportunidades em inteligência artificial e data centers, favorecidas, entre outros fatores, pela disponibilidade de energia renovável no Brasil.
A ApexBrasil também atua na conexão entre startups brasileiras e investidores globais. Por meio de iniciativas voltadas ao corporate venture capital, a agência busca aproximar empresas nacionais de corporações interessadas em investir em tecnologias capazes de ampliar sua competitividade.
A modalidade tem uma lógica diferente da de fundos tradicionais. Enquanto o venture capital costuma buscar retorno financeiro, o corporate venture capital também procura ganhos estratégicos, como acesso a novas tecnologias, desenvolvimento de produtos e aceleração da inovação dentro das próprias corporações.
Embrapii divide o risco e já tem mais de mil projetos com IA
Se o capital privado busca oportunidades de crescimento, o financiamento público pode ajudar a reduzir o risco das etapas de desenvolvimento tecnológico. Túlio Oliveira, líder de programas prioritários da Embrapii, explicou como a instituição conecta empresas a centros de pesquisa e cofinancia projetos de inovação.
Desde o início de suas operações, em 2014, a Embrapii acumulou mais de 4,5 mil projetos executados ou em andamento, envolvendo mais de 3 mil empresas. De acordo com Oliveira, mais de mil desses projetos têm inteligência artificial como tema principal ou como tecnologia aplicada a outras atividades.
A IA aparece em iniciativas que vão além da criação de novos produtos. O executivo citou aplicações para otimização energética, manutenção preditiva e melhoria de processos existentes, mostrando como a tecnologia pode contribuir para a eficiência operacional e os resultados das empresas.
O modelo da Embrapii prevê a divisão do investimento entre empresa, instituição de pesquisa e recursos públicos. Para micro e pequenas empresas, o percentual de apoio pode chegar a 80% ou até 90% nos melhores casos, considerando também a parceria com o Sebrae. Oliveira destacou que a escolha do mecanismo de fomento deve considerar a etapa do projeto, e não apenas o tamanho do subsídio oferecido.
Os instrumentos de apoio podem funcionar de maneira complementar, acompanhando a evolução da tecnologia desde a pesquisa até a expansão comercial. Oliveira também recomendou que as empresas se aproximem de instituições de pesquisa antes mesmo de terem um projeto completamente estruturado.
FINEP tenta acelerar o acesso aos recursos
A velocidade dos ciclos de inovação também pressiona as instituições de fomento a rever seus processos. Luiz Sérgio Utino, gerente de TIC da FINEP, destacou que a agência tem trabalhado para ampliar o alcance dos financiamentos e reduzir etapas que atrasam a contratação dos projetos.
Entre as iniciativas citadas estão a ampliação da atuação de agentes financeiros regionais, para facilitar o acesso de empresas de diferentes localidades, e a revisão dos procedimentos de análise de crédito.
Utino também destacou mudanças no modelo de subvenção econômica. Desde 2023, a Finep vem adotando o fluxo contínuo em determinadas modalidades, permitindo que as empresas apresentem propostas sem depender exclusivamente de chamadas com períodos específicos de inscrição.
O mecanismo, porém, exige planejamento.A ordem de chegada pode influenciar o andamento das propostas, e há projetos submetidos em um mês que só chegam à contratação meses depois. A Finep oferece diferentes instrumentos, incluindo crédito direto, crédito descentralizado, participação em fundos e recursos não reembolsáveis. Cada alternativa atende a condições e perfis de projeto específicos.
Ao orientar as empresas interessadas, Utino reforçou a importância de conhecer os critérios de elegibilidade e verificar qual modalidade faz sentido para o estágio de desenvolvimento da solução. Apesar das dificuldades operacionais, o executivo afirmou que a Finep está aberta a conversar com empresas que atendam aos requisitos das linhas de crédito direto. A recomendação é consultar as modalidades disponíveis antes de estruturar a solicitação.
O maior gargalo pode estar dentro da própria empresa
O acesso ao dinheiro também depende da capacidade de transformar uma necessidade de negócio em um projeto consistente. Marina Loures, diretora de inovação e transformação digital da ABGI, chamou a atenção para a complexidade que envolve o sistema brasileiro de fomento, marcado por diferentes siglas, regras e modalidades.
Para quem nunca utilizou esses mecanismos, o primeiro passo é organizar o planejamento de inovação, identificar os projetos previstos para os próximos anos e entender quais despesas, parceiros e recursos serão necessários. A percepção de burocracia pode impedir que empresas sequer tentem acessar os recursos. Marina recomendou começar por instrumentos compatíveis com a estrutura e a maturidade do negócio, como os incentivos fiscais, e avançar para outras modalidades conforme a necessidade.
A diretora também ressaltou que os editais não devem determinar sozinhos a agenda de inovação. A empresa precisa avaliar se o objetivo financiado está alinhado à sua estratégia e se conseguirá executar o projeto depois da aprovação. Outro ponto destacado por Marina foi a qualidade das propostas. Segundo ela, os órgãos de fomento relatam dificuldades para receber projetos com documentação adequada, parceiros compatíveis e objetivos bem definidos.
Orienta-se buscar apoio de consultorias, institutos de ciência e tecnologia e das próprias instituições de fomento para compreender as exigências antes de submeter uma proposta. Marina também sugeriu que as empresas comecem a controlar as horas dedicadas à inovação, os gastos com terceiros e as demais despesas relacionadas aos projetos. Esses registros ajudam a organizar a documentação e identificar oportunidades de financiamento e incentivos fiscais.






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