
Toda a transformação trazida pela inteligência artificial está mudando a discussão sobre infraestrutura digital no Brasil. Em vez de concentrar processamento em grandes data centers, empresas começam a olhar para estruturas menores e mais próximas de onde os dados são gerados e consumidos. O edge computing aparece como uma alternativa para reduzir latência, ampliar a resiliência e, em alguns casos, aumentar o controle sobre os dados.
O tema foi discutido na Futurecom 2026 e mostrou que o avanço do edge no país depende não apenas de tecnologia, mas também de conectividade, padronização, segurança e capacidade de levar infraestrutura para fora dos grandes centros.
Para Lennon Bento, enterprise architecture sr manager de infra e cybersecurity da Vale, o avanço do edge está diretamente relacionado a duas questões que ganharam peso com a inteligência artificial: processamento próximo à operação e soberania de dados.
Segundo o executivo, para algumas soluções, investir mais na ponta pode fazer diferença. A discussão sobre soberania também mudou de patamar. Deixou de ser apenas uma escolha tecnológica e passou a envolver o grau de risco que cada empresa está disposta a assumir.
Na Vale, essa necessidade pode ampliar o uso de edge computing. A companhia já opera uma rede privativa em Carajás que pode ser comparada as redes existentes em cidades como Tóquio e Nova York, segundo Bento.
A lógica é simples: quanto mais aplicações de IA dependem de dados produzidos em campo, maior pode ser a necessidade de processar essas informações perto da operação. Para setores com ambientes industriais espalhados pelo país, isso pode significar menos dependência de estruturas centralizadas.
Mini data centers pelo interior
A infraestrutura também começa a se espalhar geograficamente. Cássio Ricardo Lehmann, CRO da Eletronet, afirmou que a empresa trabalha com a perspectiva de chegar a 255 edge data centers até o final de 2026.
A proposta é levar mini data centers para diferentes regiões do país. São estruturas menores, mas com características de um data center tradicional e capacidade para atender aplicações que precisam de maior proximidade física.
A conectividade é uma peça fundamental desse modelo. Não basta instalar um data center em uma determinada região se a rede que conecta essa estrutura ao restante do ecossistema não tiver capacidade e confiabilidade suficientes.
Lehmann também destacou uma mudança na relação entre edge e nuvem. A ideia não é simplesmente abandonar o cloud computing ou substituir o colocation, mas permitir que empresas tenham recursos de nuvem disponíveis em uma infraestrutura localizada mais perto de suas operações.
O movimento interessa também a operadoras, provedores de conteúdo e plataformas de streaming. Para esses negócios, aproximar o processamento do consumidor final pode melhorar a experiência e reduzir o tempo necessário para transportar os dados.
Brasil ainda precisa ganhar escala
Carlyle Garcia, CRO/CMO da FiberHome para a região do Mercosul, apontou que o próximo estágio do edge exige redes mais robustas e neutras. Na Ásia, segundo ele, já existe uma demanda crescente por serviços locais com tempos de resposta extremamente baixos, chegando a uma referência de até 20 milissegundos de latência.
Esse nível de exigência ainda não é realidade no Brasil, mas pode ganhar espaço à medida que aplicações de IA, IoT e automação avançarem. Em operações que dependem de respostas praticamente instantâneas, a distância entre o usuário, o equipamento e o processamento deixa de ser um detalhe de infraestrutura.
Garcia chamou a atenção para um desafio menos tecnológico: a organização da cadeia. Para ele, provedores locais precisam tratar o edge como parte de sua oferta e considerar toda a infraestrutura necessária para entregar esse modelo.
A padronização é outro obstáculo. Integradores ainda não teriam uma base de clientes suficientemente ampla para justificar padrões mais consolidados, enquanto algumas empresas carregam gargalos criados por processos anteriores e têm dificuldade para conectar as diferentes partes da infraestrutura.
Milhares de pontos podem virar edge
Já Rodrigo Schuch, presidente da Associação NEO, trouxe uma perspectiva de escala para a discussão. Os associados da NEO somam cerca de 100.000 pontos de presença distribuídos pelo Brasil, utilizados para a prestação de serviços de banda larga.
Mas o potencial pode ser muito maior. Segundo Schuch, cerca de 4.200 pontos poderiam eventualmente ser transformados em estruturas de edge data center, já que parte deles possui características e infraestrutura que poderiam ser aproveitadas.
A comparação com outros mercados ajuda a dimensionar esse espaço. Schuch citou os Estados Unidos, que teriam cerca de 5 mil data centers, enquanto o Brasil possui aproximadamente 200. Para ele, existe uma oportunidade de transformar uma parte da infraestrutura já espalhada pelo país em uma rede de processamento distribuído.
O Brasil também tem demanda. Cerca de 40% do que é consumido em data centers no país seria produzido localmente, segundo o executivo. O problema está em ampliar a oferta com requisitos de preço, segurança e confiabilidade capazes de atender grandes consumidores.
Hoje, o governo é apontado como o maior consumidor de data centers no país. A infraestrutura distribuída também poderia alcançar instituições públicas, como universidades federais, criando pontos de processamento mais próximos dos usuários e das aplicações.
No fim, a discussão sobre edge no Brasil passa por uma questão maior: soberania digital. Para Schuch, ter controle sobre a infraestrutura e os dados é parte importante para que o país tenha maior peso na economia baseada em dados.
Se grandes volumes de dados precisarem ser processados com baixa latência e próximos das operações, o modelo concentrado em poucos grandes data centers pode dividir espaço com uma infraestrutura mais distribuída. O edge, nesse cenário, pode fazer parte da estratégia de infraestrutura digital do país.






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