Foto: Rut Miit/Unsplash

A expansão da inteligência artificial no mercado de trabalho brasileiro está criando uma nova cobrança sobre universidades e estudantes: transformar conhecimento acadêmico em capacidade prática para lidar com a tecnologia. É o que mostra a pesquisa “Prontidão para a IA: construindo a ponte entre o ensino superior e o mercado de trabalho no Brasil”, realizada pela Pearson e pela Amazon Web Services (AWS).

O levantamento ouviu 500 pessoas no Brasil, entre elas 350 estudantes de graduação, 100 líderes do ensino superior e 50 empregadores. Os resultados mostram que 74% dos estudantes e dos empregadores consideram que a inteligência artificial aumenta a importância do ensino superior. Ao mesmo tempo, há diferenças relevantes na percepção sobre a velocidade com que as universidades estão acompanhando a evolução da tecnologia.

Universidades enfrentam pressão

Enquanto 76% dos empregadores esperam uma aceleração das mudanças provocadas pela IA nos próximos dois anos, apenas 17% dos estudantes dizem que suas universidades acompanham grande parte ou todas essas evoluções. Entre os líderes do ensino superior, esse índice chega a 38%.

A diferença também aparece na preparação profissional. Para 42% dos empregadores, a distância entre o conhecimento adquirido na universidade e sua aplicação prática dificulta a contratação de recém-formados. A mesma proporção aponta a pouca experiência desses profissionais com ferramentas de IA no ambiente de trabalho como um obstáculo.

A preferência por uma formação mais conectada à prática aparece entre os entrevistados. Um modelo que combine ensino universitário e experiência profissional é considerado interessante por 53% dos estudantes, 52% dos empregadores e 49% dos líderes acadêmicos.

Uso de IA ainda é desigual

O acesso às ferramentas também revela uma diferença entre estudantes e instituições: apenas 47% dos graduandos estão satisfeitos com a presença de conteúdos sobre inteligência artificial em seus currículos. O percentual é o menor entre os países considerados na pesquisa.

Entre 55% e 66% dos estudantes brasileiros utilizam ferramentas de IA obtidas por conta própria, fora das opções disponibilizadas pelas universidades. Além disso, 30% afirmam não se sentir à vontade para contar aos professores que fazem uso da tecnologia.

Para os empregadores, saber utilizar IA não é suficiente. Na contratação de recém-formados, 44% valorizam a capacidade de trabalhar com essas ferramentas, enquanto outros 44% consideram igualmente importante compreender os riscos e as limitações da tecnologia.

Cinthia Nespoli, CEO da Pearson no Brasil, destacou em nota que “o estudo mostra que o Brasil reúne condições importantes para liderar uma nova etapa da educação na era da inteligência artificial: estudantes engajados, universidades mobilizadas e empregadores que reconhecem o valor da formação superior. Agora, o ponto decisivo é transformar esse potencial em prontidão real para o trabalho. Isso exige aproximar educação e empresas, ampliar o uso responsável da IA e desenvolver competências humanas indispensáveis, como adaptabilidade, comunicação, criatividade e capacidade de julgamento”.

Experiência prática ganha importância

Apesar das lacunas, os empregadores também identificam avanços na formação dos profissionais que chegam ao mercado. Para 54% deles, os recém-formados estão mais preparados atualmente do que aqueles contratados cinco anos atrás.

Entre os principais pontos positivos aparecem a agilidade para aprender, citada por 58% dos empregadores, e a capacidade de utilizar ferramentas digitais e de IA, mencionada por 52%. Já criatividade e pensamento inovador ainda apresentam espaço para evolução: somente 18% consideram excelente o desempenho dos recém-formados nessa competência.

Os resultados reforçam uma mudança na expectativa sobre o ensino superior. O diploma continua sendo valorizado, mas passa a ser acompanhado de uma exigência maior por experiências práticas, domínio responsável da IA e competências humanas que possam ser aplicadas e demonstradas no trabalho.

Governança da IA precisa avançar

A adoção da inteligência artificial também esbarra na falta de orientações institucionais. Apenas 15% dos estudantes afirmam conhecer claramente as regras de suas universidades para o uso da tecnologia. Outros 42% dizem não conhecer nenhuma orientação sobre o tema.

Do lado das instituições, 28% dos líderes acadêmicos avaliam como significativos os investimentos em IA. Em contrapartida, 16% consideram esses aportes mínimos ou inexistentes.

Entre as empresas, outro desafio envolve a maneira como os recém-formados utilizam a tecnologia. Para 34% dos empregadores, práticas como dependência excessiva da IA e aceitação sem avaliação crítica das respostas produzidas pelos sistemas representam problemas relevantes.

“O Brasil tem uma oportunidade única: um ecossistema de ensino superior robusto, estudantes com alto engajamento em tecnologia e empregadores que já reconhecem o valor da IA. O que falta é a ponte — diretrizes claras de governança, formação prática e parcerias entre setor público, academia e indústria. A AWS está comprometida em ajudar a construir essa ponte, oferecendo infraestrutura de nuvem e IA, programas de capacitação gratuitos e colaboração com universidades e governos em todo o país”, explicou também em nota Paulo Cunha, Diretor para o Setor Público da AWS Brasil.

Seis desafios para conectar ensino e trabalho

A pesquisa aponta seis áreas que precisam ser trabalhadas para aproximar a formação acadêmica das demandas criadas pela inteligência artificial. Entre elas estão a velocidade de atualização dos currículos, a comunicação entre universidades e empresas e a preparação dos professores para incorporar a tecnologia ao ensino.

Também aparecem como prioridades a criação de regras claras para o uso de IA, a oferta de experiências práticas e o desenvolvimento de competências como julgamento, adaptabilidade e colaboração.

A proposta apresentada por Pearson e AWS é aproximar educação e mercado de trabalho por meio de um modelo que combine formação, prática, avaliação e uso responsável da tecnologia. A ideia é fazer com que a chamada prontidão para a IA deixe de ser apenas acesso a ferramentas e passe a representar uma capacidade concreta de aplicar conhecimento em situações reais de trabalho.

A pesquisa completa pode ser obtida neste link.

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