
A transição energética global enfrenta um momento crucial. Pela primeira vez em mais de uma década, os fatores que sustentam a mudança para uma matriz de baixo carbono apresentaram deterioração simultânea em escala global. A conclusão faz parte do “Energy Transition Index 2026”, levantamento do Fórum Econômico Mundial que avalia 120 países a partir de 44 indicadores e aponta um enfraquecimento das condições necessárias para manter o avanço da transformação energética nos próximos anos.
Um artigo de David Rabley, Managing Director da Accenture, e Espen Mehlum, head de Energy do Fórum Econômico Mundial, publicado pelo Fórum, aponta que embora o desempenho geral do sistema energético tenha permanecido praticamente estável, com crescimento marginal de 0,03%, os pilares que garantem a continuidade dessa evolução perderam força. Entre os principais fatores estão a redução da previsibilidade regulatória, dificuldades de acesso a financiamento, menor capacidade de inovação e atrasos em investimentos em infraestrutura. O cenário ganhou ainda mais relevância após o agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã, que ampliaram preocupações sobre segurança energética e estabilidade dos mercados globais.
Antes mesmo da crise no Oriente Médio, o setor já enfrentava desafios estruturais. A reorganização das cadeias globais de suprimentos, as restrições no acesso a minerais críticos para tecnologias limpas, o encarecimento do crédito em economias emergentes e a instabilidade de políticas públicas vinham pressionando a velocidade da transição. O conflito apenas evidenciou fragilidades que já se acumulavam ao longo dos últimos anos.
Os dados do índice mostram que a geração de energia renovável e nuclear continua avançando. Juntas, essas fontes já respondem por 42% da eletricidade produzida globalmente. Em 2026, foram adicionados quase 800 gigawatts de capacidade renovável, enquanto melhorias em eficiência energética foram registradas em 92 economias avaliadas.
Transição energética passa a ser vista também como questão de segurança
Apesar desse progresso, a segurança energética foi o único componente a apresentar retração. O indicador caiu 0,9%, refletindo menor diversificação das fontes de abastecimento e redução da confiabilidade dos sistemas energéticos. A situação reforça um debate cada vez mais presente entre governos e empresas: a dependência de combustíveis fósseis importados aumenta a exposição a crises geopolíticas, enquanto a expansão de fontes locais de energia pode ampliar a resiliência dos países.
Casos como o do Vietnã ilustram essa mudança de percepção. A expansão da geração solar, inicialmente impulsionada por metas climáticas, passou a ser vista também como mecanismo de proteção contra oscilações nos preços internacionais do gás. Movimentos semelhantes vêm sendo observados em diferentes regiões, indicando que a segurança energética está se tornando um argumento adicional para acelerar investimentos em energia limpa.
O impacto econômico da atual crise também preocupa. Países emergentes enfrentam o desafio de equilibrar segurança energética, sustentabilidade fiscal e investimentos em transição. A Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), por exemplo, absorve custos adicionais estimados em US$ 3,4 bilhões por mês devido à alta dos preços da energia. Em resposta, algumas economias retomaram medidas emergenciais, como o aumento da geração a carvão e restrições temporárias no consumo energético.
Crise acelera alianças
Ao mesmo tempo, iniciativas de cooperação regional ganham importância estratégica. O projeto ASEAN Power Grid, apoiado pelo Banco Asiático de Desenvolvimento e pelo Banco Mundial, prevê mobilizar aproximadamente US$ 760 bilhões em investimentos em geração e transmissão até 2045. A proposta busca ampliar a integração elétrica entre os países da região, reduzindo a dependência de rotas críticas de abastecimento e fortalecendo a segurança energética coletiva.
Para as empresas, a crise também altera prioridades. A exposição a riscos ligados ao fornecimento de energia, minerais críticos e infraestrutura elétrica passou a ser analisada com o mesmo rigor aplicado a riscos financeiros. A capacidade de integrar diferentes fontes energéticas, tecnologias e cadeias de suprimento surge como um dos principais diferenciais competitivos da próxima década.
O relatório aponta três tendências que devem orientar decisões nos próximos 12 meses. A primeira é o fortalecimento da narrativa de segurança energética como impulsionadora das energias renováveis. A segunda envolve a reavaliação do papel do gás natural liquefeito (GNL) como combustível de transição, especialmente na Ásia, região fortemente dependente das rotas que passam pelo Estreito de Ormuz. A terceira é o aumento da relevância da credibilidade regulatória como fator determinante para atração de investimentos.
Estabilidade institucional definirá a próxima fase
Segundo o estudo, a estabilidade das regras, a previsibilidade regulatória e a capacidade de execução dos governos serão fatores decisivos para destravar novos fluxos de capital destinados à infraestrutura energética. Em um ambiente marcado por maior competição por recursos financeiros, países que oferecem segurança institucional tendem a atrair mais investimentos, enquanto mercados com maior incerteza podem enfrentar custos crescentes para financiar a transição.
A avaliação final do índice é que a transição energética global continua avançando, mas de forma cada vez mais desigual. As decisões tomadas por governos e empresas nos próximos meses poderão definir não apenas a velocidade da transformação energética, mas também quais países estarão mais preparados para competir em um cenário de crescente pressão geopolítica e econômica.






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