
A inteligência artificial vem ganhando cada vez mais espaço nas operações da indústria de consumo, mas transformar essa adoção em resultados financeiros ainda é um desafio. Embora as empresas ampliem o acesso às ferramentas e acelerem projetos, apenas 18% já identificam aumento de receita atribuído à tecnologia. O contraste mostra que investir em IA não significa, necessariamente, conseguir extrair valor dela.
Os dados são do estudo “State of AI in the Consumer Industry: The untapped edge”, da Deloitte, que também aponta uma aposta crescente em agentes autônomos, robótica e automação física, enquanto governança, infraestrutura e qualificação profissional continuam atrasando a transformação dos negócios.
Adoção cresce, mas resultados demoram
O acesso dos profissionais à IA dobrou em um ano, passando de menos de 30% para cerca de 60% da força de trabalho. Ainda assim, somente 25% dos funcionários que têm acesso à tecnologia a utilizam em mais de 60% da rotina profissional. Além disso, 75% das empresas esperam obter aumento de receita com IA no futuro, sinal de que boa parte do mercado ainda está tentando converter o investimento em retorno financeiro.
A transformação também ocorre em ritmos diferentes. Enquanto 35% das empresas já usam IA para mudar profundamente produtos, processos e modelos de negócio, 28% estão redesenhando processos importantes sem alterar sua estrutura comercial. Outros 37% mantêm aplicações pontuais, sem mudanças relevantes na forma de trabalhar.
Para Paulo de Tarso, sócio-líder para a indústria de Consumer da Deloitte, o desafio está em preparar as organizações para aproveitar a tecnologia. “A indústria de consumo está deixando de tratar a IA como experimento e começando a colocá-la no centro da operação, mas essa passagem exige mais do que ferramenta disponível. Governança, capacitação de times e uma infraestrutura de dados robusta são o que vai definir quem realmente converte esse avanço em resultado”, apontou em nota.
Robôs e automação ganham espaço
A indústria de consumo também se destaca na adoção de IA física, que combina percepção do ambiente, tomada de decisão e execução de ações por meio de robôs, máquinas e equipamentos automatizados. Atualmente, 65% das empresas do segmento já utilizam esse tipo de tecnologia em algum grau. A expectativa é que o índice chegue a 87% nos próximos dois anos, o maior entre os setores avaliados.
Entre as aplicações com maior impacto esperado estão o varejo conectado por dispositivos de Internet das Coisas (IoT), citado por 26% dos entrevistados, a logística autônoma (22%) e a robótica colaborativa (20%). Essas soluções se concentram principalmente em centros de distribuição, operações de fulfillment e lojas escuras, conhecidas como dark stores, usadas para separar pedidos sem atendimento presencial ao público.
O avanço, porém, esbarra em custos elevados, desenvolvimento mais demorado e exigências de segurança e regulamentação. A expansão para lojas físicas também traz desafios próprios, já que a interação com consumidores exige lidar com comportamentos menos previsíveis do que os encontrados em ambientes logísticos controlados.
Tarso destacou que “a indústria de consumo lida historicamente com grande volume, margens apertadas e uma cadeia logística complexa, o que ajuda a explicar por que a automação física avança tanto em centros de distribuição e operações de fulfillment. O próximo passo é levar parte dessa disciplina para a loja e para o contato direto com o cliente, onde o comportamento humano ainda impõe limites à automação”.
Agentes autônomos pressionam a governança
Outra frente de expansão é a IA agêntica, tecnologia que permite a sistemas executar tarefas em várias etapas e tomar decisões com determinado grau de autonomia. Hoje, 24% das empresas de consumo já utilizam agentes de IA de maneira moderada ou mais avançada. Em dois anos, a previsão é que 73% adotem essas soluções, incluindo aplicações extensivas e integrações aos processos.
O problema é que a estrutura de controle não acompanha a velocidade da adoção. Apenas 20% das organizações afirmam ter um modelo maduro de governança para agentes autônomos, enquanto 82% ainda não redesenharam cargos e funções para aproveitar plenamente a tecnologia.
A preocupação mais citada pelos executivos é a segurança e a privacidade dos dados, mencionada por 75% dos participantes. Também aparecem a confiabilidade, a consistência e a explicabilidade dos modelos (48%), a capacidade de supervisão e governança (47%) e a conformidade legal, regulatória e de propriedade intelectual (46%). Na indústria de consumo, decisões automatizadas podem afetar preços, promoções, estoques e comunicações com clientes, ampliando o impacto de eventuais falhas.
IA soberana ganha importância
A escolha dos fornecedores passa por critérios geográficos e regulatórios. Para 81% dos entrevistados, a IA soberana — desenvolvida ou operada sob as leis, a infraestrutura e as regras de governança de um país ou região — tem importância ao menos moderada no planejamento estratégico. Além disso, 78% levam em conta a origem da tecnologia ao selecionar fornecedores, e 53% priorizam empresas locais na composição de suas estruturas de IA.
A preferência reflete a preocupação com o controle de dados, a conformidade regulatória e a dependência de fornecedores externos. Para avançar, as empresas precisam combinar essas decisões com investimentos em infraestrutura e processos capazes de sustentar aplicações em escala.
“A indústria de consumo está diante de uma oportunidade concreta de repensar como opera, compete e cresce a partir da IA. Capturar esse potencial depende de investimento contínuo em infraestrutura e dados, de qualificação real dos times e de uma governança capaz de acompanhar a velocidade dos agentes autônomos. As empresas que avançarem nesses três pilares ao mesmo tempo tendem a se diferenciar da concorrência”, complementou Tarso.
Falta de qualificação limita a transformação
A preparação dos profissionais é outro ponto crítico. Para os líderes ouvidos pela Deloitte, a falta de habilidades na força de trabalho é a principal barreira à integração da IA. Embora 82% das empresas esperem automatizar atividades em até três anos, apenas 13% dos profissionais se dizem altamente entusiasmados com a tecnologia e procuram utilizá-la proativamente. Outros 56% estão abertos a explorá-la, enquanto 19% preferem não usar as ferramentas, mas aceitariam fazê-lo se fosse necessário.
As iniciativas de capacitação ainda se concentram em treinamentos e atualização de competências: 54% das empresas investem na preparação das equipes e 49% mantêm programas de aprimoramento ou requalificação profissional. Mudanças mais profundas, como redesenhar cargos e trajetórias de carreira, aparecem em 32% das organizações. Já 35% revisam os níveis de contratação de especialistas.
A reorganização das estruturas também avança lentamente. Mais da metade das empresas (54%) avalia modelos organizacionais com menos níveis hierárquicos e supervisão mais horizontal, mas somente 17% já implementaram essas mudanças de forma consistente. O levantamento reforça que ampliar o acesso à IA é apenas uma parte da transformação: sem rever processos, responsabilidades e competências, as empresas correm o risco de automatizar atividades sem mudar de fato seus resultados.
O estudo reúne 963 líderes de negócios e tecnologia, além de entrevistas qualitativas com 15 executivos e especialistas em IA e ciência de dados de grandes organizações globais.






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