
O progresso tecnológico ainda está longe de atingir seu limite. Essa foi uma das principais mensagens de Joel Mokyr, historiador econômico e Nobel de Ciências Econômicas de 2025, em participação no Febraban Tech 2026. Mokyr discutiu o passado da inovação e os fatores que podem determinar o ritmo das próximas grandes descobertas.
Para o economista, a tecnologia continua sendo um dos principais motores do desenvolvimento, a dúvida é se as invenções mais fáceis já foram feitas e se encontrar novas ideias ficou mais difícil. Indicadores de disrupção em estudos científicos e patentes apontam para uma redução ao longo do tempo, o que levanta uma questão sobre a capacidade de manter o ritmo de avanço observado nas últimas décadas.
Mokyr, porém, não defende uma visão pessimista. Para ele, compreender como a humanidade conseguiu ampliar sua capacidade de inovação no passado ajuda a identificar condições que podem favorecer novos saltos. O avanço ocorre em um ciclo no qual ciência e tecnologia se alimentam mutuamente: descobertas científicas criam novas tecnologias, enquanto instrumentos mais avançados permitem fazer ciência de maneira mais precisa e abrir novas fronteiras de conhecimento.
Ciência com ferramentas mais poderosas
O ganhador do prêmio Nobel citou exemplos históricos para mostrar como a evolução dos instrumentos científicos pode mudar o alcance das descobertas. O telescópio utilizado por Galileu, por exemplo, ajudou a ampliar o conhecimento sobre o universo e também faz parte de uma trajetória que levou ao desenvolvimento de instrumentos como o microscópio. Outro exemplo envolve a descoberta da pressão atmosférica e a criação de equipamentos rudimentares de vácuo. Esses avanços contribuíram para o desenvolvimento posterior das máquinas a vapor. A lógica permanece atual, mas com uma diferença importante: as ferramentas disponíveis hoje são muito mais sofisticadas.
É nesse ponto que a inteligência artificial ganha importância. Para Mokyr, a IA pode funcionar como uma espécie de assistente de pesquisa capaz de trabalhar continuamente, apoiar pesquisadores e acelerar etapas que antes consumiam muito tempo. A tecnologia já contribui para áreas como medicina, energia e economia e pode ajudar a ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento.
Na avaliação do historiador, o mundo pode estar próximo de grandes avanços científicos impulsionados por ferramentas muito mais poderosas. Ele citou áreas como fusão nuclear, rejuvenescimento celular, biologia molecular e medicina, incluindo tecnologias como as vacinas de RNA mensageiro. Essas descobertas podem, por sua vez, gerar novas tecnologias capazes de transformar a economia e melhorar a qualidade de vida.
O risco está na velocidade
A principal questão, segundo Mokyr, não é apenas até onde a tecnologia pode chegar, mas o que pode dar errado durante esse processo. Instituições públicas e empresas precisam se adaptar a choques tecnológicos, enquanto sistemas de trabalho, seguros e outras estruturas econômicas também precisam acompanhar as mudanças.
O problema é que a velocidade da transformação tecnológica aumentou. Quando mudanças são graduais, instituições e sociedades têm mais tempo para se adaptar. Quando ocorrem de forma muito rápida, a capacidade de adaptação diminui e os impactos podem ser maiores.
Para Mokyr, governos e empresas precisam ter flexibilidade suficiente para responder a um ambiente tecnológico que muda cada vez mais depressa. Historicamente, as instituições conseguiram se adaptar às transformações, mas esse processo costumava acontecer em um ritmo mais lento.
Tecnologia também depende de confiança

A discussão também passou por fatores políticos e sociais que podem limitar o avanço tecnológico. Mokyr citou a fragmentação política, o nacionalismo econômico, o populismo e a xenofobia como forças capazes de dificultar a cooperação e reduzir o ritmo do progresso. O nacionalismo econômico, especialmente quando envolve tarifas, barreiras e apoio excessivo a setores estratégicos, pode elevar custos e dificultar a circulação de conhecimento e tecnologia.
Outro problema relevante é a perda de confiança, pois a desinformação e a disseminação de teorias conspiratórias nas redes sociais podem comprometer a capacidade da sociedade de distinguir boas ideias de informações falsas. Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, essa disputa pode produzir consequências sociais e econômicas concretas.
Mokyr resumiu a questão de forma provocativa: o maior obstáculo ao avanço tecnológico pode não ser a própria tecnologia, mas a forma como a sociedade lida com ela. O conhecimento, afinal, circula em velocidade muito diferente da observada no passado. Enquanto descobertas podiam levar anos para se espalhar entre países, atualmente uma informação pode chegar ao mundo inteiro em poucos segundos.
O melhor ainda pode estar por vir
Apesar dos riscos, a mensagem central da palestra foi de que ainda há um enorme espaço para inovação. Para Mokyr, não há motivos para assumir que todas as grandes descobertas já foram feitas ou que os ganhos mais relevantes ficaram no passado.
A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de pesquisa justamente por oferecer ferramentas capazes de trabalhar sobre volumes cada vez maiores de conhecimento. Se esse processo fortalecer a relação entre ciência e tecnologia, novos avanços podem surgir em uma escala difícil de prever hoje.
O futuro, portanto, não depende apenas de criar tecnologias melhores. Também exige instituições capazes de acompanhar a mudança, preservar a confiança e permitir que o conhecimento circule. Na visão de Mokyr, ainda não vimos tudo o que o progresso tecnológico e a inovação podem produzir, e o melhor ainda está por vir.






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