
Os agentes de IA chegaram para ficar. Embora as empresas admitam que seu uso ainda não foi escalado, já existe uma preocupação sobre o real impacto que essa variante de inteligência artificial pode ter na forma como trabalhamos. Trata-se de uma mudança que afeta a todos, da base ao topo, que gera necessidade de repensar a atuação profissional e que demandará, igualmente, uma transformação organizacional. O assunto esteve presente em diversos debates do Febraban Tech 2026. Ora como tema principal, ora como tópico que surgia. Mas houve praticamente consenso no entendimento de que a mudança é organizacional e cultural.
Mas voltando aos profissionais, a preocupação passa por vários níveis. Desde o treinar e gerenciar esses agentes, internalizar nos times e repensar as atuações das pessoas. Como lembrou Lennon Barbosa Farias, Tech CIO do Bradesco, é preciso atentar-se ao uso e a forma como as respostas e ações da IA são recebidas pelos funcionários.
“Como julgar se o que recebemos de retorno da IA é correto ou não? Capacidade de julgamento e discernimento só consegue com conhecimento. Vamos produzir mais, mas validando mais”, afirmou o executivo. “Conhecimento segue fundamental para qualquer função. Se não sabe perguntar da forma correta, não vai funcionar. Se perguntar errado, vai ter uma resposta que não é a adequada.”
Na visão de Farias, o desafio segue na medida em que ele afeta a todos, inclusive a liderança, que passará a ter a atribuição de liderar equipes com esse tipo de artefato. Para mitigar problemas, Carlos Netto, CEO North America e cofundador da Matera, sugere colocar esforço na arquitetura dos agentes (base de dados por onde se toma decisões); nos guard-rails definidos (pessoas definem intervalo de atuação dos agentes); no processo de decisão autônoma; e nas regras para o que eles chamam de human in the loop, ou seja, quando o ok final é dado por um humano.
Liderança e contexto
“O momento de transformação é rico, e isso passa pelo trabalho do indivíduo, muitas vezes essa pessoa passa a liderar um time de agentes e isso muda tudo. Terá de dar fieedbacks, evoluir time. As vezes temos pessoa que trabalha isolada e agora tem time que responde pra ela, mas de agentes e não de pessoas”, refletiu Netto.
O liderar agentes e o liderar nesse ambiente de transformação é algo que emerge em discussões do tipo. Talvez, a velocidade de mudança que foi imposta ao tempo atual desafie ainda mais quem ocupa uma posição de liderança ou pensa em ocupar. “Quando contratamos (para liderança) ou promovemos alguém, olhamos a capacidade de liderar mudança em ambiente ambíguo. Não sabemos como IA vai terminar, vejo isso como diferencial, porque é uma transformação diferente. Inquietude em como trabalhar, como faço diferente, como me livro de atividades chatas e como escalo e otimizo minha contribuição”, pontuou Mariana Gomide, Superintendente do Itaú Unibanco.
No Itaú, a própria área de negócio define até onde vai a responsabilidade e a autônoma do agente. Existem também critérios claros para aplicação da tecnologia. “A pergunta é: quero o agente para entregar qual serviço, qual experiência, qual produto? O que um agente resolve na jornada com cliente? E a partir dessa descoberta, com habilidades das pessoas, conhecimento técnico de cada um, incorpora agente no fluxo. Colocar humano no processo antes da entrega do serviço e produto para cliente. É menos sobre calibrar em mão única, mas mais contextualizado onde se aplica na organização”.
Mudança cultural
E quando falamos de contexto e aplicação organizacional, é impossível não falar de cultura organizacional. E o tema tem sido cada vez mais citado, não apenas por CEOS ou lideranças de RH, mas pelos próprios CIOs. Há um entendimento geral sobre isso. Ana Carla Guimarães, head de recrutamento de executivos da Robert Half, ressalta a existência da preocupação com a mudança, ainda que seja muito mais pelo medo de IA substituir pessoas.
Ana Carla afirma que as mudanças exigem mudanças das empresas e dos funcionários, seja na base, seja na liderança. “Há demanda forte pelas empresas de perfil mais orquestrador, aquele que consegue liderar time, extrair melhor das pessoas com senso crítico e fazer com que consigam, com impacto da IA, trazer ações e contribuir para rentabilidade do negócio.”
“Não é primeira onda que passamos, nos últimos 10 anos muita coisa aconteceu, cloud entrou de forma massiva, processos e ondas de transformação digital, no mercado financeiro, fica mais evidenciado. Vemos que é mais uma das ondas que passamos. Nesse processo o que difere, IA passa a fazer atividades mais lógicas, o assistente e o agente produzem o que era core da atividade do engenheiro, produz o código”, relata Mariana, mostrando que a mudança cultura é organizacional, mas também nos grupos e nas profissões.






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