
Gustavo Brito*
Durante muito tempo, falar em ESG significava discutir compromissos, metas e indicadores que, muitas vezes, pareciam estar longe da operação das empresas. Na indústria,porém, essa realidade está mudando. As dimensões ambientais e sociais do ESG, em especial, está cada vez mais conectada à forma como as empresas monitoram seus processos, utilizam recursos e tomam decisões.
Água, energia, desperdício e produção responsável são temas que estão no centro do debate dessa agenda. E, nesse contexto, a tecnologia pode ajudar a transformar objetivos ambientais e sociais em açõesconcretas, mensuráveis e integradas à operação.
Essa mudança exige uma nova perspectiva sobre a gestão industrial. Hoje, a busca por eficiência mostra que produtividade, sustentabilidade e segurança podem avançar na mesma direção: uma operação queutiliza melhor seus recursos e evita desperdícios tende a ser não apenas mais eficiente, mas também mais segura e ambientalmente responsável.
Um exemplo está no controle da estabilidade operacional. Quanto maior a oscilação de um processo, maior será a dificuldade para manter o consumo de energia, água e matérias-primas sob controle. Ao identificaressas variações e atuar sobre suas causas, a indústria consegue reduzir variabilidade, aumentar segurança e produtividade, reduzir desperdícios e utilizar seus recursos de maneira mais eficiente.
O monitoramento de variáveis ambientais é outro caminho importante. Sensores, Internet das Coisas Industrial (IIoT) e sistemas integrados permitem reunir informações sobre diferentes aspectos de uma operaçãoem uma mesma base de dados. A partir daí, modelos analíticos estatísticos podem identificar alterações, apontar desvios e apoiar uma atuação mais rápida diante de situações que possam gerar impactos ambientais e produtivos.
Resultados já mostram o potencial dessa abordagem. Em uma operação siderúrgica, por exemplo, um modelo que integra técnicas de machine learning com controle avançado aplicado aos processos conseguiu reduzirparadas e eventos inesperados em 13%, diminuir o consumo de energia em 4% e aumentar a produtividade em 9%. O caso ilustra como uma mesma iniciativa orientada por dados pode agir simultaneamente em diferentes dimensões do negócio: disponibilidade operacional,uso de recursos, produtividade e segurança.
Esse tipo de aplicação ajuda a mudar a maneira como a indústria enxerga os dados. Além de registrar o que aconteceu, eles podem revelar relações entre diferentes variáveis da operação e indicar onde estãoas oportunidades de melhoria. Quando essa inteligência é incorporada à gestão, decisões sobre consumo, manutenção e produtividade passam a considerar um conjunto mais amplo de informações.
Acompanhar continuamente o que acontece na operação também muda a qualidade das decisões. Em vez de analisar os impactos ambientais apenas depois que eles acontecem, a indústria pode identificar sinaisde alteração, compreender suas causas e agir de forma antecipada. A agenda de água é um bom exemplo. Em operações industriais e de saneamento, perdas e ineficiências podem representar não apenas um problema ambiental, mas também um custo operacional significativo.E, quando envolvem serviços essenciais, seus efeitos podem ultrapassar os limites da própria operação e chegar à população. Monitorar consumo, identificar padrões e entender onde estão os principais pontos de desperdício são passos fundamentais para transformara gestão da água em uma disciplina orientada por dados.
Isso vale para energia também. Em vez de olhar apenas para o consumo total ao final do mês, a indústria já acompanha como, quando e onde a energia está sendo utilizada. Essa granularidade permite encontraroportunidades que dificilmente apareceriam em uma análise baseada apenas em indicadores consolidados.
É nesse ponto que a agenda ambiental se conecta diretamente à eficiência do negócio. Reduzir o consumo de água e energia, controlar desperdícios e melhorar a utilização de insumos não são apenas iniciativasambientais: são também formas de tornar a produção mais eficiente e competitiva.
Essa integração é fundamental para dar efetividade ao ESG. Quando os objetivos ambientais entram na rotina de gestão e são acompanhados por indicadores operacionais, a sustentabilidade ganha continuidadee passa a orientar decisões cotidianas, em vez de ficar restrita a metas corporativas ou relatórios de desempenho.
Dados, modelos analíticos e inteligência artificial podem ampliar essa gestão, ajudando a identificar desvios e oportunidades com antecedência. Não é somente automatizar por automatizar, mas usar a tecnologiapara apoiar decisões melhores, reduzir ineficiências e dar mais consistência à operação.
É preciso conhecer os processos, entender quais variáveis realmente impactam os resultados e estabelecer indicadores para conectar eficiência operacional aos objetivos ambientais e de negócio.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU reforçam essa conexão ao reunir temas como água potável e saneamento, energia limpa e acessível, indústria, inovação e infraestrutura e consumoe produção responsáveis. O desafio para as empresas é traduzir essas ambições em mudanças mensuráveis na forma como produzem e utilizam recursos.
Para a indústria, avançar no “E” do ESG significa incorporar a sustentabilidade à própria definição de eficiência. Quanto mais uma empresa analisa seus processos, mede o uso de recursos e transforma dadosem decisões, maiores serão as condições de reduzir desperdícios, otimizar o consumo e produzir de forma responsável. Isso representa uma evolução importante: tratar a eficiência não apenas como uma meta econômica, mas também como parte da responsabilidadeambiental de produzir.
* Gustavo Brito, vice-presidente global da Stefanini Manufacturing






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