Foto: Dima Shishkov/Unsplash

As interrupções não planejadas de sistemas se tornaram um dos principais fatores de risco para grandes empresas em um cenário de crescente dependência digital. Além de comprometer operações críticas, episódios de indisponibilidade geram perdas financeiras, afetam a reputação corporativa, pressionam o relacionamento com clientes e ampliam a exposição a ameaças cibernéticas. A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos ecossistemas conectados elevou a complexidade das infraestruras, tornando a resiliência operacional uma prioridade estratégica.

Esse cenário é evidenciado pela pesquisa “The Hidden Costs of Downtime”, divulgada pela Cisco por meio da Splunk e desenvolvida em parceria com a Oxford Economics. O estudo estima que a indisponibilidade não planejada gera perdas anuais de US$ 600 bilhões entre as empresas da lista Forbes Global 2000, avanço de 50% em relação ao levantamento realizado há dois anos. Em média, cada organização perde US$ 300 milhões por ano com interrupções. Na América Latina, o prejuízo médio anual chega a US$ 197 milhões.

A pesquisa mostra ainda que os impactos vão além da interrupção operacional. As perdas médias de receita alcançam US$ 95 milhões por empresa globalmente, praticamente o dobro do registrado em 2024. Na América Latina, esse valor é de US$ 55 milhões por ano, enquanto falhas relacionadas à segurança respondem por outros US$ 54 milhões anuais em custos médios.

Ampliação do impacto financeiro

Os dados indicam que os efeitos das interrupções se espalham por diversas áreas do negócio. Entre os principais impactos estão a redução do valor de mercado, perda de clientes, crescimento dos custos com ransomware, multas regulatórias e aumento da demanda por suporte técnico e atendimento ao consumidor.

Segundo o levantamento, cada minuto de indisponibilidade representa um custo médio de US$ 15 mil. Após incidentes cibernéticos, as empresas registram, em média, queda de 3,4% no valor de suas ações. Além disso, 81% dos líderes de tecnologia afirmam que a perda de clientes está entre as principais consequências das interrupções, enquanto 47% relatam que são os próprios consumidores que identificam primeiro falhas nos serviços.

A gravidade dos vazamentos de dados também aumentou significativamente. Atualmente, 71% dos executivos de tecnologia classificam esse tipo de ocorrência como altamente impactante, ante 23% em 2024. Os pagamentos relacionados a ataques de ransomware praticamente triplicaram no período e atingiram média global de US$ 40 milhões, enquanto as penalidades aplicadas por órgãos reguladores chegaram a US$ 51 milhões por empresa.

Diagnóstico mais preciso reduz riscos

A pesquisa aponta que muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para identificar corretamente a origem das interrupções. Cerca de 36% dos líderes de segurança afirmam que falhas sistêmicas continuam sendo atribuídas exclusivamente à infraestrutura de TI, quando podem estar relacionadas a problemas de cibersegurança, dificultando respostas mais rápidas e eficazes.

Outro desafio está na capacidade de identificar a causa raiz dos incidentes. Apenas 38% dos líderes de tecnologia afirmam conseguir realizar esse diagnóstico de forma consistente. Paralelamente, aumentou a preocupação com interrupções ligadas a fornecedores terceirizados e aplicações SaaS. Atualmente, 56% dos responsáveis pela segurança dizem enfrentar esse tipo de ocorrência com frequência ou muita frequência, percentual quase três vezes superior ao observado em 2024.

Para Kamal Hathi, vice-presidente sênior e gerente-geral da Splunk (empresa da Cisco), fortalecer a capacidade de resposta exige uma visão integrada entre tecnologia e estratégia empresarial. Em nota ele contou que “interrupção pontual é inevitável; interrupções prolongadas, não. As organizações mais resilientes não são aquelas que possuem mais ferramentas ou o maior preparo para IA. São aquelas que alinham tecnologia aos resultados de negócio, capacitam as pessoas com contexto e projetam sistemas que se adaptam sob pressão, sem colapsar”.

Inteligência artificial tem um papel estratégico

A IA vem sendo incorporada aos processos de prevenção, detecção e resposta a incidentes. As empresas investem, em média, US$ 24,5 milhões por ano em soluções baseadas em IA voltadas à triagem de eventos e à identificação de causas de falhas. A expectativa é ampliar a colaboração entre especialistas e agentes inteligentes, mantendo a supervisão humana nas decisões críticas.

Organizações consideradas especialistas no uso de IA para fluxos de trabalho e triagem apresentam desempenho superior em indicadores de resiliência. Entre elas, 74% evitaram divulgar vazamentos de dados no último ano, contra 54% das demais empresas. Além disso, 42% afirmam nunca ter perdido clientes devido a problemas de disponibilidade, enquanto entre as demais esse percentual é de apenas 15%.

Apesar dos avanços, a pesquisa também identifica desafios na adoção dessas tecnologias. Embora 56% dos usuários considerem que a IA reduziu o risco operacional das empresas, todos os líderes de tecnologia entrevistados relataram ter enfrentado algum tipo de interrupção relacionada ao uso da inteligência artificial. 68% demonstram preocupação com o comportamento imprevisível de agentes autônomos, reforçando a necessidade de governança, monitoramento contínuo e supervisão humana.

Observabilidade lidera as prioridades

O estudo conclui que ampliar a visibilidade sobre toda a infraestrutura digital é uma das principais estratégias para reduzir interrupções. Entre as empresas que registram os menores impactos financeiros, 98% consideram essencial monitorar de forma integrada toda a cadeia de dependências tecnológicas.

Esse movimento também se reflete nas prioridades de investimento. Cerca de 75% dos líderes de TI e engenharia apontam a observabilidade como o principal foco para fortalecer a resiliência operacional, superando iniciativas tradicionais como renovação de data centers ou atualização de hardware. Já 66% priorizam automação para reduzir falhas humanas, consideradas uma das principais causas de indisponibilidade.

Os investimentos em inteligência artificial seguem concentrados nas áreas de maior impacto operacional. De acordo com a pesquisa, 85% dos líderes de tecnologia direcionam recursos para automação de segurança baseada em IA, enquanto 65% priorizam plataformas de observabilidade apoiadas por inteligência artificial para ampliar a capacidade de monitoramento e gerar análises em tempo real sobre seus ambientes digitais.

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