
Um novo levantamento da Ipsos sobre pessoas e mudanças climáticas mostra uma desaceleração no engajamento individual com a agenda climática em escala global, mesmo em um contexto de recordes recentes de temperatura. Segundo o estudo, três dos últimos quatro anos figuram entre os mais quentes já registrados, mas o interesse em ações pessoais relacionadas ao tema recuou em 26 países monitorados desde 2021.
No Brasil, a tendência de queda também aparece, porém em ritmo mais moderado. A parcela da população que considera urgente agir contra as mudanças climáticas para evitar impactos às futuras gerações caiu 7 pontos percentuais, atingindo 70%. Ainda assim, o país permanece acima da média global, que é de 61%. Entre os destaques negativos, a Polônia registrou a maior retração no período.
Priscilla Branco, Diretora de Opinião Pública da Ipsos no Brasil, explicou em nota que a mudança reflete uma transferência de responsabilidade. Ela destaca: “os cidadãos estão, cada vez mais, buscando a liderança dos governos e das empresas, por entenderem que o peso da ação não pode recair apenas sobre os indivíduos. Nesse sentido, os dados nos mostram não uma história de indiferença, mas de exaustão e mudança de expectativas”.
Governos são cobrados por mais ação climática
A pesquisa também traz uma percepção consistente de que governos poderiam ampliar seus esforços. No Brasil, 71% dos entrevistados defendem maior atuação do país no enfrentamento da crise climática, acima da média global de 59%. O recorte geracional mostra diferenças relevantes: Baby Boomers apresentam maior cobrança (77%), enquanto a Geração Z registra 67%. Entre mulheres brasileiras, o índice chega a 75%, frente a 66% entre homens.
No cenário internacional, o estudo aponta uma divisão entre países de renda média e alta. Nas economias emergentes, 71% defendem ações mais intensas, enquanto nas nações de alta renda o índice cai para 53%, mesmo com histórico de maior contribuição para emissões globais.
A percepção de liderança climática também é limitada. Em média, apenas 27% dos entrevistados em 31 países consideram que seus governos lideram o combate às mudanças climáticas. No Brasil, esse índice é de 34%, com 31% discordando dessa avaliação. Já entre países do G7, somente 25% enxergam liderança efetiva.
Pressões da transição energética
Outro ponto analisado é a ausência de consenso sobre planejamento governamental. Globalmente, 32% acreditam que não há um plano claro para enfrentar a crise climática, enquanto 30% reconhecem estratégias estruturadas. No Brasil, 33% dizem perceber a existência de diretrizes definidas.
A pesquisa também detalha o chamado “trilema energético”, que envolve custo, segurança e sustentabilidade. O aumento no preço da energia é uma preocupação para 74% dos entrevistados. Além disso, 55% defendem prioridade à autonomia energética, mesmo com custos mais elevados, enquanto apenas 46% confiam na capacidade futura de abastecimento elétrico em suas regiões.
“A transição energética deixou de ser um cenário futuro e se tornou o principal desafio econômico e de segurança da atualidade. Desde choques recordes nos preços do petróleo até o aumento da demanda por eletricidade impulsionada pela inteligência artificial, as forças que estão remodelando os mercados globais de energia impactam simultaneamente famílias e economias”, pontuou Priscilla.
As preocupações climáticas imediatas seguem elevadas. Ondas de calor e tempestades severas preocupam 63% da população global, seguidas por secas (60%) e poluição do ar (59%). Já 39% temem apagões no próximo ano, refletindo a percepção de instabilidade nos sistemas energéticos.
A edição 2026 da pesquisa ouviu 23.704 adultos em 31 países, com amostras representativas ajustadas por dados demográficos locais. No Brasil, foram cerca de 1.000 entrevistados.






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