Tania Consentino durante o Abes Summit 2026.

A inteligência artificial generativa entrou nas empresas de todos os setores em ritmo acelerado, mas transformar experimentos em resultados concretos ainda exige mudanças na estratégia, na governança e na formação de profissionais. Esses foram pontos de destaque na apresentação de Tania Consentino, experiente líder de grandes empresas como Microsoft, Schneider Electric e conselheira da WEG e do ICC, durante o Abes Summit 2026, que discutiu como as organizações podem ampliar o retorno dos investimentos em IA sem perder o controle sobre os riscos.

A mensagem de Tania foi direta: adotar ferramentas de inteligência artificial não basta. Para gerar impacto nos negócios, a tecnologia precisa estar ligada aos objetivos estratégicos da companhia, com indicadores claros de desempenho, controles de segurança e participação ativa da liderança.

Não ficaram de fora os desafios da adoção de agentes autônomos, a preparação para ameaças cibernéticas, a transformação do mercado de trabalho e a necessidade de o Brasil investir em educação e inovação para aproveitar o potencial da tecnologia.

Do piloto ao retorno financeiro

A distância entre testar inteligência artificial e capturar valor em escala continua sendo um dos principais desafios corporativos. A evolução desse cenário foi ilustrada com dados de uma pesquisa do Boston Consulting Group (BCG). Segundo os números apresentados, a parcela de empresas que conseguem gerar valor em escala com IA passou de 5% em outubro de 2025 para 50% um ano depois.

Tania aponta que a diferença está na forma como as organizações encaram a tecnologia. “A IA tem que estar no core da estratégia da empresa, ela não é um projeto de TI. A hora que a gente internalizar isso, a gente vai tratar a IA de forma diferente e vai começar a desbloquear valor”.

A mudança também aparece no orçamento. De acordo com os dados citados por Tania, os investimentos em IA já representam 3,3% da receita das empresas. Deste valor, 80% dos custos ficam associados às áreas de negócio, mostrando um movimento de que transformação deixou de ser uma pauta restrita à infraestrutura tecnológica.

Agentes autônomos exigem controles

A adoção de agentes autônomos adiciona uma camada de complexidade à estratégia de IA. Cerca de 42% das empresas pretendem implementar esses sistemas até 2030, mas apenas 5% contam com os controles necessários para garantir seu funcionamento seguro.

Tania faz uma ressalva importante: “é imprescindível que a gente comece pelos controles, mas isso não é sufocar a IA. É o equilíbrio entre controlar e deixar livre. Você tem que ter guardrails porque você vai ter que explicar as decisões tomadas por esse agente.”

Devem ser estabelecidas regras de operação antes de ampliar o uso desses sistemas. Isso inclui limitar permissões, monitorar atividades, avaliar possíveis vieses algorítmicos e garantir que as decisões possam ser explicadas. É uma busca do equilíbrio entre segurança e liberdade para inovar.

A responsabilidade continua sendo humana

Um dos argumentos que Tania trouxe foi que a presença de agentes autônomos não transfere a responsabilidade pelas decisões para a tecnologia. Se um sistema provocar danos, a empresa precisará identificar quem responde por sua utilização e demonstrar como os controles foram aplicados.

A executiva defendeu o princípio do menor privilégio possível, tanto para pessoas quanto para agentes. Na prática, isso significa conceder apenas os acessos necessários para cada tarefa e acompanhar continuamente o comportamento dos sistemas.

A governança também precisa incluir a alta liderança. Diretores e conselhos devem conhecer os riscos envolvidos, definir limites para a utilização da IA e estabelecer critérios para situações em que a tecnologia não deve ser empregada. Essas decisões precisam estar tomadas antes de contratos ou oportunidades comerciais criarem pressão para flexibilizar as regras.

Cibersegurança e criptografia pós-quântica

Na parte de segurança digital, Tania destacou que além dos riscos associados a agentes autônomos, há a necessidade das empresas se prepararem para ataques que podem permanecer ocultos durante semanas antes de serem executados.

Não basta interromper um incidente e restabelecer os sistemas rapidamente. É necessário entender até onde o invasor conseguiu avançar, quais ambientes foram comprometidos e se a infraestrutura está realmente segura para voltar a operar.

A preocupação é que criminosos capturem dados criptografados hoje para tentar decifrá-los no futuro, quando houver capacidade tecnológica para isso. Por esse motivo, organizações públicas e privadas precisam identificar quais informações são mais sensíveis e planejar a migração para mecanismos de proteção resistentes a ataques quânticos.

Capacitação pode definir o futuro do trabalho

A transformação da inteligência artificial também pressiona empresas e governos a acelerar a formação profissional. Estima-se que cerca de 300 milhões de empregos serão transformados pela IA, o que exigirá uma adaptação mais rápida do que em revoluções tecnológicas anteriores.

“Se eu não dedicar tempo a capacitar pessoas hoje, elas vão ter um grande problema social. Então a pergunta aqui é: que skills eu preciso desenvolver? Competências técnicas e competências comportamentais. Eu coloco pensamento crítico como número um, criação de repertório e pensamento crítico, competência número um”, frisou.

Tania também chamou a atenção para a educação básica e a formação de engenheiros. O Brasil precisa alinhar o desenvolvimento de competências nas áreas em que pretende avançar, como indústria, agronegócio, energia e transição energética. Sem uma visão integrada entre educação, mercado de trabalho e política de inovação, o país corre o risco de desperdiçar oportunidades.

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