
A expansão dos data centers no Brasil pode ser muito maior do que uma corrida por infraestrutura para inteligência artificial. Durante o Data Center World Brasil 2026, Ricardo Brito, diretor-presidente da Desenvolve SP, e Rodrigo Mielke, diretor comercial da Microsoft, defenderam que o país precisa conectar investimentos em infraestrutura, digitalização, formação de profissionais e acesso a crédito.
Quanto mais empresas adotarem tecnologia, maior será a demanda por capacidade computacional. Mas o movimento precisa acontecer dos dois lados. Não basta instalar data centers se uma parcela relevante das empresas ainda não tem estrutura, profissionais ou conhecimento para usar essa capacidade.
O desafio é especialmente grande entre micro, pequenas e médias empresas. Segundo os executivos, esse grupo ainda investe mais em máquinas e equipamentos do que em tecnologia. A oportunidade está em fazer com que a infraestrutura digital também ajude a modernizar a indústria local, formar mão de obra e aumentar a produtividade.
IA virou discussão de negócio
Para Mielke, a inteligência artificial mudou o eixo da conversa sobre tecnologia, deixando de ser apenas uma discussão de TI e passou a estar ligado diretamente à estratégia das empresas. “Como usar tecnologia para ter mais eficiência? Como fazer com que as organizações criem produtos e serviços digitais que vão fazer diferença para o negócio deles?”, questionou. Isso envolve aumentar eficiência, criar produtos e serviços digitais e encontrar aplicações que efetivamente gerem valor.
Ele destacou que a Microsoft trabalha com a visão de levar a IA para o core business das empresas. Para isso, não basta disponibilizar ferramentas. É necessário ter dados de qualidade, digitalização dos processos e plataformas capazes de sustentar o uso da tecnologia.
Também é preciso contar com parceiros. Universidades, entidades como o Sebrae e empresas especializadas podem ajudar negócios de diferentes regiões a escolher caminhos tecnológicos mais adequados. A quantidade de informação disponível, segundo o executivo, já é tão grande que muitas empresas precisam de apoio para transformar conhecimento em decisão.
Licença de IA não resolve
Um dos pontos mais diretos da discussão foi a diferença entre comprar tecnologia e realmente adotá-la. Mielke alertou que simplesmente adquirir licenças de inteligência artificial não garante transformação. O mesmo vale para a indústria. A modernização não termina na compra de uma máquina mais avançada. É preciso digitalizar a cadeia como um todo, conectando etapas que vão da aquisição de insumos à produção e à venda para o consumidor.
A tecnologia precisa chegar ao chão de fábrica. Isso exige educação, qualificação e requalificação de profissionais que já estão no mercado. O desafio é preparar as pessoas para trabalhar com novas ferramentas e, ao mesmo tempo, criar condições para que novos talentos consigam ocupar essas posições. A Microsoft afirma ter um plano para capacitar mais de 5 milhões de pessoas no Brasil, com iniciativas distribuídas também fora dos grandes centros. Infraestrutura e mão de obra precisam avançar juntas.
Pequenas empresas são o maior desafio
Brito trouxe o debate para a realidade das empresas paulistas. À frente da Desenvolve SP, agência de fomento do Estado de São Paulo, ele apontou que ainda existe uma parcela importante da indústria que não passou pela transformação digital. O trabalho da instituição busca atender justamente micro, pequenas e médias empresas, oferecendo crédito para apoiar a jornada de digitalização. A proposta é ajudar essas companhias a transformar dados, tratados como um insumo bruto, em valor para o negócio.
Um dos exemplos citados é a parceria com o Senai. A pequena indústria pode estruturar um plano de digitalização com apoio técnico e, quando necessário, recorrer ao crédito da Desenvolve SP para colocar o projeto em prática. O tíquete médio da agência é de cerca de R$ 500 mil, com forte presença de pequenas e médias empresas. Para Brito, esse público concentra uma das maiores oportunidades de avanço tecnológico do país justamente porque ainda existe um grande espaço para modernização.
O argumento econômico por trás da digitalização é forte. Brito citou uma comparação entre Estados Unidos e Brasil para mostrar o tamanho do problema de produtividade. Nos Estados Unidos, as empresas que estão entre as 10% mais produtivas apresentam produtividade cerca de duas vezes maior do que as 10% menos produtivas. No Brasil, a diferença chega a cinco vezes. O desafio está em elevar a produtividade da enorme quantidade de negócios que ainda opera com baixo nível de digitalização.
Para Brito, levar crédito e tecnologia para essas empresas pode ajudar a reduzir essa distância. A ideia é trocar uma lógica tradicional de financiamento, voltada principalmente à compra de bens, por uma abordagem que também financie a transformação digital. “Pequenas empresas muitas vezes usam tecnologias obsoletas. Se conseguirmos que empresas pequenas adotem tecnologia, isso pode trazer um grande ganho de produtividade para o país”, destacou Brito.
O que o Brasil fará com toda sua capacidade vai depender do ecossistema: infraestrutura, empresas, crédito, educação, universidades, parceiros de tecnologia e trabalhadores precisam avançar juntos para que a inteligência artificial realmente se converta em produtividade e crescimento.






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