
O avanço da transição energética e da digitalização global vem ampliando a disputa por minerais críticos usados em baterias, semicondutores e equipamentos eletrônicos. Os resíduos eletroeletrônicos deixaram de ser apenas um problema ambiental e passaram a ser tratados como uma fonte estratégica de matérias-primas. No Brasil, porém, grande parte desse potencial ainda permanece subutilizado, apesar do volume crescente de descarte de celulares, computadores, baterias e outros dispositivos.
Dados do Projeto RECUPER3 mostram que o país gera mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano. Boa parte desse material fica armazenada nas residências ou segue para descarte inadequado, dificultando o reaproveitamento de metais de alto valor agregado, como lítio, cobalto, ouro, platina e paládio.
“Mineração urbana”
Coordenado pelo Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o projeto reúne o diagnóstico mais amplo já realizado sobre a cadeia de resíduos eletroeletrônicos no Brasil. O estudo aponta que esses materiais podem funcionar como “minas urbanas”, capazes de reduzir a dependência externa por insumos estratégicos e fortalecer a indústria nacional ligada à economia circular.
“O Brasil ainda joga fora uma riqueza enorme. Cada celular, cada placa de circuito que vai para o lixo comum carrega minerais críticos que precisamos importar a custo elevado. O Projeto RECUPER3 mostra que é possível reverter esse quadro: com rastreabilidade, processamento nacional e políticas consistentes, a mineração urbana pode garantir o fornecimento desses insumos para a nossa indústria e fortalecer a soberania tecnológica do país”, explicou em nota a Dra. Lúcia Helena Xavier, pesquisadora do CETEM e coordenadora do Projeto RECUPER3.
Cadeia de reciclagem enfrenta entraves
A pesquisa de campo envolveu 1.426 consumidores, além de agentes da cadeia de reciclagem e recondicionamento em diferentes regiões do país. O levantamento incluiu comerciantes, recicladores, catadores, centros de recondicionamento de computadores, assistências técnicas e órgãos ambientais. Lúcia Helena destaca que “um dos achados é o chamado “índice de retenção domiciliar”: 81,2% dos brasileiros mantêm equipamentos obsoletos, até com substâncias tóxicas como chumbo, mercúrio e cádmio, em casa por longos períodos por falta de informação sobre onde e como descartá-los”.
Os resultados mostram limitações estruturais que ainda dificultam o avanço da logística reversa no setor. Entre os principais entraves estão a baixa cobertura de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), a adesão insuficiente do varejo às exigências do Decreto Federal nº 10.240/2020 e diferenças significativas entre os estados nos processos de licenciamento ambiental e nos sistemas de monitoramento eletrônico.
Além da infraestrutura limitada, o estudo identifica que a maturidade regulatória ainda varia de forma significativa entre os entes federativos. Esse cenário cria barreiras para a expansão de cadeias produtivas ligadas à reciclagem avançada e ao reaproveitamento de minerais estratégicos.
Rotas tecnológicas e economia circular
O Projeto RECUPER3 foi estruturado em cinco volumes técnicos, que abordam desde modelos de negócio até tecnologias de recuperação de materiais. O trabalho mapeou 13 agentes econômicos e identificou oito modelos operacionais ligados à circularidade dos resíduos eletroeletrônicos.
Entre as frentes analisadas estão tecnologias de piro metalurgia, hidrometalurgia e biometalurgia aplicadas ao refino de metais presentes nos equipamentos descartados. O estudo também propõe metodologias para medir o potencial de circularidade dos materiais e incentivar arranjos produtivos locais voltados à reciclagem tecnológica.
A iniciativa ainda defende investimentos em capacidade nacional de refino e maior integração entre políticas públicas, indústria e sistemas de logística reversa. O objetivo é ampliar o aproveitamento doméstico desses materiais e reduzir perdas econômicas associadas ao descarte inadequado.
Marco regulatório ganha força
O projeto se apoia na ampliação do marco regulatório voltado à gestão de resíduos sólidos e minerais estratégicos. Além da Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/2010, o setor passou a contar recentemente com instrumentos como o Decreto nº 11.413/2023, que criou os Créditos de Logística Reversa.
Outro ponto destacado é a Lei nº 15.088/2025, que flexibiliza a importação de resíduos destinados à transformação em materiais estratégicos. A medida busca estimular cadeias industriais ligadas à recuperação de minerais críticos e ampliar a competitividade brasileira em setores associados à transição energética e às tecnologias de baixo carbono.






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