
A inteligência artificial já conseguiu provar seu valor no dia a dia dos profissionais. O problema agora é fazer com que esse ganho de produtividade apareça também nos resultados financeiros das empresas. É o que aponta o “State of AI 2026”, estudo global da McKinsey & Company baseado em respostas de 1.719 participantes de 97 países.
Segundo a pesquisa, 80% dos profissionais dizem que a IA melhorou sua produtividade individual. Metade afirma ainda que passou a tomar decisões melhores com apoio da tecnologia. O impacto sobre os resultados corporativos, porém, permanece bem mais limitado.
Apenas 37% das organizações consultadas relatam algum efeito positivo da IA sobre o EBIT, mesmo percentual registrado na edição anterior do levantamento. Entre elas, somente 6% são classificadas como empresas de alto desempenho, com pelo menos 5% do EBIT atribuído à inteligência artificial.
Produtividade ainda não virou resultado
Yran Dias, sócio sênior da McKinsey em São Paulo, apontou em nota que “o grande desafio agora é transformar ganhos de produtividade individual em resultado financeiro para a empresa. A maioria dos profissionais já percebe benefícios da IA no próprio trabalho, mas esse impacto ainda não se traduz na mesma proporção em EBIT. As empresas líderes não estão simplesmente automatizando processos existentes: estão redesenhando seus fluxos de trabalho e usando IA tanto para eficiência quanto para crescimento e inovação“.
Os dados indicam que as companhias que conseguem capturar mais valor da tecnologia estão fazendo mudanças mais profundas. Quase três quartos das organizações de melhor desempenho redesenham seus fluxos de trabalho de maneira estrutural. Entre as demais empresas, esse movimento aparece em cerca de um quarto.
Essas organizações também têm 3,3 vezes mais chances de usar IA para transformar fundamentalmente o negócio. A diferença mostra que o retorno financeiro não depende apenas de colocar ferramentas de inteligência artificial nas mãos dos funcionários, mas de rever como o trabalho é organizado.
IA agêntica muda o jogo
A discussão ganha outra dimensão com o avanço dos agentes de IA. A tecnologia amplia a capacidade de automatizar tarefas e executar etapas de processos com menor intervenção humana. Para as empresas, isso pode exigir mudanças que vão além da adoção de novas ferramentas.
“Estamos avançando da automação tradicional para a era da IA Agêntica. Mas não basta adotar uma nova tecnologia com o mesmo modelo de gestão. As empresas líderes partem de problemas reais de negócio, redesenham como o trabalho é feito e mudam também a forma de liderar — com mais velocidade, aprendizado contínuo e capacidade de adaptar prioridades e recursos”, acrescentou Dias.
O movimento ocorre enquanto os investimentos continuam crescendo. Seis em cada dez organizações esperam aumentar os aportes em inteligência artificial no próximo ano. Mas a conta da operação também começa a pesar.
Para 20% das empresas, os custos operacionais associados à IA, incluindo despesas com tokens, já são uma barreira para ampliar o uso da tecnologia. A expansão, portanto, passa a depender não apenas da capacidade técnica, mas também de uma equação entre custo, escala e retorno.
Decisão de comprar ou desenvolver
A influência da inteligência artificial também aparece nas decisões sobre software. A pesquisa mostra que 32% das organizações já desistiram de comprar ao menos um software ou recurso porque conseguiram desenvolver internamente uma alternativa equivalente com ferramentas de programação apoiadas por IA.
Entre as empresas com faturamento superior a US$ 1 bilhão, 31% já estão ampliando o uso de agentes de codificação. A mudança pode alterar a tradicional escolha entre desenvolver uma solução própria ou contratar uma tecnologia pronta.
Com ferramentas de IA capazes de acelerar o desenvolvimento, algumas empresas passam a considerar internamente soluções que antes seriam adquiridas de fornecedores. Isso não significa, porém, que desenvolver tecnologia dentro de casa será necessariamente mais barato. Os custos para operar modelos e ferramentas de IA também entram nessa conta.
Mercado de trabalho será reorganizado
O impacto sobre os empregos aparece como outra frente de transformação. Em 2025, 32% dos executivos esperavam reduzir o número de vagas por causa da IA. Na prática, 14% disseram ter diminuído seus quadros no período.
A expectativa para os próximos 12 meses é maior: 39% dos executivos projetam algum nível de redução de postos de trabalho. Ao mesmo tempo, 43% esperam pouca ou nenhuma mudança.
No Brasil, o potencial de automação ajuda a dimensionar o tamanho da transformação. Estimativas reunidas pela McKinsey apontam que 56% das horas de trabalho realizadas atualmente no país poderiam, em teoria, ser automatizadas com tecnologias já disponíveis.
Isso não significa que mais da metade dos empregos será eliminada. A mudança também envolve a substituição de tarefas, a criação de novas funções e a necessidade de preparar profissionais para atividades diferentes.
A própria demanda por competências relacionadas à inteligência artificial reforça essa tendência. Segundo o estudo, ela cresceu 2,4 vezes no Brasil em dois anos. O desafio, portanto, passa a ser combinar automação com requalificação e redesenho do trabalho para que o avanço da IA produza ganhos sustentáveis para as empresas.






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