Patrick Hruby, COO da DrumWave durante o AI.Brasil Experience 2026

Todos os dias, milhões de pessoas alimentam sistemas de inteligência artificial sem receber nada diretamente por isso. Localização do celular, compras com cartão, prontuários médicos, aplicativos de entrega, e-mails e hábitos de consumo formam um enorme volume de informações capturadas por empresas. Para Patrick Hruby, COO da DrumWave, esse modelo precisa mudar. Durante o AI.Brasil Experience 2026, o executivo defendeu a propriedade de dados como um caminho para distribuir parte da riqueza gerada pela inteligência artificial.

O argumento é simples: as pessoas produzem informações valiosas ao longo da vida, mas não têm controle efetivo sobre o uso econômico desse material. Empresas combinam diferentes fontes de dados para oferecer serviços, treinar modelos e desenvolver novos negócios. Quem gera essas informações, porém, raramente participa diretamente dos ganhos financeiros.

Dados podem se tornar o principal diferencial da IA

A discussão passa pela própria estrutura da inteligência artificial. Segundo Hruby, três componentes sustentam essa tecnologia: modelos, capacidade computacional e dados. Os modelos estão se tornando cada vez mais acessíveis, com a expansão de alternativas abertas. Já a computação continua exigindo investimentos elevados, embora a tendência histórica seja de redução de custos à medida que a infraestrutura amadurece.

Se os modelos se tornam mais acessíveis e a computação evolui, os dados ganham importância estratégica. O problema é que boa parte do treinamento dos grandes modelos de linguagem (LLMs) utilizou informações disponíveis publicamente na internet. Na avaliação apresentada pelo executivo, esse estoque não será suficiente para sustentar indefinidamente o avanço da tecnologia.

Hruby citou uma estimativa segundo a qual os dados públicos disponíveis para treinamento podem se esgotar até 2032. A partir daí, o desenvolvimento de sistemas mais sofisticados dependerá cada vez mais de novas fontes de informação, incluindo dados produzidos pelas próprias pessoas.

Cidadãos, consumidores, trabalhadores

O executivo dividiu essa produção de dados em três frentes. Como cidadãos, geramos informações relacionadas à saúde, à educação e aos serviços públicos. Como consumidores, deixamos registros de compras, deslocamentos, pagamentos e operações de crédito. No trabalho, produzimos dados sobre decisões, solicitações, rotinas e produtividade.

O avanço da inteligência artificial amplia o interesse econômico por essas informações. Em algumas operações, até câmeras são utilizadas para acompanhar jornadas e mapear atividades profissionais. A questão levantada por Hruby é quem controla esse patrimônio informacional e quem tem direito a participar do valor que ele gera.

Para o COO da DrumWave, o modelo atual tem uma contradição: pessoas físicas e jurídicas produzem o insumo necessário para a evolução da IA, mas não contam com mecanismos claros para exercer a propriedade econômica sobre seus dados.

LGPD garante privacidade, mas não resolve a propriedade

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabeleceu direitos relacionados ao tratamento de informações pessoais. Ainda assim, Hruby argumentou que consentimento e privacidade não equivalem à propriedade dos dados.

Na prática, usuários podem aceitar ou recusar permissões em sites e aplicativos, mas continuam sem uma estrutura consolidada para registrar a titularidade, atribuir valor econômico e negociar o uso das informações. O executivo comparou essa situação ao funcionamento do dinheiro e de outros ativos, que dependem de sistemas capazes de identificar seus proprietários, estabelecer preços e viabilizar transações.

A proposta é criar uma infraestrutura que permita reconhecer a propriedade dos dados e definir como eles podem ser utilizados. Hruby também mencionou projetos de lei sobre o tema em tramitação no Congresso Nacional.

A ideia, segundo ele, não é simplesmente transformar informações pessoais em mercadorias. O ponto central é garantir às pessoas o direito de decidir sobre o uso dos próprios dados e, quando houver exploração econômica, participar dos resultados.

Uma poupança de dados para gerar renda

Como funcionaria esse modelo? Hruby propôs a criação de uma espécie de poupança de dados, na qual certificados de propriedade reuniriam informações geradas em diferentes atividades, desde o uso do celular e do cartão de crédito até registros de serviços públicos.

A partir dessa estrutura, cada pessoa poderia avaliar se seus dados têm valor para determinada empresa e autorizar seu uso em condições mais claras. A inteligência artificial, por sua vez, teria acesso a informações consentidas e potencialmente mais qualificadas, com menor exposição a riscos jurídicos e reputacionais.

O executivo apresentou uma estimativa de que cada pessoa poderia receber cerca de R$ 500 por mês pelo uso de seus dados. Trata-se de uma projeção citada por Hruby, não de uma renda já disponível ou garantida. O valor dependeria da implementação desse mercado, da demanda por informações e das regras de remuneração.

A mudança também alteraria a relação entre empresas e consumidores. Em vez de depender apenas da coleta de informações por meio de termos de uso e permissões, organizações teriam de construir relações de confiança para conseguir acesso a dados relevantes.

Soberania de dados também é uma questão brasileira

A proposta envolve três dimensões. Para as pessoas, significa ampliar a autonomia, criar uma possível fonte de renda e participar do valor econômico gerado pelas próprias informações. Para as empresas, a confiança pode se tornar uma vantagem competitiva, com acesso a dados de melhor qualidade e autorização explícita de uso.

Para o Brasil, o tema está ligado à soberania tecnológica. Hruby argumentou que o país precisa discutir quem controla o insumo estratégico da inteligência artificial, especialmente em um cenário no qual empresas e plataformas estrangeiras ocupam posições importantes no mercado nacional.

O executivo citou a China como exemplo de avanço nessa discussão, destacando o reconhecimento dos dados como ativos econômicos e financeiros, inclusive com possibilidade de registro nos balanços empresariais.

Hruby apontou sua visão da transformação que estamos vivendo: “a IA já está mudando tudo o que fazemos. A propriedade dos dados é a revolução que acelera essa mudança e permite que todos participemos dela”.

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