Fábrica da ABB Robotics, na região de Sorocaba (SP). Foto: divulgação.

A tradicional indústria automobilística brasileira, em um momento de mudança profunda diante da chegada de fabricantes chineses de carros híbridos e elétricos, reduziu drasticamente o ritmo de compra de robôs para suas linhas de produção, ou acumula capacidade ociosa. Isso tem obrigado os fabricantes de soluções do tipo, incluindo a ABB Robotics, a expandirem pipelines para abrir novos mercados.

O discurso para crescer em um período de estabilidade das vendas é bem objetivo: aplicações industriais de robôs são mais simples e baratas do que o senso comum imagina, e mesmo indústrias médias e pequenas – às vezes até mesmo startups – podem se beneficiar da tecnologia. Equipamentos de entrada custam a partir de R$ 30 mil, preço considerado acessível para uma máquina que pode funcionar de forma ininterrupta por mais de uma década.

“Robótica é super simples, e tem ficado mais simples com o passar do tempo. Queremos mostrar que todo mundo pode usar”, ponderou o diretor da ABB Robotics para o Cluster South America da empresa, Rodrigo Bueno, durante visita do Coletivo Tech à fábrica da empresa nos arredores da cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo. Foi a primeira vez que a multinacional de origem sueca abriu as portas para uma visita da imprensa brasileira.

Atualmente, cerca de 50% dos negócios da ABB Robotics ainda são fechados com fabricantes de veículos automotores ou de autopeças, que historicamente emprega robôs em suas linhas pelo menos desde a década de 1980. Mas o objetivo é reduzir essa dependência – e, de lambuja, expandir a automação robótica na indústria brasileira como um todo, incluindo setores como metalurgia, mineração, alimentos e bebidas e diversos outros. 

Novas tecnologias, como os gêmeos digitais e a inteligência artificial, também são vistos como potenciais impulsionadores de vendas [ver abaixo].

China lidera uso de robôs industriais

Rodrigo Bueno, diretor da ABB Robotics para o Cluster South America. Foto: divulgação

Segundo dados da Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês), a indústria brasileira tem um baixíssimo índice de automação por robôs, menos de 20 equipamentos em uso para cada 10 mil trabalhadores. Os líderes do ranking aparecem muito a frente em termos de densidade: a Coreia do Sul tem 1,2 mil, e Singapura cerca de 800. 

Em volume absoluto a China lidera, com 54% de todas as instalações globais de robôs industriais em 2024, ou cerca de 295 mil unidades.

A fábrica da ABB Robotics nos arredores de Sorocaba, interior de São Paulo, tem cerca de 4 mil m² de área e concentra parte expressiva dos 130 trabalhadores contratados no Brasil – outra parcela ocupa a sede administrativa na capital do estado. O Brasil é o maior mercado para robôs industriais da América do Sul, com pouco mais de 3 mil robôs vendidos em 2025 (segundo a mesma IFR), seguido pela Argentina. Não por acaso em Buenos Aires está o segundo e último escritório sul-americano da ABB Robotics.

Os equipamentos são fabricados em três países (Suécia, EUA e China), e a planta brasileira os monta para projetos e necessidades específicas dos clientes. Em Sorocaba, além dos serviços de assistência técnica, é feito o “retrofit” de equipamentos usados, às vezes revendidos por preços até 60% menores que os de robôs mais novos. 

Há também um centro de treinamento, onde são ministrados cursos e capacitações – dos quais participam principalmente funcionários dos clientes, mas também de integradores (mais da metade do volume de vendas de robôs no Brasil são feitas por parceiros) e alunos de faculdades e de ensino técnico. A estrutura tem quatro anos de idade e já formou mais de mil profissionais.

A falta de mão de obra é apontada pelos executivos da ABB Robotics como outro fator provável para o ritmo lento de adoção de robôs no País. “Sim, nós estamos em uma crise de mão de obra”, diz categoricamente o executivo. “A ABB tem uma cultura de manter e crescer profissionais. Eu sou um exemplo, comecei como estagiário e agora sou diretor. Desenvolver profissional custa, com a identidade da empresa custa mais ainda.”

Indústria 4.0, ainda

Apesar de representarem a parte mais visível da automação industrial, os robôs são apenas parte de soluções tecnológicas mais amplas. Tanto as vendas diretas da ABB Robotics como os projetos feitos com integradores conjugam os equipamentos físicos com outras tecnologias – entre elas aparecem cada vez mais recursos disruptivos como IA física, sensores, computação espacial, gêmeos digitais e realidade expandida, entre outros.

Em outubro do ano passado, o conglomerado ABB confirmou a venda da divisão de robótica para o japonês Softbank por US$ 5,37 bilhões. A operação deve ser concluída até o fim desse ano, e a expectativa é que a injeção de capital e o trabalho com outras empresas do fundo de investimento aumentem ainda mais a tecnologia embarcada nas soluções de robótica industrial, especialmente inteligência artificial.

Enquanto isso, a fábrica de Sorocaba conta com um showroom em que potenciais clientes e parceiros podem experimentar soluções. Um dos robôs articulados expostos, por exemplo, utilizava IA para separar mercadorias de tipos distintos em caixas, usando visão computacional para diferenciá-las. Outro era capaz de aprender com um operador humano como fazer a melhor solda em peças de metal sem necessidade de programação. 

Um outro, do tipo AMR (móvel autônomo), recebia em um pallet as caixas e as transportava de forma autônomo pelo espaço de demonstração. Também havia óculos de realidade aumentada em que é possível validar ideias e projetos em ambiente virtual antes da produção no “chão de fábrica”, recurso que cresceu em uso desde a pandemia de covid-19 e que reduziu os custos dos projetos na fase de planejamento. 

Responsabilidade ambiental

Adrian Covi, Gerente da Linha de Negócios de Indústrias da ABB Robotics na América do Sul. Foto: divulgação

No portfólio da empresa estão, além dos robôs articulados (de 4 ou 6 eixos) de diversos tamanhos, há os cobots (colaborativos, que trabalham em conjunto com humanos) e os AMRs, todos gerenciáveis pela plataforma de software proprietária RobotStudio – e Nvidia Omnniverse, mais recentemente.

Além da tecnologia embarcada, a empresa busca se diferenciar dos competidores – especialmente das marcas chinesas, que cresceram no Brasil nos últimos anos – com uma oferta robusta de serviços e suporte. O argumento ambiental também é forte: a empresa recoloca no mercado parte expressiva dos equipamentos usados que recolhe depois de um “retrofit”. 

“Temos uma responsabilidade ambiental, com a economia circular. Isso significa todo um ecossistema em torno do ciclo de vida do produto, que é feito para durar”, diz Adrian Covi, Gerente da Linha de Negócios de Indústrias da ABB Robotics na América do Sul. 

“Tentamos não nos desfazer dos equipamentos. Tanto vender uma máquina nova como fazer o ‘retrofit’ entra na minha contabilidade, nós vamos vender do mesmo jeito. No fim é importante para o cliente entender qual o melhor custo-benefício, sem deixar esse equipamento ir para um ferro velho”, complementa Bueno.

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