
Depois de muita discussão e idas e vindas, o Congresso Nacional aprovou o projeto de Lei 278/2026, que ficou conhecido como Redata e, agora, o texto segue para assinatura da Presidência. Diversas associações e representantes das empresas de data centers comemoraram o tema. O Coletivo Tech conversou sobre o assunto com Marcos Siqueira, Chief Revenue Officer (CRO) e head de estratégia da Ascenty, a maior empresa de data centers da América Latina. O executivo se mostrou otimista com o cenário e afirmou que a aprovação pode acelerar o plano de investimento da empresa de forma agressiva.
Olhando para o País de forma geral, ele entende que o Redata tem potencial de posicionar o Brasil como um grande hub de infraestrutura digital, não apenas suprindo as necessidades locais e da América Latina, mas, eventualmente, até de outros continentes. O otimismo se baseia no baixo custo da energia renovável, disponibilidade de terra e cabos submarinos que já interligam o país com outras regiões do mundo. Siqueira também comentou a questão do consumo de água e rebateu qualquer risco do não uso de energia de fontes renováveis pela mudança no texto. Oferta e preço, na visão do CRO, contribuem para isso. Já no caso da água, se a infraestrutura não seguir padrões onde esse consumo praticamente inexiste, ela perderia o direito ao benefício tributário.
Confira os principais trechos da conversa.
Vitor Cavalcanti – Quando você olha o que foi aprovado pelo Senado, o que representa para vocês? Era o que vocês esperavam? Vai gerar essa oportunidade toda que as entidades de classe vinham argumentando pela aprovação?
Marcos Siqueira – O texto como foi aprovado, ele está muito em linha com o que foi discutido e nós da indústria enxergamos muito valor em tudo isso. A gente enxerga que de fato isso pode destravar grandes investimentos que a gente tem conversado com inúmeros clientes da América do Norte, da Ásia e esses clientes estavam esperando por isso. Eu tive uma boa oportunidade ontem de estar jantando com cliente de fora do Brasil no momento da aprovação. E foi interessantíssimo a hora que eu recebi a mensagem de confirmado e eu compartilhei com eles. Dos clientes, uma das pessoas virou para mim e falou assim: ‘Marcos, prepara os grandes campos de data center. Eu tenho muita demanda’. Então, isso é um cliente e é um grande cliente compartilhando isso.
Da mesma forma, hoje (02/09), pela manhã, tivemos diversos outros calls com diversos outros clientes, reafirmando o interesse. E por que a gente enxerga todo esse potencial? O Brasil já estava preparado do ponto de vista de geração de energia, uma geração de energia por meio de uma matriz que é quase 90% renovável, mas que dá a possibilidade de empresas como a Ascenty escolher ser 100% renovável. Há custo muito competitivo, quando você compara o custo de energia no Brasil versus o custo de energia em outros países, o custo do Brasil é muito melhor. A questão dos cabos submarinos que o Brasil consegue falar com diversos outros continentes. Todos esses processos já colocam o Brasil numa situação boa. Mas tinha uma questão de carga tributária que inviabilizava, porque para construir data center de 100 megawatts, a gente investe aproximadamente US$ 1 bilhão. Nós, empresa de datavcenter.
O cliente vai investir 4 ou 5 vezes isso. Se você pega US$ 4 bilhões e 30% disso é imposto de importação, o seu business plan é muito prejudicado. Então, isso viabiliza efetivamente com que o Brasil passe a ser uma possibilidade real de atração. Junto com tudo isso, e aí estou estendendo pouco mais a resposta aqui para explicar pouco de onde vem essa oportunidade, é que a gente olha que outros países ao redor do mundo têm sofrido por uma questão de escassez de energia. O país está tendo uma resistência do ponto de vista de grande consumo de água para os data centers serem refrigerados. Mas o data center no Brasil não consome água. Os nossos data centers, o primeiro datacenter que eu construí em 2012, já não consumia água. Nenhum dos data centers que nós temos em operação consome água. Eu tenho repetido bastante esse.
VC – Pensando em nosso posicionamento de País dentro de infraestrutura digital, dentro desse mundo de IA. Qual que é a real posição que vocês, empresas de data center, veem para o Brasil? Que tipo de oportunidade a gente passa a acessar melhor a partir dessa aprovação?
MS – Eu diria que tem duas grandes oportunidades. Primeiro é o Brasil ter a possibilidade de acompanhar os outros países do ponto de vista de digitalização. Caso contrário, se a gente não consegue atrair e trazer esse tipo de funcionalidade para dentro do nosso país, a gente vai ficar cada vez mais dependente de soluções. O cloud que o Brasil consome está 60% fora do Brasil, em inteligência artificial, seria 100% fora. À medida que você consegue trazer isso, o Brasil tem a possibilidade de consumir recursos como esses em território nacional e, eventualmente, pode viabilizar uma melhor latência para soluções específicas. Isso possibilita que o Brasil continue se digitalizando e seja incluído dentro desse ponto de vista de infraestrutura digital.
Por outro lado, também passa a ter a oportunidade do Brasil ser hub de infraestrutura para outras regiões. Não apenas para atender o mercado local ou para atender o mercado da América Latina, mas viabiliza que o Brasil possa ser hub de infraestrutura, inclusive para atender outros continentes. Em função do custo de energia, em função do custo do data center, em função de todos esses aspectos, o Brasil também tem a possibilidade de se tornar dos grandes hubs globais.
VC – Então a gente pode se tornar autossuficiente, vamos dizer assim? Porque esse número de 60% que você falou, o próprio Ministério da Fazenda usava como argumento. Existe um número saudável para essa dependência, a gente pode ter 100% mesmo desses serviços digitais processados por aqui?
MS – Eu diria que o Brasil ter a possibilidade de escolher onde os dados estarão é o grande benefício. Então, se esse número vai ser 100%, acho que a necessidade das empresas é o que vai mostrar isso. Mas o que talvez gere mais incômodo é o seguinte. Hoje, se uma empresa quiser utilizar determinada tecnologia, determinada funcionalidade do cloud, independentemente do hyperscale que ela escolher, nem todas as funcionalidades que existem em outras regiões existem no Brasil. Isso faz com que determinados modelos de negócio o Brasil não possa aplicar, porque a latência de 150 milissegundos para Ashburn (EUA), por exemplo, às vezes pode inviabilizar determinados negócios. Agora imagina se a gente passa a ter a possibilidade de consumir esse tipo de solução a uma latência de 2 milissegundos.
Não é que você está baixando de 150 para 100. Você está baixando de 150 para 2. Então, aquilo que não funcionava pode passar a funcionar. Eu não tenho uma resposta sobre precisarmos chegar nos 100%, mas talvez o que a gente precise é ter a possibilidade de falar o seguinte: o Brasil é competitivo o suficiente que as empresas internacionais conseguem olhar que vale a pena estar aqui, primeiro porque tem demanda, segundo, porque o custo é competitivo. E do nosso lado, independentemente se é tecnologia ou se é usuário não tecnológico, no final do dia, se a nossa percepção é de lentidão, a nossa avaliação é que o serviço é ruim.
Planos de investimentos podem acelerar
VC – E cada vez vai mais nessa linha, principalmente quando chega a inteligência artificial. Recentemente, eu conversei com um CIO e ele me disse que a avaliação de solução de IA na empresa levou muito em conta a latência da ferramenta.
MS – É exatamente isso. E o que a gente tem observado também é que cada vez mais as empresas que prestam serviço de cloud, estão embarcando soluções de inteligência artificial quase que no mesmo tipo de licenciamento em alguns casos.
Então eu estou usando uma ferramenta tradicional, dou alt tab e migro para a solução de inteligência artificial. Eu não posso ter uma percepção de que um produto é rápido e o outro produto é lento. Caso contrário, eu como usuário vou dizer que o serviço desse hyperscale não é bom. Eu não vou falar que o A é bom e o outro não é bom. Eu passo a ser detrator. Então, quando eu olho para todos esses aspectos, eu enxergo que o Brasil tem a oportunidade de começar a trazer, inclusive, funcionalidades que hoje não estão disponíveis para nós.
VC – A partir dessa aprovação do Redada, o que muda no plano de atuação da Ascenty aqui no Brasil? Ou vocês já estavam com dois planos preparados, para aprovação e para não aprovação?
MS – Nós anunciamos, em maio desse ano, investimento adicional de US$ 1.2 bilhões para projetos assinados com clientes. E esse montante é reflexo de vendas que nós realizamos nos primeiros cinco meses desse ano. O que eu posso te falar é que a gente já tinha planejamento onde estava objetivando aumentar de forma significativa esses investimentos, mas obviamente que eu não saio fazendo construção upfront de forma desorganizada, eu vou sempre entendendo demandas, oportunidades, mas a gente tem feito muito investimento. Primeiro, em garantir terra e garantir a energia assegurada para que quando o cliente bater na porta eu tenha condições de atender. Então, o meu estoque é terra e energia, basicamente.
Dito isso, o que eu posso te falar é que sim, existe a expectativa que os nossos investimentos, num período muito curto, talvez sejam quatro, cinco vezes maiores do que esse que nós acabamos de anunciar. Então a gente enxerga assim que isso pode acelerar de uma forma muito agressiva o nosso plano de investimento dos próximos cinco anos.
VC – Pensando em consumo de nuvem ou empresas que gostam de ter infraestrutura própria e terceirizam com vocês, você acha que isso pode viabilizar preços melhores para que essas empresas, esses CIOs acessem esses serviços até de forma mais rápida do que estava no planejamento? A gente olha a jornada de nuvem no Brasil, por exemplo, tem pelo menos 15 anos que a gente fala da jornada de nuvem, mas poucas fizeram de forma completa e levaram o core do negócio para esses ambientes.
MS – Eu diria que sim, essa é a forma com que eu enxergo. O custo do datacenter em si não muda, porque o Redata não aplica para quem constrói datacenter, o Redata aplica para quem presta serviço dentro do datacenter. Mas se o conceito é eu consigo trazer mais equipamentos a custo melhor, a tendência é que a gente consiga ter mais competitividade mais empresas prestando serviço, o que cria uma concorrência saudável e a expectativa é que, com isso, os CIOs brasileiros tenham a oportunidade de ter mais opções de escolha e mais opções de poder brigar por preços cada vez mais competitivos.
Eu enxergo que este movimento pode possibilitar com que o Brasil tenha custos melhores, que, por consequência, pode oferecer preços melhores para quem tomar serviços de tecnologia, seja soluções de cloud, seja soluções de inteligência artificial.
Data center no Brasil não consome água
VC – Agora voltando àquela questão do uso de água, você foi bastante firme nessa posição durante painel no Febraban Tech 2026, frisando que os data centers no Brasil não consumiam água. Quando a gente fala de inteligência artificial, tem data centers que precisam de água para fazer refrigeração. A Coalizão Direitos na Rede, enviou comunicado criticando o texto aprovado pelas concessões que foram feitas. Na parte de energia, eles dizem, por exemplo, que foi ruim ter tirado a parte de “fontes limpas e renováveis” por “renováveis ou de baixa emissão” e abordam também a questão da água.
MS – Quando você constrói o data center, você coloca água uma vez. Então, vou dar exemplo real. O primeiro data center da Ascenty, em Campinas (SP), construído e inaugurado em outubro de 2012. Na inauguração, para o comissionamento, nós colocamos água dentro. Essa água fica simplesmente recirculando. Eu nunca precisei trocar, eu nunca precisei fazer nada, porque não tem evaporação.
Vou deixar de lado esse data center de 2012 e vou olhar para o data center de Inteligência Artificial. Inclusive o DC que eu estou construindo agora, que é o maior da América Latina, e 100% Inteligência Artificial e 100% Liquid Cooling. Como que vai ser a inauguração dele? A mesma coisa. Eu vou colocar água, e a água junto com processo químico, ela simplesmente recircula. O data center de inteligência artificial, ele precisa ser mais bem refrigerado. Pela dissipação de calor dele, você cobre tecnologia, conhece esse processo, você sabe que a dissipação de calor dele é muito mais elevada.
Então, a diferença é que ao invés da água recircular e eu ter o insuframento de ar jogando debaixo do piso para passar o ar por dentro dos equipamentos, eu faço uma extensão desse circuito fechado de água e esse circuito fechado de água vai até o rack do cliente. Mas continua sendo uma água que ela esquenta, esfria e passa por processo de recirculação. Então, novamente, ainda que seja data center de air cooling ou datacenter de liquid cooling, ele não tem desperdício de água, porque você coloca uma vez e você opera a vida toda.
Os data centers podem consumir água, depende da estratégia que a empresa adota. Então, em vários outros países, muitas vezes é adotado usar água para você economizar na energia. Por que economizar na energia? Porque não é uma energia que vem de fontes renováveis e é uma energia que custa caro. O Brasil tem essas outras boas características. Então, esses pontos é o que nos dá muita segurança de que data center no Brasil efetivamente não precisa utilizar água.
VC – Então, isso não deveria ser uma preocupação?
MS – Não, e aqui estou falando, obviamente, como executivo da Ascenty, mas posso te falar em nome da indústria de data center, eu sou conselheiro de algumas das associações, e posso te falar como representante da indústria. O mercado de data center como um todo já não tem essa característica de usar água desde sempre, desde o começo. Então, esse ponto é bastante importante. E por que a gente enxerga que o Redata pode ser muito positivo nesse sentido, se as empresas já tinham tomado essa decisão? Porque agora ele está forçando que toda carga adicional que vier, para que as empresas tenham esse benefício tributário, os dados delas, os equipamentos delas, precisam estar em data center onde o WUE é igual a zero. WUE é o nível de eficiência do seu consumo de água.
Então, o Brasil não vai poder construir data center que vai consumir água e ter o benefício tributário ao mesmo tempo. Porque para você ter o benefício tributário, a sua obrigatoriedade é o data center não pode consumir água. Esse ponto que foi levantado ao longo dos meses, de que data center vai acabar com a água da população, o Redata está endereçando exatamente esse aspecto. Não vai, porque eu quero atrair mais tecnologia, mas garantindo que não pode consumir água. E do ponto de vista do comentário que você recebeu, eu comentei em alguns momentos que o custo da energia do Brasil para uma fonte renovável é muito bom. O que eu posso te falar é que, ainda que esteja no texto diversas outras fontes possíveis, o custo da geração continua sendo muito competitivo.
Empresas como a Ascenty, nós temos processo de autoprodução. Eu gero a energia que eu consumo. E como que eu gero essa energia? Através de uma joint venture que nós fechamos com empresas de que gera energia, é um case público que nós assinamos em janeiro, é uma autoprodução com a Casa dos Ventos. Como que eu gero essa energia? É através de solar e eólica. Então, ainda que o Redata esteja prevendo que eu posso usar outras fontes, eu vou continuar usando as fontes que eu já fiz investimento e farei investimento, porque o custo dessa geração é muito melhor e muito mais competitivo. E no final do dia eu preciso entregar preço competitivo para o meu cliente.






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