
A alta liderança tem apoiado o avanço da inteligência artificial nas empresas brasileiras, mas a divisão de responsabilidades ainda dificulta a governança da tecnologia. No Brasil, 35,8% das organizações relatam atritos ou indefinições entre os diretores de TI (CIOs) e os executivos responsáveis por IA (CAIOs). O índice é o maior entre os dez países avaliados pela Thoughtworks em seu estudo global sobre a gestão da inteligência artificial nas empresas.
O levantamento “Thoughtworks Global CIO Survey 2026: Who Governs Enterprise AI?” ouviu 3.200 líderes de tecnologia, incluindo 400 no Brasil. Os resultados mostram que, embora o país registre elevada confiança na capacidade de governar projetos de IA, ainda existem desafios para alinhar estratégia, execução e responsabilidades.
CEOs assumem protagonismo nas decisões
O Brasil é o país em que os CEOs mais influenciam as decisões corporativas sobre inteligência artificial. Segundo a pesquisa, 39,8% das empresas brasileiras apontam o presidente executivo como a principal influência nessa área, contra 23,1% na média global.
A gestão dos recursos, porém, não segue necessariamente a mesma centralização. Em 25,8% das organizações brasileiras, os próprios departamentos de negócio controlam os orçamentos de IA, ante 20% no cenário internacional. O modelo combina direcionamento estratégico da alta liderança com investimentos distribuídos entre diferentes áreas.
Alexey Bôas, Regional CTO LATAM da Thoughtworks, destacou em nota que “a inteligência artificial já se consolidou como uma prioridade estratégica para as organizações brasileiras, com forte envolvimento da alta liderança executiva. O protagonismo dos CEOs é um sinal positivo, pois demonstra que as decisões sobre IA estão sendo tratadas como parte da estratégia de negócios e não apenas como uma iniciativa tecnológica”.
CIOs e CAIOs disputam espaço na governança
A expansão dos cargos dedicados à inteligência artificial aumenta a necessidade de definir atribuições. Globalmente, 70% das organizações já têm um Chief AI Officer (CAIO), enquanto outras 26% planejam criar a função. No Brasil, a presença desses executivos chega a 72%.
A criação do cargo, entretanto, não elimina as sobreposições com a diretoria de TI. O percentual de empresas brasileiras que relatam conflitos ou falta de clareza entre CIOs e CAIOs supera a média mundial de 28,9%. A disputa envolve a liderança das estratégias de IA, a governança, as operações e o gerenciamento de riscos.
Apesar dos conflitos de atribuição, os executivos brasileiros demonstram confiança na preparação das empresas para administrar a tecnologia. Entre os CIOs do país, 64,8% afirmam estar muito preparados para governar iniciativas de IA. No levantamento global, o índice é de 53,4%.
A percepção de responsabilidade pelos possíveis impactos da tecnologia também difere entre os mercados. No Brasil, 34,5% dos líderes de TI dizem se sentir responsáveis por incidentes de segurança envolvendo IA, enquanto 31,5% apontam responsabilidade pelos efeitos da tecnologia sobre a força de trabalho. Os índices brasileiros variam de 29% a 35% nas categorias avaliadas.
No cenário global, 37% dos CIOs se consideram responsáveis por incidentes de segurança relacionados à IA, 35% por violações de privacidade de dados e 34% por danos à reputação causados pelo uso inadequado da tecnologia. Ao mesmo tempo, 88% dos líderes ouvidos internacionalmente afirmam que a adoção da IA está avançando mais rápido do que as estruturas de governança conseguem acompanhar. Outros 90% acreditam que as equipes centrais de TI continuarão sendo responsabilizadas por falhas de segurança ou compliance envolvendo ferramentas de IA contratadas diretamente pelas áreas de negócio.
Capacitação profissional fica para trás
A preparação das equipes é outro obstáculo à adoção responsável da inteligência artificial. Globalmente, apenas 24% dos CIOs afirmam investir na capacitação de profissionais de tecnologia em IA, dados e automação. Quando o foco é qualificar toda a força de trabalho, a proporção cai para 15%. No Brasil, somente 12,2% das empresas investem na formação profissional, segundo o estudo.
Os dados indicam uma distância entre a velocidade de implementação das ferramentas e a preparação das pessoas para utilizá-las. Além de investir em tecnologia, as empresas precisam desenvolver competências, rever processos e preparar funcionários para mudanças na rotina de trabalho.
“À medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais estratégica para os negócios, o próximo estágio de maturidade será transformar o entusiasmo pela tecnologia em governança efetiva, alinhando lideranças de negócio, tecnologia e IA em torno de objetivos comuns. As organizações que conseguirem combinar velocidade de inovação com responsabilidade estarão mais bem posicionadas para gerar valor duradouro com a IA”, acrescentou Bôas.






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