
O Brasil participa do desenvolvimento de uma missão espacial europeia que pretende ampliar a busca por planetas semelhantes à Terra fora do Sistema Solar. O Instituto Mauá de Tecnologia desenvolveu um sistema para testar, ainda em solo, os equipamentos e programas que serão utilizados pela PLATO, iniciativa da Agência Espacial Europeia (ESA) com orçamento de 1,5 bilhão de euros e lançamento previsto para março de 2027.
A contribuição brasileira envolve engenharia de alta precisão, além da participação científica. O projeto reúne o Instituto Mauá de Tecnologia e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), por meio da Escola Politécnica (Poli-USP) e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP).
Tecnologia nacional testa equipamentos da missão
O principal desenvolvimento brasileiro é o SIMUCAM, sistema que simula o comportamento das câmeras que equiparão o satélite. A tecnologia permite verificar o funcionamento dos softwares e computadores de bordo antes que os equipamentos sejam enviados ao espaço, ajudando a identificar falhas e aumentar a confiabilidade das operações.
O sistema funciona como uma réplica digital dos instrumentos de observação da PLATO. Com ele, as equipes podem reproduzir condições de operação e avaliar as respostas dos equipamentos em ambiente controlado.
Vanderlei Cunha Parro, professor titular do Instituto Mauá de Tecnologia e um dos responsáveis pelo projeto, destacou em nota que “o SIMUCAM funciona como um gêmeo digital de alta precisão das câmeras da PLATO. Ele permite reproduzir em laboratório o comportamento dos equipamentos que estarão no espaço e, dessa forma, testar e validar os sistemas antes do lançamento. É uma contribuição de engenharia desenvolvida no Brasil para uma missão científica de grande complexidade internacional”.
A participação nacional também inclui componentes mecânicos e eletrônicos de alta precisão, desenvolvidos pela instituição em parceria com empresas paulistas. Fabricadas no Brasil, as soluções foram exportadas para integração aos equipamentos finais montados na Europa.
“Estamos falando de sistemas que precisam operar com elevado nível de precisão e confiabilidade. Ter soluções concebidas e desenvolvidas no Brasil integradas a uma missão dessa dimensão mostra que temos conhecimento e capacidade técnica para contribuir com projetos na fronteira da tecnologia”, apontou Parro.
Como a PLATO vai procurar novos planetas
A missão PLATO, sigla em inglês para Planetary Transits and Oscillations of Stars, terá como foco o estudo de milhares de estrelas. Seu objetivo é identificar planetas que passam à frente delas e provocam pequenas reduções no brilho observado.
O satélite contará com 26 câmeras para monitorar essas variações luminosas. A partir delas, os cientistas poderão identificar candidatos a planetas e investigar suas características, com atenção especial aos mundos rochosos que possam apresentar semelhanças com a Terra.
A missão também vai medir oscilações nas próprias estrelas. Esses dados ajudam a estimar propriedades estelares e a compreender melhor a formação e a evolução dos sistemas planetários.
Acesso a dados científicos amplia participação brasileira
A contribuição do Brasil foi apoiada por instituições públicas de fomento à pesquisa e à inovação. Entre elas estão a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por meio do projeto CITAR, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Em vez de se limitar a um aporte financeiro, a participação brasileira se concentra no desenvolvimento de conhecimento científico e soluções tecnológicas. Como contrapartida, os pesquisadores nacionais terão acesso direto e prioritário aos dados produzidos pela missão, em condições equivalentes às dos participantes europeus.
Parro ainda explicou que “o Brasil entra com inteligência técnica, engenharia e capacidade científica. Em contrapartida, nossos pesquisadores terão acesso aos dados gerados pela missão e poderão participar diretamente das descobertas que surgirem a partir deles. É um resultado importante não apenas para as instituições envolvidas, mas para a ciência brasileira”.
Experiência abre portas para missões a Vênus
A participação na PLATO também contribuiu para ampliar a presença brasileira em projetos internacionais de exploração espacial. A experiência com o desenvolvimento tecnológico levou o país a ser convidado a colaborar em duas missões voltadas ao estudo de Vênus: a EnVision, da Agência Espacial Europeia, e a VERITAS, da NASA.
A cooperação também alcança instâncias de decisão científica, com a participação de representantes brasileiros no comitê científico de uma das missões. O movimento indica que a contribuição nacional pode ir além da fabricação de componentes e alcançar atividades de pesquisa e planejamento científico.
“O trabalho desenvolvido para a PLATO gerou confiança e abriu portas para novas missões. Esse é um exemplo de como o domínio tecnológico pode colocar a ciência brasileira em posição de protagonismo e criar oportunidades para participar de projetos internacionais cada vez mais relevantes e ampliar o conhecimento sobre os planetas existentes fora do Sistema Solar”, concluiu Parro.






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