Alyson Freeman, DELL

Sustentabilidade e tecnologia nunca estiveram tão juntas em um debate. O avanço do uso de inteligência artificial generativa, que acaba por demandar muito processamento das estruturas de data centers, ampliou as discussões sobre consumo de água e energia. Estimativas diversas apontam que a demanda futura de energia daria para abastecer grandes metrópoles ou países. Assim, buscar meios de otimizar o consumo e tornar as práticas de tecnologia mais sustentáveis se torna mandatório. E é sobre isso que conversamos com Alyson Freeman, líder de inovação para sustentabilidade e ESG na Dell.

A executiva cuida especialmente da vertical de data centers que está no centro das discussões. O segmento aliás, vive um momento interessante no Brasil, com muitos projetos em andamento, sobretudo, pela boa oferta de energia limpa que o país oferece. Mas além de pensar no uso de energia renovável, a conversa com Alyson versa sobre um projeto da Dell que é o Concept Astro, que busca repensar a lógica de processamento de dados. Nos testes, a fabricante conseguiu reduzir emissões em 32%. A executiva trouxe ainda sua abordagem com clientes, falou sobre a preocupação com consumo de água e tratou também dos programas de uso de reciclados da Dell. 


Vitor Cavalcanti – Além da redução de custos com o consumo de energia, até onde vai a abordagem de sustentabilidade do Concept Astro?

Alyson Freeman – Deixa eu te contar um pouco mais sobre o que é e como funciona, porque acho que isso vai facilitar muito para responder essa pergunta. O Concept Astro era nossa visão de como tornar um data center mais sustentável. E quando analisamos os números e os fatos sobre onde estão os impactos, obviamente é no uso de energia. Descobrimos que poderíamos causar o maior impacto por meio do software, garantindo que o maior processamento aconteça quando houver energia limpa disponível.

Aí pensamos: e se pudéssemos agendar cargas de trabalho para horários e/ou locais em que a energia fosse mais limpa naquele momento? Trabalhamos com o Instituto de Oceanografia Scripps da Universidade da Califórnia, em San Diego, que tira fotos de recifes de corais ao redor do mundo e os transforma em modelos 3D para estudá-los e mostrar como estão mudando ao longo do tempo.

Criar esse modelo é um processo muito intensivo e demanda muita energia. É irônico que estejam fazendo algo que visa a ajudar o meio ambiente, mas usam muitos recursos para isso. Então, como podemos otimizar e usar o mínimo de recursos para criar esses modelos? Percebemos que, ao agendar a criação dos modelos com base em previsões da rede elétrica, conseguimos migrar para onde havia energia renovável disponível e reduzir as emissões em 32%.

Também modelamos a mudança de localização. Eles têm um laboratório em San Diego, na Califórnia, e eu estou na sede da Dell, em Austin, Texas, onde temos um laboratório com os mesmos servidores.

Modelamos o cenário: e se executássemos essa carga de trabalho durante o dia na Califórnia, quando há muita energia solar disponível, e à noite no Texas, quando há energia eólica disponível? Assim, a criação dos modelos teria um impacto ambiental muito menor.

VC – Mas quando você fala da redução de 32% nas emissões, isso se refere a usar menos energia ou menos potência?

AF – A mesma quantidade de energia, mas em um horário diferente. Porque havia energia solar disponível naquele horário.

VC – Então vocês usaram energia, mas ao invés de usar energia geral em horários de pico, usaram fontes renováveis?

AF – Exatamente, fontes renováveis. Se eles voltassem do mergulho, enviassem as fotos e clicassem para criar o modelo, haveria emissões associadas a isso. Mas se, ao voltar, enviassem as imagens e escolhessem “agendar este modelo”, poderíamos executá-lo no momento certo, trazendo a consciência da rede elétrica para o data center e escolhendo o momento com menos emissões.

VC – E como vocês estão trabalhando para escalar isso? Achei interessante a solução, especialmente pensando no mercado brasileiro, onde temos muitas fontes renováveis. 

AF – Isso é um piloto, uma prova de conceito para mostrar o que é possível, mostrar nossa inovação e pensamento sobre como poderíamos abordar isso de uma forma melhor. Quando os clientes veem que podem economizar dinheiro e reduzir emissões, esperamos que eles exijam isso em todos os nossos produtos e softwares.

Como qualquer empresa, a Dell é muito sensível às necessidades dos clientes e queremos ouvi-los. Mas se eles nem souberem que isso é possível, não vão pedir. Precisamos inventar, mostrar e empolgar as pessoas com essas possibilidades. E isso ajuda nas emissões e no balanceamento da carga da rede elétrica. Eu sei que o Brasilé o país que tem mais data centers da América do Sul. E eles estão quase todos em São Paulo, certo?

VC – Isso mesmo.

AF – E o que dizer das pessoas que moram em São Paulo e usam a mesma rede elétrica desses data centers? Não estariam interessadas em garantir que esses data centers consigam balancear a carga usando IA para agendar isso automaticamente, sem impacto para elas?

VC – E qual é a chave da solução? É a IA aplicada à inteligência da rede ou é também o hardware da Dell?

AF – Diria que há duas principais. A primeira é a consciência da rede elétrica, tornar o data center ciente da rede. Normalmente, focamos toda nossa telemetria dentro do data center e não trazemos informações externas. Gosto de usar a analogia de mapas para dirigir: antes usávamos mapas de papel, depois o MapQuest, sempre atualizado. Depois melhorou, e podíamos navegar e saber quanto tempo demorava. Isso foi o começo da IA, com 100 carros fazendo o mesmo trajeto, aprendemos quanto tempo leva.

É isso que estamos fazendo com o agendamento de cargas de trabalho. Dizemos: você enviou essas imagens, similar ao anterior, levará tanto tempo, podemos agendar? Isso já era bom. Mas ficou melhor ainda quando o mapa passou a considerar o trânsito.

Mesma analogia com o data center: ao trazer dados da rede elétrica, tomamos decisões melhores, como ao dirigir com dados de trânsito. Então, número um: trazer informações externas da rede. Isso dá uma camada extra para decisões mais inteligentes.
E a outra coisa essencial é pensar no uso de energia a partir do ponto de vista do trabalho realizado.

Geralmente pensamos na energia de um servidor, rack ou data center. Mas se mudarmos para “quanto de energia leva para fazer essa pesquisa, esse vídeo”, temos outra forma de otimizar. Esses são os dois grandes desafios.

VC – Quando falamos em data center e sustentabilidade, a discussão vai além do consumo de energia. Há o uso da água. Vocês estão ajudando com isso também?

AF – Com certeza. Temos uma ampla gama de clientes. Para os que constroem novos data centers, otimizamos o uso de água, energia e tudo relacionado. Para os que já existem, temos várias soluções de resfriamento: ar, ar com líquido, totalmente líquido, trocadores de calor traseiros e os novos trocadores de calor fechados.

Todos usam água em circuito fechado e permitem que o data center opere em temperaturas mais altas, o que importa muito, pois reduz o uso de ar-condicionado — que é onde se gasta mais água. Então estamos focando muito em resfriamento e eficiência dentro dos produtos.

VC – Vi no seu LinkedIn que parte do seu trabalho é conversar com clientes. Quando falamos de ESG e sustentabilidade, como está isso hoje? É uma preocupação real?

AF – Sim, é uma preocupação real e continua alta. Vemos diferenças regionais na abordagem. Na EMEA (sigla para Europa, Oriente Médio e África), há preocupação com o custo da energia, emissões e regulamentações. Na APJ (Ásia-Pacífico e Japão), preocupam-se mais com o impacto social. Nos EUA, há muitas conversas sobre quanto poder computacional consigo com o mesmo consumo de energia, pois há limites.

VC – E quanto aos parceiros, qual é seu papel? É mais educação?

AF – Sim, educação e treinamento. Esse é o papel da Dell. Temos uma competência com treinamentos onde eles aprendem sobre todos os atributos sustentáveis da Dell. Fornecemos relatórios de pegada de carbono, conteúdo reciclado, certificações Energy Star, entre outros.

Também temos um Conselho de Sustentabilidade dos Parceiros que se reúne trimestralmente. Eu participo desse conselho, mesmo não sendo responsável direto. Conheci pessoas de outras empresas enfrentando os mesmos desafios. Criamos relacionamentos fortes, posso mandar um e-mail dizendo: “Como você lidou com isso?” — e vice-versa.

VC – Vocês olham para sustentabilidade em todo o portfólio?

AF – Sim, embora minha especialidade seja data centers.

VC – O que é mais desafiador: falar sobre data centers e IA ou PCs e reciclagem?

AF – Não consigo dizer o que é mais difícil, mas posso dizer como são diferentes. Se você olha a pegada de carbono de um laptop vs. servidor: o maior impacto ambiental de laptops está na fabricação. Então, os dados direcionam isso. A pegada de carbono de um produto tem quatro fases: fabricação, transporte, uso e fim de vida.

Nos clientes (laptops, PCs), o maior impacto é a fabricação. Nos servidores, é o uso. Por isso a Dell foca em plástico reciclado, borracha biológica, programas de coleta para evitar lixo eletrônico nos produtos cliente. Nos produtos de data center, o foco está em resfriamento e gerenciamento de energia. Tudo é baseado nos dados de onde está o maior impacto, e é aí que focamos nossos esforços.

VC – Vocês aplicam princípios de economia circular?

AF – Sim, com certeza. A reparabilidade também é extremamente importante. Temos uma nova porta USB-C modular nos laptops. Ela costumava estar ligada à placa mãe, então, se quebrasse, tinha que trocar a placa mãe — que é a parte com maior pegada de carbono. Agora é mais barato, rápido e fácil trocar só a porta USB-C. O pensamento de circularidade é total, envolve conteúdo reciclado, embalagens recicladas, reuso, e design voltado à reparabilidade.

VC – Qual é o seu maior desafio nessa cadeira de sustentabilidade na Dell?

AF – O ritmo das mudanças. Onde estávamos 6 meses atrás com IA já mudou muito. Se quisermos fazer coisas ambientais que permaneçam, elas também precisam economizar custos e beneficiar o cliente. Se usarmos material reciclado que é mais caro ou pior, vai ser descartado logo. Então, buscamos soluções que sejam melhores para o planeta, o negócio e o cliente. Essas soluções existem e é empolgante encontrá-las.

Sem comentários registrados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *