Sol Rashidi, durante apresentação no FICO World

É cada vez mais comum expressão de cansaço, medo, frustração nas empresas. Muito disso vem do avanço e também dos discursos de IA substituindo tudo e todos. Com isso, vivemos em uma era de saturação. Se você abrir o LinkedIn, sua caixa de entrada ou qualquer feed de notícias agora, a palavra “IA” aparecerá repetidamente. Sol Rashidi, executiva com 16 anos de experiência no setor de inteligência artificial e dados, resume bem o sentimento coletivo: estamos exaustos. A fadiga de IA não é apenas um termo da moda; é uma realidade clínica para profissionais que tentam absorver um volume de informações que dobra em intervalos de tempo cada vez menores.

Enquanto no século passado a informação levava décadas para replicar, hoje, entre o seu jantar e o café da manhã seguinte, a rede mundial de computadores já se replicou inteira, comenta Sol. Esse bombardeio cria uma sensação de urgência que, no fundo, é paralisante. No entanto, o verdadeiro desafio não é apenas acompanhar o ritmo, mas garantir que, nessa corrida tecnológica, não esqueçamos o elemento que realmente importa: o capital humano.

Reação Alérgica à Substituição

Um momento de virada na trajetória de Sol Rashidi ilustra o perigo da narrativa atual. Ao caminhar pela Times Square, em Nova York, ela se deparou com um anúncio de uma empresa chamada Artis que dizia: “Pare de contratar pessoas e contrate sua força de trabalho de IA”. Para alguém que ajudou a lançar aplicações comerciais de IA como o Watson, da IBM, essa mensagem gerou uma “reação alérgica” imediata.

O propósito original da IA nunca foi o deslocamento em massa, mas sim a amplificação das capacidades humanas, relembra a especialista. “O sussurro de que a tecnologia deveria substituir o homem tornou-se uma voz ensurdecedora, levando muitos líderes a focar em eficiência e redução de custos em vez de eficácia e valor”, afirmou Sol, durante palestra no FICO World, em Orlando (EUA). Quando as empresas focam apenas em “fazer coisas erradas mais rápido”, elas perdem o retorno sobre o investimento (ROI) e, pior, perdem a confiança de seus talentos.

Além do Hype

Para navegar nesse ecossistema desorientador, é preciso adotar modelos mentais claros. O primeiro deles é fundamental: não se usa IA por usar. Se o seu objetivo é cortar um papel ao meio, você usa uma tesoura, não uma motosserra; a solução deve ser compatível com a complexidade do problema de negócio. Muitas vezes, a solução ideal é uma otimização de processo ou um redesenho de fluxo de trabalho, e não necessariamente um algoritmo de última geração.

Sol propõe uma distinção clara entre “Usar IA” e “Fazer IA”:

  • Usar IA: é o que a maioria faz ao comprar licenças de Copilots ou Geminis para resumir e-mails. Isso hoje é o básico, não um diferencial competitivo.
  • Fazer IA: é o trabalho árduo de redesenhar processos de negócios, dividir tarefas em subtarefas e aplicar a tecnologia onde ela realmente pode terceirizar execuções pesadas. Isso demanda tempo, investimento e gente especializada.

Além disso, ela sugere renomear o A da IA para três categorias mais compreensíveis:

  1. Inteligência Automatizada: focada em tarefas repetitivas e RPA.
  2. Inteligência Aumentada: onde a tecnologia se torna um multiplicador de forças para o seu “superpoder” individual.
  3. Inteligência Antecipatória: modelos preditivos que ajudam na tomada de decisão.

Em um contexto complexo como o que vivemos, tal clareza é vital mesmo porque, quando se adicionam ao cenário os agentes de IA, a situação é ainda mais caótica. Sol alerta que cerca de 80% dos agentes falham e, sem uma camada de orquestração, eles podem acabar “discutindo” entre si, gerando custos astronômicos sem resultados práticos. Para que funcionem, eles dependem de dois pilares que muitas empresas ainda negligenciam: dados limpos e, principalmente contexto. E aqui, vale outra ressalva trazida pela executiva: normalmente nas empresas, o contexto não está documento, porque é a maneira como fazemos, executamos. 

Atrofia Intelectual

O maior risco que corremos ao adotar a IA de forma acrítica é o que Sol Rashidi chama de atrofia intelectual ou o “efeito Google”. Assim como um músculo enfraquece após semanas sob um gesso, nossa capacidade de pensamento crítico e articulação definha quando terceirizamos nossa opinião para modelos de linguagem.

Estamos desenvolvendo uma codependência perigosa, onde usamos GPS até para caminhos que já conhecemos, perdendo a habilidade cognitiva de retraçar nossos próprios passos. A IA deve ser usada para lidar com a execução, mas o pensamento crítico deve permanecer humano. Sua capacidade de discernimento, de validar fontes e de desenvolver uma opinião própria é a sua moeda mais valiosa no futuro.

Recado para os Líderes

Para fechar o hiato entre a exaustão atual e o potencial futuro, as organizações precisam de uma mudança drástica na gestão de talentos. O foco precisa estar em: “terceirizar as tarefas, mas nunca o pensamento.”

Um ponto crucial e muitas vezes ignorado pela pressão por eficiência imediata é a contratação de talentos juniores. Há uma tendência perigosa de parar de contratar recém-formados sob o pretexto de que a IA pode fazer o trabalho de base. Sol, assim como diversos outros especialistas, enxerga nesse movimento um grande erro. Ela alerta se tratar de um erro estratégico gravíssimo.

Leva-se de 5 a 11 anos para desenvolver maestria e especialidade. Se pararmos de contratar e treinar pessoas juniores hoje, quem serão os especialistas humanos ‘no loop’ que governarão esses sistemas daqui a uma década?”, questiona Sol. “Ao contratar jovens talentos, não estamos apenas pagando por pesquisa ou agregação de dados; estamos investindo no desenvolvimento de seus músculos de pensamento crítico e tomada de decisão.”

Para Sol Rashidi, o futuro deve ser liderado por humanos e fortalecido por IA, e não o contrário. A tecnologia deve acontecer conosco e não para nós ou contra nós. Proteger a força de trabalho do futuro significa garantir que a IA amplie nossa humanidade, mantendo o foco no que as máquinas nunca poderão substituir: nossos relacionamentos, nosso contexto e nossa capacidade única de pensar de forma profunda e ética.

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