
Tem algo que vem me incomodando cada vez mais no uso da IA para programar. E não é a tecnologia. É a forma como estamos usando.
Existe uma ilusão de que podemos terceirizar um trabalho intelectual difícil, gerar código, e ainda assim manter controle total do sistema. Como se bastasse saber pedir, revisar por alto e seguir em frente. Não, não basta.
Porque, em algum momento, e isso acontece com frequência, a ferramenta deixa de resolver de forma confiável. O código não funciona, quebra em produção ou faz algo diferente do esperado. E, nesses momentos, nem sempre há prompt que salve. Quem resolve é quem entende.
E é aí que o problema aparece.
Quando você delega sem compreender, tende a entender cada vez menos. Quanto menos entende, mais depende. E quanto mais depende, mais frágil você fica quando o sistema sai do script.
Isso não é novo. Já vimos esse filme com copy & paste. A diferença é a escala. Não estamos apenas copiando código. Estamos aceitando blocos inteiros sem passar pelo processo mental que constrói entendimento. Ler, escrever, errar, testar, ajustar. É isso que forma a capacidade de raciocinar sobre código. É isso que permite prever comportamento, identificar problemas e tomar decisões. Sem isso, você até produz mais, mas entende menos.
E isso cria um tipo novo de dívida e que não é só técnica.
É também cognitiva. O código pode crescer mais rápido do que a capacidade de quem o mantém. E quando algo quebra, o problema não é só o sistema. É a incapacidade de explicar o que está acontecendo.
O mais preocupante é ver isso com quem está começando. No início da carreira, o objetivo não é velocidade. É construção de repertório, intuição e leitura de código. Se essa etapa é pulada, pode haver produtividade no curto prazo, mas com custo no longo. E nem quem já é experiente está imune. Dependência excessiva também enferruja habilidade.
Não se trata de usar ou não usar IA. Devemos usar. Mas sem abrir mão da parte mais importante do trabalho: pensar. Porque quando a ferramenta falha, e ela falha, não é ela que sustenta o sistema. É você.

Cezar Taurion é advisor de IA com mais de 4 décadas de experiência no mercado de TI. Investidor e mentor de startups de IA e membro do conselho de inovação de diversas empresas e associações. Foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil, sócio-diretor e líder da prática de IT Strategy da PwC, além de passar por Shell e Chase Manhattan Bank. Escreve sobre TI em publicações especializadas e apresenta palestras em eventos e conferências. É autor de 14 livros e e-books. Membro notável do I2AI. Professor convidado da FDC, da PUC-RJ e PUC-RS, nas cadeiras de MBA “IA aplicada aos negócios” e “Transformação Digital”. Publisher da Intelligent Automation Magazine. Top Voice Linkedin.






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