Foto: Amorie Sam/Pexels

A inteligência artificial já faz parte da rotina de praticamente todas as grandes organizações, mas a capacidade de proteger e recuperar esses sistemas ainda está bem atrás do ritmo de adoção. No Brasil, 45% das empresas dizem ter planos de recuperação que contemplam ataques contra sistemas e aplicações de IA. O dado significa que mais da metade ainda não conta com uma estratégia abrangente para esse tipo de incidente.

O cenário aparece na quinta edição do relatório anual de ciber-resiliência da Cohesity, produzido pela Vanson Bourne. A pesquisa ouviu 3.200 líderes de tecnologia e segurança em 11 países e mostra que o avanço da IA está criando novas demandas para as equipes responsáveis por continuidade e segurança digital.

IA sem inventário centralizado

Um dos problemas começa antes mesmo de um eventual ataque. Segundo o levantamento, 51% das empresas brasileiras não possuem um inventário centralizado das ferramentas de IA utilizadas pela organização.

Sem uma visão consolidada, fica mais difícil identificar quais modelos, aplicações, agentes e pipelines precisam ser protegidos ou recuperados depois de uma invasão. A dificuldade também aparece na validação dos sistemas após um incidente: 46% dos entrevistados no Brasil não têm plena confiança de que conseguem verificar a integridade de seus modelos de IA depois de um ataque.

O levantamento mostra ainda que 51% das empresas brasileiras não se consideram bem preparadas para conter ações incorretas ou não intencionais realizadas por agentes de IA e copilotos. No cenário global, o índice é de 56%.

Planos de recuperação ainda têm lacunas

A distância entre adoção e preparação fica mais evidente quando as empresas analisam incidentes reais. Nos últimos 12 meses, 64% das organizações brasileiras participantes da pesquisa enfrentaram lacunas moderadas ou significativas na cobertura de modelos, pipelines e ferramentas de IA por seus planos de resposta a ataques cibernéticos com impacto material.

O percentual é próximo do registrado globalmente, de 63%. Para a Cohesity, o resultado mostra que os mecanismos tradicionais de recuperação precisam considerar também as novas camadas tecnológicas criadas pela inteligência artificial.

A percepção dos próprios executivos reforça essa necessidade. Entre os líderes brasileiros entrevistados, 99% afirmam que deverão modificar seus planos de resposta para lidar com sistemas de IA avançada, conhecida como frontier AI. Globalmente, essa percepção chega a 97%.

Gustavo Leite, vice-presidente da Cohesity para a América Latina, destacou em nota que “os dados apontam para um problema que não pode ser adiado. É algo que precisa ser enfrentado agora. As empresas precisam ampliar os planos de resiliência para abranger sistemas, modelos e agentes de IA, e não apenas a infraestrutura tradicional, além de testar sua recuperação em condições realistas, não apenas na teoria”.

Ataques com IA mudam velocidade da resposta

A discussão ganha peso com incidentes recentes envolvendo sistemas de inteligência artificial. O relatório cita o episódio de julho de 2026 relacionado à Hugging Face e à OpenAI, no qual um agente de IA comprometeu outra organização. O caso é usado pela Cohesity para ilustrar uma diferença importante: sistemas autônomos podem conduzir ações ofensivas em uma escala e velocidade difíceis de acompanhar por equipes humanas.

“O perigo não é somente que a IA consiga realizar invasões mais rápido do que um humano, mas que ela pode continuar invadindo, em toda parte, de forma simultânea. A prevenção continua sendo importante, mas já não é suficiente. Os conselhos de segurança precisam saber se a organização consegue manter suas operações quando uma violação se desenrola mais rápido do que a capacidade de resposta humana”, apontou Leite.

O que muda na ciber-resiliência

A recomendação apresentada pela Cohesity é ampliar o planejamento de recuperação para além da infraestrutura convencional. Isso envolve mapear dependências entre sistemas, modelos e ferramentas de IA, com atenção especial aos mecanismos de identidade e controle de acesso.

A empresa também defende avaliações periódicas da capacidade de recuperação e testes em situações próximas às enfrentadas em um ataque real. A proposta inclui o uso de uma estrutura organizada de ciber-resiliência, como o modelo de “5 Passos para a Ciber-resiliência” desenvolvido pela própria companhia.

O estudo foi realizado em julho de 2026 pela Vanson Bourne, a pedido da Cohesity. Participaram líderes de TI e segurança do Brasil, Austrália, França, Alemanha, Índia, Japão, Singapura, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos. Na pesquisa, um incidente de impacto material é aquele que produz efeitos mensuráveis para a organização, como perdas financeiras, danos à reputação, interrupções operacionais ou perda de clientes.

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