
A inteligência artificial já ultrapassa as fronteiras do processamento de linguagem e da geração de conteúdo para transformar diretamente o mundo físico. Na linha de frente dessa revolução estão startups como a CuspAI, que utiliza algoritmos avançados de IA para acelerar em ordens de grandeza a descoberta e a síntese de novos materiais. Em painel realizado no evento HumanX Amsterdam, Max Welling, CTO da startup e pesquisador de machine learning, detalhou como a empresa integra física teórica e redes neurais para solucionar problemas complexos, desde a eficiência de painéis solares até a purificação de água potável.
Ao contrário dos modelos tradicionais focados apenas em chatbots, a plataforma desenvolvida pela CuspAI atua como uma orquestradora de processos científicos. Ela combina modelos de linguagem com bibliotecas de ferramentas computacionais precisas para navegar em espaços químicos gigantescos, como os compostos conhecidos como redes metalorgânicas (MOFs), que abrangem centenas de trilhões de combinações possíveis.
“A maneira antiga como as pessoas faziam isso era lendo a literatura, formulando uma hipótese usando sua intuição e depois projetando um experimento. Esse é um processo muito lento”, explicou Welling. “O que a IA faz é ajudar a analisar toda a literatura, raciocinar sobre possíveis hipóteses mais rapidamente e gerar muitos candidatos para testar. A velocidade é acelerada em muitas ordens de grandeza”.
Como exemplo prático, Welling citou uma parceria recente com a empresa finlandesa Cyano. Utilizando a IA da CuspAI, a equipe projetou uma nova molécula capaz de se conectar e remover seletivamente os PFAS (os chamados “químicos eternos” poluentes) da água potável, um projeto que já avançou para a fase de síntese em laboratório.
Da academia ao mercado
Com passagem pela física teórica ao lado do prêmio Nobel Gerard ‘t Hooft e pós-doutorado em aprendizado de máquina com Geoffrey Hinton, Welling tem uma trajetória enraizada na academia. No entanto, ele defende que a Europa e o mundo precisam superar o abismo entre o conhecimento acadêmico e o desenvolvimento comercial.
Segundo o CTO da CuspAI, a chave para transformar pesquisas em negócios viáveis está na colaboração direta entre cientistas e fundadores experientes. “Os acadêmicos realmente se importam em resolver o problema científico, o que é muito bom. Mas o que você precisa é encontrar um cofundador empreendedor”, afirmou Welling. “Se você puder unir os empreendedores e os especialistas técnicos da academia, podemos criar muito mais empresas interessantes. Precisamos que os acadêmicos comecem a se importar com o impacto que podem gerar com sua tecnologia”.
Barreiras culturais e impacto positivo
Apesar do otimismo, a transição para a IA na ciência dos materiais ainda enfrenta obstáculos relevantes. Entre as principais barreiras apontadas por Welling estão a relutância do setor privado em compartilhar dados confidenciais, que são vistos como vantagem competitiva, o tempo necessário para testar novos materiais em dispositivos macroscópicos e a necessidade de regulamentação rigorosa e padrões de segurança para evitar que a tecnologia seja usada de forma nociva.
Ainda assim, o foco principal de Welling e da CuspAI permanece no impacto socioambiental de longo prazo. “Pessoalmente, sou movido pelo impacto positivo que podemos causar no mundo”, afirmou Welling. “Para mim, tudo isso será um sucesso se tivermos resolvido alguns problemas sociais realmente importantes. Se pudermos fazer um painel solar mais eficiente, uma bateria melhor, ou criar uma tecnologia que remova dióxido de carbono da atmosfera ou PFAS da água, isso seria uma enorme vitória e eu poderia me aposentar um homem feliz”.






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