
O tema soberania digital ganha cada vez mais força. Seja por impulso do governo em defesa de nuvem soberana e processamento e controle de dados localmente, seja por mais segurança às operações. Pensando do ponto de vista de negócio, uma operação que agregue diversos fornecedores faz sentido para reduzir dependência e se proteger em caso de falhas. O processamento local de pelo menos parte da operação também parece ser bom negócio, seja de custo, latência e privacidade de dados críticos. Mas o assunto ainda deve render muito debate.
No Febraban Tech deste ano o tema foi tratado e diferentes momentos. E não é algo ao acaso. Parte da modernização das plataformas dos bancos e de suas arquiteturas de dados passa pelo uso da computação em nuvem. Dados da pesquisa Febraban mostram que apenas neste ano as instituições financeiras vão investir R$ 3.9 bilhões em nuvem (pública e privada). E sendo um setor altamente regulado, o tópico preocupa.
Para André Palma, diretor de tecnologia do Itaú Unibanco, falar em nuvem no banco é sinônimo de multicloud. Para ele, a abordagem é estratégia, negócio e continuidade do sistema financeiro brasileiro. “Quando o regulador traz essa exigência é pensando na garantia de continuidade do sistema financeiro. O Itaú usa private cloud desde 2014 e aprendemos muita coisa. Quando o Banco Central autorizou nuvem pública, em 2018, iniciamos modernização. Mas multicloud é importante porque, em algum momento, pode ter falha do provedor; traz equilíbrio para serviços mais críticos.”
A superintendente nacional de serviços de tecnologia da Caixa Econômica Federal, Patrícia Cortez, concorda com a abordagem multiprovedor e ressalta que soberania não significa ter tudo dentro de casa. “A equação é desde definição de estratégia e arquitetura. Precisamos estar preocupados com essas questões por conta do portfolio de serviços que oferecemos para sociedade. Mas soberania não é ter tudo dentro do banco, precisamos contar com provedores globais, a partir deles acessos tecnologias que não conseguiria, aceleramos muitas coisas, mas temos de ter condições de executar serviços independente deles.”
Em casa, na nuvem
Mas se o discurso do multicloud é bonito e traz segurança para uso da nuvem pública, por outro lado, há uma complexidade em sua aplicação, em especial quando envolve instituições com plataformas complexas como a dos bancos. E é nesse ponto que Bruno Assaf, ISG country director da Dell Technologies, vê um espaço para novos formatos de on-premise. Na visão do executivo, uma operação multicloud é pouco trivial, por envolver diferentes aplicações e muitas conexões entre APIs.
“O que vemos é uma busca por um novo on premise. Antes era dentro de casa e data center próprio, mas cada vez mais tem pagamento por uso e coloca de forma adjacente as grandes nuvens, armazenado em data center parceiros”, avaliou Assaf. A escolha entre o que colocar em nuvem e o que usar em novos formatos de infraestrutura própria, em variáveis como as sugeridas pelo executivo, caminhará muito com a estratégia e necessidade das instituições.
A movimentação das empresas nesse sentido é vista não apenas por Bruno Assaf, Marcos Siqueira, CRO e head de estratégia da empresa de data centers Ascenty, afirma que observa essa busca por multicloud, mas também por soluções que permitam rodar parte das soluções em nuvem e parte onpremise. “O ambiente físico segue existindo de forma sustentável, o que muda é a necessidade dos clientes. Há busca do agente financeiro para que soluções físicas se conectem com resiliência e governança para o ambiente do multicloud. Há mudança no interesse de não só conectar com nuvens publicas, mas com menor latência possível e com todas as regras de governança”, confirmou.
No Itaú Unibanco, Palma deixa claro que a estratégia foca em modernização completa dos ambientes. A instituição entende que estratégia adotada com metodologia, design e processamento, traz diferencial competitivo futuro. O banco que conta com mais de 70 milhões de clientes, acredita em caminho fluído com nuvem pública. “Quando olhamos para sistemas legado, 70% já roda em nuvem e estratégia é seguir para extrair melhor benefício. Desde 2020 reduzimos 99% dos incidentes para clientes. Tivemos mais de 600 mil mudanças no ambiente produtivo com velocidade, novas funcionalidades, com IA; milhares já com o IAI. Essa transformação está pautada na melhor experiência para o cliente e na evolução do banco.”
Afinal, o que é soberania?
Mas se os bancos apostam em cloud pública e afirmam que ter parcerias com grandes provedores é necessário para seguir com a modernização em curso, como fica o discurso da soberania? O que ela é de fato para essas instituições? Para o Itaú, falar em soberania é trabalhar para garantir dados e informação do cliente disponível o tempo todo, para usar o serviço quando quiser.
Mas Palma adiciona um ponto que vale refletir sobre: a soberania de escolha de onde processar a informação. “Porque uma sanção pode complicar acesso a serviços e não é sobre parar o data center, se olharmos soberania de forma ampla, é parar nosso celular. Toda operação Itaú roda no Brasil, processa localmente e isso tem relação com o que entregamos”, resumiu. O executivo afirmam ainda que o tema tem amplitude grande o que leva muita gente a confundir, achando que é só dado, quando, na verdade, trata-se de controle e governança no que está disponível para usar em infraestrutura e tecnologia.
Siqueira, da Ascenty, entende que soberania é dar opção de escolha sobre onde quer armazenar e processas os dados. Hoje, no entanto, o executivo afirma não algo totalmente viável. “Hoje não damos possibilidade de escolher operar determinado serviço em território nacional, porque há funcionalidades disponíveis só lá fora. Se tudo tiver disponível, daremos opção da escolha.”
Nesse sentido, Patrícia, da Caixa, propõe um olhar diferente. Ela lembra que pensar soberania é pensar estratégia e arquitetura e como tudo vai funcionar ao longo da parceria com o provedor. “Mas ponto mais importante é controle, gestão e governança. Questão territorial é mito, é importante e relevante, mas não é determinante. Se a instituição não conhece o serviço, não tem condições de recuperação, não existe soberania.”






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