Foto: Rafael Minguet Delgado/Pexels

O Brasil é um dos principais alvos do cibercrime no mundo. Segundo o estudo “Cenário Global de Ameaças 2026”, do FortiGuard Labs, da Fortinet, o país registrou mais de 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2025. O volume representa 84% de todas as investidas identificadas na América Latina e coloca o Brasil entre os sete países mais atacados do planeta.

A dimensão dos ataques mostra como o crime digital deixou de depender de hackers isolados para se transformar em uma operação global altamente organizada, baseada em modelos de negócio escaláveis e voltados ao lucro.

Para Luciano Simão, Chief Information Security Officer (CISO) da Claranet do Brasil, a profissionalização das quadrilhas está diretamente ligada ao modelo conhecido como Cybercrime as a Service (CaaS), que comercializa ferramentas e serviços prontos para ataques. Em nota o executivo destacou que “Kits de ransomware, ferramentas de phishing e acessos a redes corporativas circulam livremente na dark web, reduzindo drasticamente a barreira de entrada para criminosos”.

Como consequência, empresas brasileiras enfrentam, em média, 3.520 ataques por semana, número superior à média global. O país também aparece entre os líderes mundiais em ataques de ransomware e detecções de malware. Os impactos financeiros acompanham essa escalada e violações de dados já geram prejuízos médios superiores a R$ 7 milhões por incidente. Os pedidos de resgate podem atingir cifras milionárias. Em muitas organizações, o ransomware passou a fazer parte da rotina dos riscos corporativos.

IA acelera os ataques

A inteligência artificial tornou o ambiente de ameaças ainda mais complexo. Ferramentas baseadas em IA permitem criar campanhas de phishing altamente personalizadas, além de localizar vulnerabilidades com mais rapidez e automatizar diferentes etapas das invasões. Ataques que antes exigiam dias ou semanas de preparação agora podem ser estruturados em poucos minutos.

O Brasil reúne fatores que aumentam seu nível de exposição, como a forte digitalização do sistema financeiro, a ampla utilização do Pix e diferentes níveis de maturidade em segurança da informação entre empresas e órgãos públicos. Segundo Simão, “é preciso atuação coordenada entre setor privado, governo, academia e órgãos reguladores“.

Nos últimos anos, o país avançou com iniciativas como a Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber 2025) e o Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), que buscam integrar diferentes setores para fortalecer a proteção da infraestrutura digital.

Mesmo assim, Simão afirma que ainda existem desafios importantes: “o país ainda opera de forma mais reativa do que preventiva. Setores como financeiro, telecomunicações e grandes empresas de tecnologia já apresentam níveis avançados de maturidade em cibersegurança, enquanto pequenas e médias empresas, órgãos públicos estaduais e municipais e cadeias de suprimentos seguem como pontos vulneráveis que demandam maior preparação”, avaliou o CISO.

Segurança passa a ser estratégia de negócio

Para acompanhar a evolução das ameaças, as organizações precisam incorporar inteligência artificial às estratégias de defesa, ampliar a automação e reduzir o tempo de resposta aos incidentes. A segurança digital deixou de ser apenas uma questão operacional para se tornar parte da estratégia de continuidade dos negócios.

Simão também apontou que “embora a LGPD represente um avanço relevante na proteção do indivíduo, ainda há um descompasso entre a sofisticação das ameaças e a capacidade de defesa da população, o que reforça a necessidade de que a proteção de dados e a consciência digital deixem de ser apenas uma obrigação regulatória e passem a ser um pilar essencial de confiança na economia digital. Independentemente do segmento, uma mudança cultural não pode mais ser adiada, a questão não é mais se uma organização será alvo de um ataque, mas quão preparada ela estará para resistir, responder e se recuperar quando esse momento chegar. No Brasil, ainda é comum que a cibersegurança seja vista como centro de custo, uma visão que se tornou obsoleta diante de ataques industrializados e prejuízos que ultrapassam milhões de reais. Segurança digital é um investimento estratégico, fundamental para a continuidade dos negócios, a proteção da economia e a preservação da confiança na sociedade digital”.

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