Auro del Giglio, médico e professor da FMABC, durante encontro no inovabra. Foto: reprodução

A medicina vive um dilema moderno com a chegada da inteligência artificial. De um lado, robôs processam dados em velocidades inacreditáveis. Do outro, o paciente na maca ainda precisa de um olhar atento e de empatia para enfrentar a dor. O médico Auro del Giglio, professor titular de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Fundação ABC (FMABC), trouxe uma perspectiva realista sobre essa relação durante um encontro promovido pelo inovabra. Para ele, embora as ferramentas tecnológicas avancem rápido, a essência do cuidado continua blindada contra a automação.

O especialista defende que o ato médico vai muito além de seguir protocolos ou analisar biomarcadores. O sofrimento humano tem muitas camadas: é físico, social, financeiro e até existencial. Uma máquina pode prever riscos com precisão matemática, mas não consegue ler o silêncio de um paciente em uma conversa difícil. Essa capacidade de interpretar o que não foi dito é o que os profissionais chamam de hermenêutica médica.

Giglio resgata a visão histórica de que a prática médica é uma arte baseada na ciência. As ferramentas de IA operam muito bem na parte científica, estruturando dados e acelerando diagnósticos. Porém, o lado artístico da profissão exige vivência e sentimentos reais para existir. “Temos já um começo de limitação da IA. Ela ainda não tem experiência e provavelmente nunca poderá tê-la na perspectiva humana, porque você pode até ter uma experiência, mas é uma experiência artificial”, apontou.

Os limites da tecnologia

A tecnologia atual falha quando tenta simular sentimentos humanos profundos. Giglio compartilhou que tentou usar ferramentas de geração de imagens para criar a figura de um médico genuinamente compassivo. O resultado foi artificial e sem alma, evidenciando que os algoritmos apenas imitam reações sem de fato compreendê-las. Essa incapacidade de sentir cria uma barreira intransponível entre o código de programação e a dor do paciente.

Além das barreiras emocionais, a IA também enfrenta problemas práticos no dia a dia. As alucinações de dados e os vieses culturais ainda são desafios frequentes nos grandes modelos de linguagem (LLMs). Pesquisas mostram que ferramentas como o GPT-4 chegaram a errar 20% das condutas ao analisar casos complexos de periódicos médicos renomados. O índice de erro é considerado alto demais para que as máquinas tomem decisões sozinhas.

Outro ponto crítico é a produção de novos conhecimentos científicos. O professor destacou que “a inteligência artificial não pode produzir dados. Se você quer um trabalho original, você tem que fazer os dados, a pesquisa e aí você tem que produzir algo. Você pode até ter uma ajuda para escrever, mas inventar o dado não pode. Isso a inteligência artificial não pode fazer. Eticamente não pode”. Um estudo bibliométrico realizado pelo palestrante revelou que a IA triplicou sua presença nos textos acadêmicos, mas o número de pesquisas originais em oncologia não subiu. O trabalho de campo e os testes com pacientes reais continuam dependendo do esforço humano.

O futuro da consulta

Apesar das limitações, a tecnologia tem um papel transformador se usada como suporte. Em vez de afastar o médico do paciente, a automação pode devolver o tempo perdido com a burocracia. Ao agilizar a análise de exames e a organização de prontuários, sobra mais espaço na agenda para a conversa olho no olho. A grande meta é usar a eficiência das máquinas para resgatar a atenção que a saúde tanto precisa.

Uma das aplicações inovadoras testadas por Giglio envolve o uso de questionários humanizados. Antes da consulta, o paciente responde perguntas abertas sobre sua vida, família e medos. O sistema sintetiza essas respostas e entrega um resumo ao médico. Assim, o profissional inicia o atendimento conhecendo a história da pessoa, e não apenas seus sintomas. Os testes iniciais mostraram que os pacientes se sentiram muito mais acolhidos.

O médico do futuro será aquele que souber equilibrar a precisão das máquinas com a sensibilidade humana. Giglio enfatiza que “entender o sofrimento humano é parte fundamental da medicina, eu acho que nós temos o nosso emprego garantido por mais alguns anos. IA não sente, não tem compaixão, não vive, não tem compreensão genuína, né?”. A tecnologia deve funcionar como uma assistente ágil, deixando a decisão final e o carinho para quem realmente pode sentir.

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