
Ele trabalhou no time de fundação da Blue Origin, empresa de Jeff Bezos que desenvolve foguetes para viagens privadas ao espaço. Atuou como hacker e já falava de criptomoedas nos anos 1990. Hoje está envolvido com deep tech, indo de energia solar do espaço até robótica avançada.
O currículo do futurista Pablos Holman chama tanta atenção quanto sua visão sobre IA, transição energética e o que devemos fazer pelo futuro da humanidade. Ele conversou com exclusividade com o Coletivo Tech durante o 3D Experience World 2026.
Vitor Cavalcanti – No Brasil e no mundo, discutimos a transição energética não apenas pela tecnologia, mas pelo viés social. Você vê movimentos de investimento que abordem o lado social da energia, e não apenas para alimentar data centers e IA?
Pablos Holman – Novas tecnologias passam por ciclos de desenvolvimento. No início, é necessária uma indústria ou governo proativo, pois existem questões regulatórias e diversas indústrias (como a mineração) que precisam convergir. Atualmente, o mundo olha para a energia nuclear e a considera complicada, cara e lenta.
Precisamos superar isso para mostrar que ela pode ser barata, segura e escalável para resolver problemas em outros lugares. O exemplo positivo é a energia solar. Levamos 40 anos para torná-la atraente, e hoje ela é extremamente útil para a carga energética no Brasil por ser barata e escalável. Espero que os pequenos reatores modulares sigam esse ciclo, mas de forma mais rápida, pois estamos apenas no começo agora.
VC – Como contar histórias com computadores para mudar o mundo? Por que você traz essa crítica à indústria de software?
PH – O termo “empreendedor” perdeu o sentido; se você abre um carrinho de tacos, é um empreendedor, mas não está fazendo algo novo. O empreendedor de tecnologia traz algo inédito. O problema é que fomos “diluídos” por 25 anos de empresas de software. Não temos uma grande indústria de tecnologia, temos uma grande indústria de software (nos EUA). O software sozinho não resolve os grandes problemas do mundo.
Celebramos o Instagram e o Snapchat como grandes vitórias, mas eles são insignificantes comparados a tecnologias que resolvem problemas reais. Precisamos ajudar os fundadores a ver que é mais impactante resolver o setor automotivo ou construir foguetes do que criar aplicativos de táxi ou compartilhamento de fotos. Agora, finalmente, podemos construir robôs, lasers e reatores nucleares.
VC – Como você descreve esta década de transformações e turbulências na tecnologia e na política global?
PH – Vivemos um momento em que as pessoas não estão atingindo seu potencial de produtividade; elas vão ao trabalho, mas não realizam trabalho significativo. Isso cria um vácuo. No caso da energia, por exemplo, nos distraímos tentando capturar carbono da atmosfera (o que é ineficiente) em vez de simplesmente deixar o carvão no chão.
Instituições bem-sucedidas — sejam empresas, governos ou religiões — desenvolvem um “sistema imunológico” cujo trabalho é suprimir o risco.
O problema é que a mudança se parece com risco. Chegamos a um ponto onde o sistema imunológico é tão forte que não se consegue consertar nada. É por isso que, nos EUA, estamos “queimando” instituições como a educação e órgãos reguladores de energia: porque não podíamos construir sob o modelo antigo. O caos e a incerteza atuais são o processo de começar de novo para chegar a um lugar melhor.
VC – Todas essas transformações afetam muito as lideranças e existe muita pressão, sobretudo, quando falamos de IA. O que você diria a esses líderes que não sabem o que fazer?
PH – Eles precisam ser introspectivos e perguntar: “O que o mundo precisa de nós?”. Se você estivesse começando do zero hoje, como forneceria seu serviço? O erro é dizer a um CEO que ele precisa inovar ou morrer; CEOs não são contratados para inovar, mas para fazer o mesmo que o ano passado, um pouco melhor. O que eles devem fazer é desenvolver relacionamentos com quem é inovador.
Nas empresas americanas dos anos 80, o P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) foi substituído por M&A (Fusões e Aquisições). Uma forma funcional de pensar a inovação é observar as startups: quando uma delas se destaca, você a compra e leva a tecnologia aos seus clientes. Os líderes devem usar seu instinto de “compradores” e buscar parceiros, pois as startups precisam de quem ajude a moldar a tecnologia para o mercado.
VC – Estamos caminhando para um futuro em que um único empreendedor poderá gerenciar uma empresa bilionária com centenas de agentes de IA em vez de pessoas?
PH – Tenho certeza de que isso vai acontecer; eu mesmo já uso agentes. No entanto, você ainda vai querer uma equipe, pois a maioria das pessoas não é boa em pensar na variedade de tarefas para os agentes. O que isso significa é que cada empresa será mais produtiva. A primeira empresa de um bilhão de dólares com apenas uma pessoa deve surgir este ano ou no próximo. É um marco interessante, mas o objetivo real deve ser o aumento do nível de produtividade de todos.






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