Foto: Towfiqu Barbhuiya/Unsplash

A inteligência artificial começa a consolidar uma nova divisão entre empresas que utilizam a tecnologia apenas para ganhos operacionais e aquelas que a transformam em motor de crescimento. Um estudo global da PwC indica que organizações capazes de integrar a IA à estratégia corporativa, aos processos e à tomada de decisão registram resultados financeiros significativamente superiores, ampliando receitas, produtividade e eficiência em ritmo mais acelerado que seus concorrentes.

A pesquisa “IA na estratégia: crescer ou ficar para trás” revela que as empresas consideradas líderes na adoção da inteligência artificial alcançam ganhos de desempenho até 7,2 vezes maiores do que as demais organizações. Embora representem apenas 20% das 1.217 companhias avaliadas em 25 setores econômicos, elas concentram mais de 70% do valor gerado pela tecnologia globalmente.

O levantamento foi realizado com executivos de organizações da África, Ásia, Europa, Oriente Médio, América do Norte e América do Sul, incluindo o Brasil. Os resultados apontam que o retorno financeiro da IA está diretamente relacionado à capacidade de incorporá-la de forma estruturada aos modelos de negócio, à governança, aos dados, à infraestrutura tecnológica e à gestão de pessoas.

Baixa maturidade estratégica limita geração de valor

Segundo a PwC, as organizações com melhor desempenho não utilizam a inteligência artificial apenas para automatizar tarefas existentes. Elas promovem mudanças mais profundas, redesenhando operações, reformulando cadeias de valor e ampliando a colaboração entre diferentes setores da economia. Essa combinação tem impulsionado novos fluxos de receita e acelerado processos de inovação.

O levantamento mostra que o Brasil ainda enfrenta desafios para alcançar esse estágio de maturidade. Apenas 30% das empresas brasileiras realizam investimentos em IA voltados para resultados de longo prazo, percentual inferior aos 65% observados entre as líderes globais. O redesenho de fluxos de trabalho também avança lentamente: somente 9% das organizações nacionais adaptaram seus processos para incorporar a tecnologia, enquanto a média das empresas de referência chega a 56%.

Marco Castro, CEO da PwC Brasil, explicou em comunicado que “o diferencial não é usar mais tecnologia, mas ter aptidão para o uso da IA: a capacidade de direcionar a IA para objetivos estratégicos claros, construir bases adequadas e integrá-la de forma consistente em toda a organização. Apresentamos o que as empresas com resultados acima da média fazem para desenvolver essa aptidão com o uso da IA e reinventar seus negócios. Essas práticas estão ao alcance de qualquer negócio e indústria”.

Aptidão para IA mede capacidade de gerar valor

Como parte da análise, a PwC desenvolveu um índice próprio de aptidão para IA, que avalia a capacidade das organizações de transformar investimentos em resultados concretos. O indicador considera nove dimensões relacionadas à estratégia, tecnologia, infraestrutura, governança, inovação, dados e força de trabalho.

As empresas avaliadas obtiveram média global de 6,8 pontos em uma escala de zero a dez. O Brasil registrou 5,0 pontos, resultado que sugere um nível intermediário de preparação. Segundo o estudo, o país possui bases tecnológicas relativamente estruturadas, mas ainda apresenta limitações na aplicação estratégica da inteligência artificial para impulsionar crescimento e competitividade.

Outro indicador relevante mostra que apenas 28% das empresas brasileiras possuem ambientes dedicados à experimentação e desenvolvimento de soluções baseadas em IA. Entre as organizações líderes, esse percentual alcança 54%.

Governança impulsiona resultados

A pesquisa também aponta que fatores humanos e mecanismos de governança exercem papel central na geração de valor. Organizações mais maduras criam condições para que profissionais utilizem sistemas de IA com segurança e confiança, aumentando a adoção prática das ferramentas no cotidiano corporativo. Segundo o levantamento, colaboradores de empresas líderes têm 2,1 vezes mais probabilidade de confiar nos insights produzidos pela inteligência artificial e utilizá-los na tomada de decisão.

Embora as empresas brasileiras apresentem desempenho inferior ao das líderes globais, a distância é menor nessa dimensão do que em áreas como estratégia ou transformação operacional. Em segurança de dados e infraestrutura, por exemplo, 69% das organizações líderes afirmam possuir práticas estruturadas, ante 53% das empresas brasileiras.

“Tudo isso nos mostra que quando a IA é confiável, bem direcionada e sustentada por bases sólidas, ela deixa de gerar melhorias pontuais e passa a construir uma vantagem competitiva que se acumula com o tempo. As empresas brasileiras que agirem agora ainda têm espaço para recuperar terreno. As que esperarem verão a distância crescer”, reforçou Castro.

Mídia, tecnologia e saúde lideram integração da IA

O estudo identificou diferenças relevantes entre os setores econômicos. O segmento de mídia e entretenimento aparece entre os mais avançados na incorporação da inteligência artificial ao longo de toda a cadeia de valor. O setor registra índices superiores a 50% em funções relacionadas à definição de diretrizes e geração de demanda.

Outras áreas se destacam em etapas específicas da adoção. Os setores farmacêutico, de biociências e automotivo lideram a aplicação da IA em planejamento e estratégia. Empresas de tecnologia, turismo e lazer apresentam maior maturidade em marketing e vendas. Já o segmento de private equity se sobressai em funções de suporte corporativo, enquanto o mercado de seguros lidera o uso da tecnologia em operações ligadas à execução e atendimento da demanda.

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