
O Brasil tem indústria diversificada, mercado consumidor relevante e vantagens em áreas como conectividade, energia, agronegócio, saúde e tecnologia. Ainda assim, transformar esse potencial em liderança na Indústria 5.0 depende de um ingrediente que continua difícil de encontrar: conexão entre empresas, governo, universidades e ambientes de inovação.
A avaliação apareceu durante painel da Futurecom 2026 que discutiu os caminhos da transformação digital brasileira. O debate passou por políticas públicas, tecnoparques, qualificação profissional, soberania tecnológica e a necessidade de aproximar inovação de resultados concretos para os negócios.
Pessoas no centro da indústria
Para Rosilda Prates, presidente da P&D, a digitalização precisa ser encarada também como instrumento de inclusão. A transformação tecnológica modifica o mercado de trabalho, elimina algumas funções e cria outras, exigindo que o país se prepare para novas profissões e para a capacitação das pessoas.
Ela defendeu uma política de longo prazo para criar um ambiente com mais previsibilidade e segurança jurídica para investimentos em tecnologia e inovação. Na avaliação de Rosilda, empresas de tecnologia e inovação precisam receber tratamento diferenciado do Estado, com mais apoio à pesquisa, desenvolvimento, subvenção e mecanismos de incentivo.
O objetivo, segundo ela, não é fechar o Brasil para o mercado internacional. Pelo contrário. A soberania tecnológica passa por aumentar a participação do país nas cadeias globais de valor.
O Brasil já reúne competências importantes em setores como agronegócio, TIC e saúde. Para transformar essas vantagens em legado econômico, porém, é necessário combinar políticas públicas, investimentos privados e formação de profissionais.
Inovação precisa sair do discurso
A discussão sobre Indústria 5.0 também colocou as pessoas no centro. André Santos, diretor da Agência Inova e diretor-presidente da Rede de Ambientes Paulistas de Inovação (Rede API), destacou que propósito, pessoas e inovação são pilares para a evolução da indústria.
Para ele, a Indústria 5.0 representa uma oportunidade para discutir não apenas tecnologia, mas como transformar essa tecnologia em negócios. E isso não depende exclusivamente das grandes corporações.
O Brasil já possui políticas públicas, programas de fomento e centros de inovação. O problema é fazer esse ecossistema funcionar de maneira mais articulada. Santos apontou uma distância entre o conhecimento produzido nas universidades e a capacidade de transformá-lo em inovação aplicada.
Parte desse problema também aparece na utilização dos recursos públicos. Projetos acabam desclassificados em editais porque empresas não conseguem estruturar ou apresentar adequadamente suas propostas. A aproximação entre setor empresarial, governo e sociedade, portanto, é fundamental para transformar conhecimento em projetos.
Tecnoparques como infraestrutura de inovação
Luciano Charlita de Freitas, Senior Digital and Artificial Intelligence Specialist do Banco Mundial, levou a discussão para os tecnoparques, apresentados como uma etapa mais sofisticada da jornada de transformação digital.
Se conectividade e digitalização formam a base dessa jornada, os tecnoparques funcionam como hubs que concentram capital, conhecimento, empresas e desenvolvimento tecnológico. Segundo Freitas, o Banco Mundial financia iniciativas desse tipo em diferentes países, tanto públicas quanto privadas.
O Brasil começou a discutir o conceito ainda nos anos 1980, mas não conseguiu acompanhar a evolução internacional. Na América Latina, nenhum tecnoparque aparece atualmente entre os 50 mais inovadores do mundo, segundo a avaliação apresentada no painel.
O cenário ganha importância diante da meta de digitalizar metade do parque industrial brasileiro até 2033. Para Freitas, o país tem condições para buscar uma posição de liderança na Indústria 5.0, principalmente em tecnologias digitais.
Há vantagens estruturais, como conectividade, disponibilidade de energia e um mercado interno grande. O desafio está em transformar esses ativos em ambientes capazes de atrair investimentos e gerar inovação de forma contínua.
A agenda também vai além dos data centers. Soluções de edge computing, cidades inteligentes, equipamentos e serviços digitais podem abrir novas oportunidades para empresas brasileiras e, no médio e longo prazo, também para exportação.
Indústria, academia e governo precisam trabalhar juntos
As mudanças tecnológicas, fusões e aquisições estão alterando a dinâmica da indústria, conforme Sebastião Vieira de Rezende Júnior, gerente da Fibracem. Por isso, a aproximação entre centros tecnológicos, universidades e empresas passa a ser uma necessidade.
O desenvolvimento de novos produtos exige investimentos elevados, inclusive com custos de certificação em muitos casos. Conhecer melhor a demanda do consumidor e aproximar os diferentes elos da cadeia produtiva pode tornar esse processo mais preciso e reduzir riscos.
Rezende também destacou o peso das políticas públicas. Para a indústria nacional, incentivos e mecanismos de apoio podem fazer diferença na capacidade de competir. Conhecer os aspectos fiscais, tributários e os instrumentos disponíveis para o setor deveria ser parte da própria estratégia empresarial.
Competitividade passa pela cadeia inteira
Hermano do Amaral Pinto Junior, diretor de Telecom da FIESP e conselheiro da Informa Markets Latam, ampliou a discussão para além da fábrica. Para ele, pensar a competitividade da manufatura brasileira exige considerar toda a cadeia de valor, incluindo marketing, logística, fornecedores, pesquisa e mercado consumidor.
O executivo lembrou que o Brasil possui histórico de inovação, como o desenvolvimento do etanol, e que novas formas de produção continuam sendo pesquisadas. A chave está em combinar essas capacidades com as vocações e demandas específicas de cada região do país.
A Indústria 5.0 adiciona novas dimensões a essa discussão. Inteligência artificial física, centralidade do ser humano, inclusão e circularidade aproximam a indústria da sociedade e ampliam a responsabilidade das empresas sobre toda a cadeia de valor.
A soberania, nessa visão, não significa produzir tudo sozinho. Significa ter capacidade de desenvolver tecnologia, conhecimento e produtos e, ao mesmo tempo, estar inserido no mercado global.
A conversa foi menos sobre adotar uma nova tecnologia específica e mais sobre criar as condições para que a indústria brasileira consiga inovar continuamente. Para isso, empresas, universidades e governos precisam reduzir a distância que ainda separa conhecimento, investimento e aplicação prática.
O Brasil tem oportunidade de combinar tecnologia e competitividade com inclusão, sustentabilidade e desenvolvimento econômico. Mas, para aproveitar essa oportunidade, o país precisará de políticas de longo prazo, financiamento, ambientes de inovação mais fortes e capacidade de tomar decisões com mais velocidade.






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