
A primeira edição do São Paulo Innovation Week (SPIW) começou com uma mensagem forte do premiado físico brasileiro Marcelo Gleiser. O tema da apresentação por si só já chamava a atenção: Mentes Brilhantes Não Pensam Igual IA e o Futuro da Humanidade. Entre idas e vindas, o pesquisador, professor e autor passou pela história, suas revoluções, mas sempre tendo em mente uma pergunta que parece simples: como vamos preservar nossa humanidade em uma sociedade cada vez mais tecnológica?
O fato é que ciência e tecnologia trouxeram juntas uma série de avanços que precisamos comemorar. Só a expectativa de vida mais que dobrou em menos de 100 anos com medicina, saneamento básico e tecnologias, hoje simples, como a dos refrigeradores. São tecnologias e produtos que surgiram a partir da inquietação de cientistas que questionam a natureza da realidade, o funcionamento do organismo, começam a produzir pesquisas básicas e avançam.
“Mas o mundo mudou profundamente com o casamento das tecnologias e da industrialização. Olhamos como usar recursos naturais para criar transporte, energia, aquecimento, educação. Mas com isso, a população mundial quadriplicou. Na gripe espanhola, a população era de 2 bilhões, hoje são 8 bilhões”, refletiu o físico.
Recursos finitos
Esse salto populacional ampliou as demandas por habitação, alimentação e energia. Muito do que se desenvolve atualmente leva em consideração a problemática de suprir essa demanda gigantesca pelo aumento da população na terra. Se lá atrás na revolução agrícola entendemos o processo de produção de alimentos e concentração de pessoas em áreas férteis, hoje dominamos o mundo, exploramos todo tipo de recurso e já pensamos em explorar outros planetas.
Mas a questão toda gira em torno de algo que conhecemos há muito tempo: vivemos em um planeta com recursos finitos, mas com fome de crescimento infinito. Como frisou Gleiser, nos últimos 100 anos conseguimos queimar 150 milhões de anos de vida que existiram na terra, em analogia ao consumo de combustíveis fósseis, o que mostra que estamos diante de uma situação completamente insustentável.
Na visão do físico, a finitude de recursos, especialmente dos combustíveis, faz com que a transição energética seja não apenas necessária como urgente. “Estamos sendo vítimas do nosso próprio sucesso industrial. Desde os anos 1970 as pessoas já sabiam (da finitude de recursos). Primeiro relatório falando sobre aquecimento global veio dessa época produzido pela Exxon. Mas os acionistas não estão interessados nisso, porque é um problema que se espalha para frente e eles estão preocupados com a conta bancária do agora”, criticou.
Os interesses divergentes colocam em lados opostos grandes grupos que exploram esses tipos de minerais e agentes da sociedade civil, mas também países que divergem em suas visões de mundo. O próprio interesse em explorar as possibilidades de vida em outros planetas pelo setor privado é um indicativo dessas divergências e, mais uma vez, Marcelo Gleiser se mostra extremamente crítico, tanto por questões científicas, quanto por apelo social.
“O Elon Musk fala que vamos colonizar Marte, mas é um absurdo! Não iremos colonizar porque não temos tecnologia com essa capacidade. Poderemos, em muitos anos, ter uma pequena colônia, talvez, para 100 pessoas. Mas que solução é essa? Para quem é a solução?, questionou Gleiser, para completar: “temos que pensar nosso futuro de forma coletiva, a Terra é nossa casa, nosso planeta. Claro que sou a favor de explorar o espaço, sou astrofísico, mas cientificamente, isso não significa que seja nosso destino.”
Questão socioeconômica
De olho no futuro e nas questões que precisaremos enfrentar enquanto sociedade. Gleiser relembrou do processo de industrialização e mecanização que ganhou força quando Henry Ford inventou a linha de produção. De lá para cá, muita coisa avançou e mudou. Se no início havia um desejo de automatizar trabalhos difíceis ou perigosos para o ser humano, como a mineração, hoje se vê um lado inesperado.
Existem consequências sociais complexas que precisam ser endereçadas na visão do físico. “Carros autônomos, por exemplo. A ideia é não precisar dirigir. Quantos motoristas temos no Brasil? Nos Estados Unidos são 3,5 milhões de caminhoneiros, 500 mil motoristas de ônibus escolar, são pessoas com nível de educação baixo, idade mais avanças e sem capacidade de requalificação para trabalhos mais técnicos. Se criar muitos desempregados”, exemplificou.
Ele seguiu na crítica dizendo que as empresas que as empresas que desenvolvem essas tecnologias, sobretudo IA, não estão preocupadas com isso. “Você pode dizer que isso acontecia antes, é verdade, mas não na escala atual. A necessidade técnica e pedagógica para novos empregos é complexa, precisa de diversidade de saberes, até as universidades já se adaptam para dar essa versatilidade intelectual.”
Apesar do tom mais crítico, Marcelo Gleiser não se coloca contra a inteligência artificial, entende como tecnologia estratégica e fala de exemplos, como aplicação na saúde, onde algoritmos treinados com milhões de fotos conseguem precisar um diagnóstico de câncer de pele mais rapidamente que um oncologista. “Mas temos de nos preocuparmos. Nos Estados Unidos já há perda de empresa na área de computação. Vai ficar cada vez mais difícil ser um programador, a menos que se especialize em treinar IA. As profissões mudam e precisamos estar acordados para isso.”






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