
Trabalhar com a parte neural, especialmente no tratamento de distúrbios psiquiátricos como a depressão e condições crônicas como a dor intratável ou o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), é um campo desafiador. A técnica de Estimulação Magnética Transcraniana é um método não invasivo bem estabelecido para esses problemas.
No entanto, a aplicação tradicional do método, essencialmente a mesma desde o final dos anos 80, exige que um operador segure o estimulador na cabeça do paciente, resultando em pouca precisão e variação no posicionamento durante a sessão. É neste cenário que surge uma inovação desenvolvida por um grupo que combina a experiência brasileira em robótica da USP de Ribeirão Preto com pesquisas na Finlândia, buscando automatizar completamente o processo.
Como explicou Victor Souza, cofundador e CTO da startup Cortisys Oy, em entrevista durante o Slush 2025, na Finlândia, a tecnologia é construída sobre um componente robótico – um braço com algoritmo especializado – que consegue posicionar o estimulador automaticamente com precisão e acurácia, removendo o operador do trabalho braçal e eliminando a variabilidade humana. Além da automação, o sistema utiliza um novo dispositivo que combina vários estimuladores em uma só cápsula, permitindo que ele trate múltiplas regiões do cérebro de forma rápida.
Tratar a “rede” neural e não apenas um ponto específico é crucial para que o tratamento seja mais eficaz e duradouro e surge, além da automação, como um grande diferencial da solução. Com a empresa recém-fundada e planos de comercialização em andamento, o produto promete um aumento significativo na produtividade clínica. A startup acabou de ser formalizada como um spin-off da Universidade de Aalto, na Finlândia. A seguir, você confere os principais trechos da conversa.
Vitor Cavalcanti – Como que vocês chegaram nessa solução, porque quando a gente fala de dor, trabalhar com a parte neural é sempre muito complexo?
Victor Souza – Esse é um trabalho antigo, de bastante tempo. Eu sou do Brasil, fiz mestrado e doutorado na USP de Ribeirão Preto. E eu trabalho desde a minha graduação com a parte de estimulação magnética transcraniana. É um método já bem estabelecido para tratar distúrbios psiquiátricos. A depressão é a mais comum entre as principais aplicações, mas tem um monte de outras aplicações também na parte diagnóstica, no estudo da dor intratável, dor neuropática, de Transtorno obsessivo compulsivo (TOC).
A vantagem dessa técnica de estimulação transcraniana é que ela não é invasiva. Então, a pessoa entra na sala, coloca o estimulador na cabeça, aplica uma sequência de pulsos (ajustada intensidade e parâmetros de acordo com dados do indivíduo). Ela pode ser individualizada, que é uma coisa muito importante. E você aplica essa estimulação em uma região do cérebro que está associada com determinada função. No caso da depressão, que é um exemplo bom, a gente tem a parte mais frontal do cérebro, que é responsável pela regulação de humor, certo? Então, em casos de depressão muito forte, aqueles resistentes a tratamentos com medicamentos e determinadas variações ali, essa área pode estar hipoativa ou hiperativa. Com essa técnica de estimulação, você pode retornar essa atividade neuronal para um patamar considerado saudável.
É como pensar em um exercício físico na academia. O cérebro é a mesma coisa. Mas a maneira como a técnica é aplicada é praticamente a mesma desde a sua invenção, no fim dos anos 80. O que alterou e o que mudou nesses últimos tempos foram alguns protocolos novos. Conectando agora com o nosso trabalho, o que a gente faz há bastante tempo aqui na Finlândia, é um novo estimulador que combina vários desses estimuladores em um só, de forma inteligente e que automatiza todo o processo de estimulação. E ele ainda permite você estimular várias regiões do cérebro de forma bem rápida, o que você não conseguiria fazer com a mão.
VC – Acho que entendi. Então você pega, desde os anos 80 para cá, todas as técnicas que foram aplicadas, tipo de movimentação, local e velocidade do estímulo, e coloca nessa sua tecnologia, só que de forma inteligente ela vai modulando a estimulação.
VS – Exatamente. Então você automatiza. O nosso diferencial competitivo, no caso, seria a automação.
VC – E para essa automação vocês usam o quê?
VS – Duas coisas. Uma é um braço robótico que, com algoritmo especializado que a gente desenvolveu em parceria com a USP de Ribeirão Preto, ele consegue posicionar o estimulador automaticamente enquanto a pessoa está lá. No modelo atual, tem que ter um operador que fica lá segurando esse estimulador na cabeça da pessoa. É um modelo antigo de aplicação e pouco preciso, o posicionamento varia durante a aplicação e você perde a eficácia da técnica. O robô ajuda nessa parte do posicionamento, automatiza esse processo, remove o operador do trabalho braçal.
Além disso, a gente tem essa combinação de estimuladores dentro de uma só cápsula, vamos assim dizer, que permite automatizar e estimular várias regiões próximas e de forma rápida e inovadora.
VC – Mas vocês têm algum sistema que faz essa operação dos estímulos, porque por exemplo, você tem lá o braço robótico, que isso já tira essa chance de: ah, meu braço cansou, movimentei 2 mm aqui. Agora, quando você fala de ter vários estimuladores ali nessa cápsula, você tem um sistema que identifica o que e de que forma estimular?
VS – Isso. Para atingir determinada região do cérebro (tudo é na base de corrente elétrica que passa num fio e esse fio gera um campo magnético que gera uma ativação no cérebro), eu preciso calcular o tempo todo qual que é a intensidade desse pulso nesses estimuladores e qual a combinação específica. Para isso, a gente tem um software que faz esse controle.
VC – Aí, você imputa a informação do paciente antes do procedimento (depressão, dor crônica, enxaqueca), a pessoa vai para a sessão, coloca a capsula e o tratamento estímulo começa?
VS – Bom, esse é estado onde a gente quer chegar, tá? Mas ainda não.
Aplicação automatizada
VC – Então, como funciona?
VS – A gente tem um conhecimento a priori. A pessoa tem, sei lá, depressão, e a gente sabe qual a área que tem que ser tratada de forma geral. Aí a gente pede para o robô levar esse estimulador até lá por meio de um comando. Ele não vai lá de forma autônoma, identifica a cabeça e trata. Isso é onde a gente quer chegar e é o que é o nosso sistema possibilita. Mas, nesse momento, a gente clica lá, o robô leva o estimulador para aquela região e aplica o estímulo. Aí a aplicação do estímulo acontece de forma automatizada.
VC – E essa região é um neurologista que identifica para ser aplicado?
VS – Sim. ou um psiquiatra. Neurologista, se for relacionada à parte neurológica do tipo e AVC, e doenças psiquiátricas é o psiquiatra mesmo.
VC – O produto hoje também funcionaria para dor genérica ou tudo precisa estar ligado à questão neural?
VS – Tem que ser associada à parte neural.
VC – E hoje, qual que é o momento de vocês em termos de aplicabilidade, de próximos passos da tecnologia? Você já deu aí um sinal de onde vocês querem chegar, mas qual que é o momento?
VS – Fundamos a empresa agora, saímos da universidade mês passado. E estamos no processo de finalizar a transferência das patentes, de tudo que a gente desenvolveu. Já temos um investimento pré-seed (investimento inicial para viabilizar a ideia da empresa), é um investidor lá dos Estados Unidos, o que vai permitir que a inicie esse processo de comercialização, de criar a empresa e de começar a andar com as próprias pernas.
Então, nesse próximo ano e meio vamos definir o produto que vai ser aceito pelo mercado e levantar dinheiro. Como você comentou que gosta de deep tech, temos de lembrar que é muito caro o desenvolvimento de equipamento e leva tempo, né? Então, toda a parte de regulamentação é muito rígida. Essas partes de FDA, Anvisa, regulamentação de dispositivo médico da Europa que é muito rígida. Então, assim, o desenvolvimento vai levar tempo, é um desenvolvimento caro, mas e a gente tá confiante porque nossa tecnologia realmente é um diferencial.
Mais eficiência na clínica
VC – Dos testes que vocês fizeram até agora, quais diferenciais você destacaria?
VS – A velocidade que a gente consegue fazer os processos por causa da automação. Esse é um ponto importante e, para clínica, se aumenta a capacidade, dá mais produtividade. Hoje a realidade de mercado é: temos mais pacientes querendo ser tratados do que as clínicas podem oferecer. Vamos destravar esse potencial.
Outro ponto é a parte de precisão, tipo, a gente está usando robô, não está uma pessoa lá segurando. Na parte de aplicação, da forma como é feita, ainda não é tão comum você ter câmera que mostre posicionamento em tempo real, que chama navegação. E isso é uma fonte de muita variabilidade. Então, tipo, se você sai 2 mm do alvo, você já está fora. E a gente vê isso quando a gente faz a parte de mapeamento de movimento, se você sai um ou dois milímetros já não evoca o movimento dos dedos. Essa parte de precisão e acurácia que a robótica traz é inegável.
VC – E para o paciente, vocês chegaram a mensurar a diferença?
VS – A gente não fez isso em paciente. Testamos mais o operacional, porque o nosso sistema entrega o que qualquer outro sistema no mercado entrega, só que com mais eficiência em termos de parâmetro, e traz esse componente novo do múltiplas áreas. Então, a questão principal dessas múltiplas áreas, pensa que você está tocando piano com uma tecla só, você não vai conseguir fazer a música toda. O cérebro funciona dessa forma. Você tem várias regiões do cérebro interagindo de forma rápida. Se você quer realmente tratar de uma forma eficaz e duradoura (e tem muita evidência), você tem que tratar várias regiões do cérebro, tratar a rede como um todo.
A analogia da academia também é boa, porque (não tratar a rede) é como você ir à academia e exercitar só seu braço direito. O resto do corpo vai ficar como? Esse (multiestímulo) só a nossa tecnologia hoje no mundo consegue trazer, que é uma parte bem diferencial. Só que esses últimos anos que a gente vem desenvolvendo isso, o desenvolvimento ficou focado na parte tecnológica e de algoritmo e de verificação experimental simples. Mas já estamos com cinco equipamentos em quatro países diferentes. Dois aqui na Finlândia, um no Brasil, em setembro nós levamos para a USP de Ribeirão Preto, um na Itália e um na Alemanha.
VC – Só para ficar mais claro uma questão. Em termos de tecnologias que foram usadas, patentes, qual participação do Brasil?
VS – Nas patentes não tem. O Brasil teve uma participação muito forte, crucial eu diria, na parte de controle robótico e de localização espacial, que foi toda feita por nós lá na USP de Ribeirão Preto. Mas esse foi um projeto de código aberto nosso. O código é para toda a comunidade científica. Porque é um sistema caro e não acessível para qualquer grupo de pesquisa. Mas para empresas, de qualquer forma, a gente vai ter que desenvolver tudo do zero por causa da regulamentação.
A patente mesmo é a parte da instrumentação do estimulador e da eletrônica que controla estimulador mesmo e isso foi desenvolvido tudo aqui na Finlândia. E a participação do Brasil nessa parte sou eu que vim para cá, não teve a USP ou qualquer universidade.






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