
A expansão dos data centers no Brasil começa a esbarrar em uma questão que vai muito além de servidores e capacidade computacional: energia. No Data Center World Brasil, executivos de indústria, energia e tecnologia mostraram que a disponibilidade elétrica, a transmissão e a infraestrutura local já são fatores decisivos para viabilizar novos projetos, principalmente os voltados à inteligência artificial.
A discussão passou por um ponto em comum: não basta ter energia disponível no país. É preciso conseguir entregar essa energia de forma estável, previsível e no local onde o data center será instalado.
Regis Ataides, Global VP BU Automation e Digitalization da Andritz, colocou a demanda da indústria como exemplo do que está por vir. Segundo ele, as decisões dos clientes dependem cada vez mais de dados em tempo real, o que torna disponibilidade e baixa latência elementos essenciais para operações industriais.
A Andritz trabalha com a perspectiva de plantas industriais cada vez mais autônomas. A meta é conseguir entregar uma operação industrial com 100% de autonomia em até quatro anos. Para isso, dados, sistemas de informação e infraestrutura digital precisam funcionar continuamente, o que aumenta a necessidade de energia.
Uma planta industrial de médio porte pode ter cerca de 8 mil sensores operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Cada sensor representa mais dados para processar, armazenar e transmitir. O avanço da automação, portanto, também amplia a demanda indireta por data centers.
Para Ataides, o desafio não está apenas em manter os dados disponíveis. É necessário garantir disponibilidade em tempo real, latência adequada e segurança energética para que toda essa infraestrutura continue funcionando.
O gargalo está na transmissão
A discussão sobre energia ganhou outra dimensão com Ricardo Borges, Fundador da EGF Empresa de Geração Fotovoltaica. Ele destacou que é preciso separar a energia contratada da energia efetivamente disponível para consumo. Um data center pode comprar energia de diferentes geradores, mas isso não resolve sozinho o problema de garantir fornecimento firme no ponto de operação.
O Brasil tem capacidade de geração, mas enfrenta desequilíbrios entre regiões produtoras e centros consumidores. Borges citou situações de excesso de energia em determinadas áreas, enquanto a infraestrutura de transmissão não consegue levar essa capacidade para onde existe demanda.
A expansão dos data centers torna essa equação ainda mais complicada. Segundo ele, grandes consumidores precisam de um conjunto de soluções energéticas, combinando diferentes fontes e recursos para garantir estabilidade.
A geração renovável também apresenta desafios. Eólica e solar são importantes para a expansão da matriz, mas a distância entre os parques geradores e os grandes centros de consumo pode dificultar a operação. A intermitência dessas fontes exige alternativas como baterias e sistemas capazes de compensar oscilações.
Outro ponto levantado foi a necessidade de maior segurança jurídica para atrair investimentos em infraestrutura de data centers. Para Borges, o projeto energético precisa ser pensado junto com o próprio projeto do data center, e não depois.
A “rodovia” elétrica
Já Fernando de Souza Pinto, gerente comercial da TUPY | MWM, reforçou que o problema brasileiro não é simplesmente falta de geração. Para ele, o principal gargalo está na transmissão e nas subestações.
A comparação usada na palestra ajuda a entender o desafio: é como aumentar o número de veículos em uma rodovia sem ampliar a capacidade da estrada. Com mais data centers, indústria e outros grandes consumidores conectados à rede, a infraestrutura existente pode não acompanhar a nova demanda.
As subestações também podem se tornar pontos críticos. Em alguns projetos, uma alternativa é criar uma rede local dedicada ao data center, com eventual excedente retornando para a concessionária. A solução, porém, tem custo elevado.
O prazo para equipamentos também pesa no planejamento. Geradores, por exemplo, podem levar até dois anos para serem entregues, o que mostra como decisões sobre energia precisam acontecer muito antes da entrada em operação de um novo empreendimento.
Data centers de IA complicam a conta
Uma mudança importante no perfil dos novos data centers foi apontada por Alex Ma, enior solution manager da Sieyuan Electric Co Ltd. As estruturas projetadas para cargas de inteligência artificial consomem muito mais energia e apresentam um comportamento diferente dos data centers tradicionais.
A própria velocidade de implantação de projetos de IA altera a dinâmica do setor. Deploys que antes poderiam levar anos agora podem acontecer em meses, pressionando uma infraestrutura energética que não consegue necessariamente acompanhar o mesmo ritmo.
Outro problema está nas oscilações de consumo. Cargas de IA podem provocar variações significativas na demanda, criando desafios para sistemas de energia que precisam responder rapidamente.
A combinação entre crescimento da IA, fontes renováveis intermitentes e limitações de transmissão pode aumentar o estresse sobre redes de energia e distribuição. Em regiões com recursos limitados, os próprios data centers podem acabar disputando capacidade entre si.
Por isso, Ma defendeu que a energia seja tratada como um dos primeiros itens do projeto de um data center. A arquitetura energética, segundo ele, precisa ser pensada desde a engenharia inicial e considerando diferentes alternativas de fornecimento.
Olhar para toda a cadeia
Claudia Marquesani, CIO da Copa Energia, levou a discussão para uma questão de gestão. Para ela, um dos problemas do mercado brasileiro é analisar cada parte da infraestrutura de forma isolada, quando o funcionamento de um data center depende de uma cadeia inteira.
A operação precisa conectar consumidores, fornecedores, energia, infraestrutura e parceiros. Essa visão integrada ganha importância com o avanço da inteligência artificial e o crescimento da demanda por processamento e armazenamento de dados.
A expectativa apresentada por Claudia é que o consumo de dados da Copa nos próximos cinco anos seja maior do que o registrado nos 15 anos anteriores, impulsionado principalmente pela adoção de IA. O cenário da Copa é o de muitas outras empresas no Brasil, o que significa que precisaremos ampliar a capacidade de data centers justamente quando energia e infraestrutura já aparecem como limitações relevantes.
Não existe uma única solução para esse desafio. Geração, transmissão, subestações, baterias, geradores, fontes renováveis e infraestrutura dos próprios data centers precisam ser planejados em conjunto.
A expansão do mercado brasileiro de data centers depende menos de simplesmente construir novas instalações e mais de conseguir coordenar toda essa cadeia. Há uma oportunidade relevante de crescimento, mas ela passa por infraestrutura, previsibilidade regulatória e capacidade de planejar energia e tecnologia como partes do mesmo projeto.






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