À esquerda, Alex Szapiro durante entrevista no palco do AI.Brasil Experience 2026.

As maiores oportunidades de negócio podem estar em problemas que a tecnologia ainda não conseguiu resolver. Essa foi uma das principais provocações de Alex Szapiro durante o AI.Brasil Experience 2026. Ex-executivo da Amazon e da Apple e ex-líder do SoftBank na América Latina, Szapiro defendeu que empreendedores precisam olhar além das ferramentas disponíveis e identificar desafios concretos antes de escolher a tecnologia que vão desenvolver.

Em entrevista no palco do evento, Szapiro falou sobre a velocidade das transformações tecnológicas, o futuro dos investimentos em startups e o potencial de novos modelos de negócio. Para ele, a popularização da inteligência artificial não significa que tudo já foi inventado. Pelo contrário: a combinação de novas tecnologias com problemas antigos pode abrir espaço para empresas que ainda nem existem.

Primeiro, o problema. Depois, a tecnologia

Szapiro destacou uma questão importante para quem avalia oportunidades: quais negócios continuarão relevantes mesmo diante dos avanços tecnológicos dos próximos cinco ou dez anos? Entender o que permanece necessário em um cenário de mudanças rápidas é tão importante quanto apostar nas novas ferramentas.

Uma das principais ideias defendidas pelo executivo foi a necessidade de começar pelo problema que precisa ser resolvido, em vez de partir de uma tecnologia e procurar uma aplicação para ela. Para ilustrar esse raciocínio, Szapiro relembrou uma experiência na Amazon, onde novos projetos precisavam ser apresentados em documentos escritos de seis páginas, em vez de apresentações tradicionais.

Ele citou o desenvolvimento dos drones de entrega como exemplo. A ideia nasceu de uma dificuldade logística: atender regiões rurais dos Estados Unidos, com baixa densidade populacional, sem tornar as entregas excessivamente caras. Na época, a tecnologia ainda não estava pronta para viabilizar a solução comercialmente.

O ponto não era desenvolver drones por serem uma novidade tecnológica, mas encontrar uma maneira eficiente de resolver um problema de distribuição. “Se estou pensando em algum problema grande para resolver, não necessariamente a tecnologia tem que estar pronta para que eu possa colocar isso em prática”.

A experiência ajuda a explicar por que Szapiro considera que as oportunidades de inovação não estão restritas às tecnologias mais comentadas do momento. Uma empresa pode identificar uma necessidade importante antes que existam ferramentas maduras para atendê-la. A evolução tecnológica pode tornar viável, mais adiante, uma solução que antes não fechava a conta.

Fraudes digitais são uma oportunidade de negócio

Entre os problemas que ainda precisam de respostas melhores, Szapiro destacou as fraudes digitais. Durante a conversa, ele relatou receber mensagens fraudulentas que imitam comunicações de órgãos públicos, programas de pontos, bancos e até conhecidos cujas contas foram comprometidas.

O exemplo expõe uma contradição, pois enquanto a inteligência artificial avança rapidamente, golpes que dependem de engenharia social e da manipulação de usuários continuam circulando por canais digitais amplamente utilizados. Para o executivo, ainda falta aproveitar melhor os recursos tecnológicos para identificar e bloquear essas ameaças. Ele citou ferramentas de comunicação, serviços de e-mail e agentes de IA como possibilidades que poderiam contribuir para enfrentar o problema.

Mas a questão vai além do incômodo individual. Pessoas com menos familiaridade com tecnologia podem ter mais dificuldade para reconhecer tentativas de fraude e acabam mais expostas a perdas financeiras. Por isso, soluções capazes de reduzir esse risco podem atender a uma necessidade concreta de mercado.

Szapiro mencionou a importância de identificar problemas que afetam o cotidiano da população, mesmo quando eles não parecem tão sofisticados quanto as grandes aplicações de inteligência artificial. “A gente está falando muito de tecnologia, mas tem problemas muito básicos ainda, que estão impactando a população e não foram resolvidos”.

A avaliação reforça uma oportunidade para startups e empresas de tecnologia, para desenvolver produtos que usem IA para resolver dificuldades reais, com impacto mensurável para consumidores e negócios. No caso das fraudes, isso pode envolver desde mecanismos de detecção até sistemas de autenticação e prevenção de transações suspeitas.

Amazon, Apple e AWS mostram o potencial de novos mercados

Ao responder se ainda existem coisas relevantes para inventar, Szapiro recorreu à história de duas plataformas que ajudaram a transformar a economia digital: o iPhone, lançado pela Apple em 2007, e a Amazon Web Services (AWS), plataforma de computação em nuvem da Amazon.

Na avaliação do executivo, essas tecnologias abriram caminho para modelos de negócio que seriam difíceis de prever no momento de seu lançamento. O iPhone ganhou uma nova dimensão com a criação da App Store, que permitiu a desenvolvedores distribuir aplicativos e criar serviços. Já a AWS reduziu a necessidade de grandes investimentos iniciais em infraestrutura, permitindo que empresas contratassem capacidade computacional conforme a demanda.

Essas mudanças ajudaram a viabilizar negócios digitais que dependem de aplicativos, serviços online e infraestrutura escalável. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à inteligência artificial, uma vez que seus efeitos não se limitam às ferramentas atuais, mas também podem permitir produtos e mercados que ainda não foram concebidos.

A pergunta mais relevante não é apenas o que a IA consegue fazer hoje, mas quais problemas poderão ser resolvidos quando a tecnologia avançar e se tornar mais acessível.

Brasil tem soluções que podem inspirar outros mercados

A conversa também abordou a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias competitivas. Ao falar sobre sua experiência na Apple, Szapiro lembrou que o lançamento do iPhone foi recebido com ceticismo por parte da imprensa e do mercado. Na época, muitos duvidavam que consumidores aceitariam um aparelho cuja principal interface era uma tela sensível ao toque.

O executivo também recordou a adaptação da estratégia comercial da Apple ao Brasil, com a possibilidade de parcelamento em 12 vezes sem juros. A iniciativa ajudou a adequar a compra de um produto caro à realidade de pagamento dos consumidores locais. Esse tipo de adaptação mostra que o conhecimento do mercado brasileiro pode ser uma vantagem competitiva. A capacidade de entender as necessidades dos consumidores e ajustar produtos e serviços às condições locais também pode gerar soluções com potencial de expansão internacional.

Szapiro citou ainda o Pix como exemplo de inovação brasileira que ganhou relevância além das fronteiras nacionais. O sistema de pagamentos instantâneos demonstra que o país pode desenvolver soluções capazes de influenciar outros mercados.

Coragem, problema e execução continuam essenciais

Apesar das mudanças provocadas pela IA, Szapiro acredita que algumas características fundamentais do empreendedorismo permanecem. A criação de uma empresa exige disposição para assumir riscos, envolvimento com um problema relevante e capacidade de executar uma solução.

Essa combinação ajuda a explicar por que a tecnologia, isoladamente, não garante o sucesso de um negócio. Uma ferramenta pode ser avançada, mas precisa atender a uma necessidade real, encontrar usuários dispostos a adotá-la e produzir resultados que justifiquem sua existência.

Inovação não depende apenas de quem desenvolve os modelos de IA mais poderosos, tem muito espaço para empreendedores capazes de identificar problemas negligenciados, compreender suas causas e construir soluções viáveis. A vantagem competitiva pode estar em saber quais dificuldades realmente merecem ser resolvidas.

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