Por Alex Ferreira*

A inteligência artificial já entrou na rotina de uma parcela significativa dos profissionais brasileiros, mas as empresas ainda parecem estar correndo atrás para entender como preparar as pessoas para essa nova realidade. Uma pesquisa da Serasa Experian, mostra esse descompasso: 52,6% dos profissionais entrevistados afirmam usar ferramentas de IA no trabalho, mas apenas 26,5% dos usuários dizem receber treinamento e orientação das empresas. Outros 32,7% afirmam não receber nenhum tipo de preparação.

O dado mais interessante, porém, está em outro ponto da mesma pesquisa. Entre os profissionais que já usam IA, 40,6% dizem que a tecnologia aumentou sua produtividade e 38% afirmam ter economizado tempo em tarefas repetitivas. Ou seja, a discussão deixou de ser sobre se a inteligência artificial fará parte do trabalho. Ela já faz. A questão agora é como estabelecer uma relação mais inteligente entre pessoas e máquinas.

É nesse contexto que ganha força o conceito de inteligência híbrida. Durante muito tempo, a discussão sobre IA foi construída a partir de uma lógica de substituição: quais profissões desaparecerão? Quantos empregos serão automatizados? Quais atividades uma máquina conseguirá fazer melhor do que uma pessoa?

Essas perguntas continuam importantes, mas podem estar nos levando a olhar para o problema pelo ângulo errado. A próxima transformação não será necessariamente sobre escolher entre humanos ou máquinas. Será sobre descobrir o que humanos e máquinas conseguem fazer melhor quando trabalham juntos.

A IA é excelente em processar grandes volumes de informação, identificar padrões, resumir conteúdos, gerar alternativas e executar tarefas repetitivas em alta velocidade. O ser humano, por sua vez, continua sendo fundamental para interpretar contexto, estabelecer prioridades, compreender nuances, fazer julgamentos, lidar com ambiguidades e assumir responsabilidade pelas decisões.

A combinação dessas capacidades cria algo diferente da simples automação. Cria uma nova forma de trabalhar.

O erro de colocar a IA no lugar errado

Uma empresa pode implementar uma ferramenta sofisticada de IA e ainda assim não obter resultados relevantes. Isso acontece quando a tecnologia é tratada como um fim, e não como parte de um processo.

Imagine uma equipe comercial utilizando IA para analisar milhares de interações com clientes. A máquina consegue identificar padrões de comportamento, classificar demandas e apontar oportunidades. Mas é o profissional que conhece o contexto daquele cliente, entende uma mudança recente no relacionamento e decide qual abordagem faz sentido. Portanto, o ganho não está em escolher quem tem razão .  Está em fazer com que cada um atue onde pode gerar mais valor.

O mesmo vale para marketing, atendimento, finanças, tecnologia, recursos humanos e praticamente qualquer área do negócio. A inteligência artificial pode acelerar a análise. Mas alguém precisa formular a pergunta certa. Pode produzir dez versões de um conteúdo. Mas alguém precisa saber qual conversa com a estratégia da empresa.

Ela consegue identificar uma anomalia em uma base de dados. No entanto, é preciso entender se aquilo representa um problema real ou apenas uma exceção estatística. E mesmo quando ela sugere uma decisão, um humano precisa responder por ela.

Essa última dimensão é especialmente importante. Quanto mais poderosa se torna a IA, maior precisa ser a capacidade humana de questionar seus resultados.

Treinamento não pode significar apenas ensinar ferramentas

É justamente aqui que os dados da pesquisa da Serasa Experian deveriam provocar uma reflexão maior nas empresas. Se apenas 26,5% dos profissionais que utilizam IA dizem receber treinamento e orientação, existe uma lacuna que vai muito além de ensinar alguém a escrever bons prompts.

As organizações precisam desenvolver uma espécie de alfabetização para a inteligência híbrida.Isso significa ensinar os profissionais a identificar quais tarefas devem ser automatizadas, quais precisam permanecer sob supervisão das equipes, como avaliar uma resposta produzida por IA, quais informações podem ou não ser compartilhadas com uma ferramenta e como transformar uma sugestão algorítmica em uma decisão de negócio.

Também significa mudar a própria cultura. Não adianta incentivar o uso de IA e, ao mesmo tempo, criar um ambiente em que o funcionário tenha receio de admitir que utilizou a tecnologia. Tampouco basta distribuir licenças de ferramentas e esperar que a produtividade apareça espontaneamente. A tecnologia precisa estar associada a processos, objetivos e responsabilidade.

A vantagem competitiva estará na combinação

Nos próximos anos, a diferença entre empresas não será apenas em quem possui acesso às melhores ferramentas de IA. As tecnologias tendem a se tornar cada vez mais acessíveis e incorporadas aos softwares que já utilizamos. A vantagem estará em quem souber organizar melhor a colaboração entre pessoas e máquinas.

Isso exige redesenhar processos. Identificar gargalos. Definir critérios de qualidade. Criar mecanismos de supervisão. Capacitar equipes. E, principalmente, compreender que produtividade não significa simplesmente fazer a mesma coisa mais rápido.

O verdadeiro potencial da IA está em permitir que as pessoas façam coisas que antes não conseguiam fazer – ou que gastavam tempo demais para realizar. Se uma ferramenta elimina horas de trabalho repetitivo, o ganho não deveria ser apenas uma agenda mais cheia. Deveria ser a possibilidade de dedicar aquele tempo a problemas mais complexos, relacionamento com clientes, inovação, planejamento e tomada de decisão.

Essa é a diferença entre usar IA e trabalhar com IA. No primeiro caso, temos uma ferramenta. No segundo, temos uma nova forma de inteligência organizacional. O futuro, portanto, não será exclusivamente artificial. E tampouco será uma tentativa de preservar o trabalho humano como ele sempre foi. Será híbrido.

As empresas que entendem isso primeiro não são aquelas que substituem mais pessoas por máquinas. Serão aquelas capazes de combinar melhor as capacidades de ambos. Um mix de velocidade e contexto, escala e julgamento, processamento e criatividade. A inteligência artificial pode ser extraordinariamente poderosa, mas seu maior benefício não é fazer o trabalho das pessoas. Seu grande valor é permitir que o ser humano faça um trabalho melhor.

*Alex Ferreira é CEO e fundador da FMG, boutique de tecnologia especializada em transformação de negócios, produtos digitais e inteligência artificial aplicada. Com quase três décadas de experiência em tecnologia, construiu sua trajetória implementando soluções em operações de alta complexidade, passando pelos ciclos do software, da transformação digital e, agora, da inteligência artificial.

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