
Quando ouvimos a palavra robótica, para muitos o que vem à mente são os braços mecânicos das montadoras de veículos. Sim, elas foram das primeiras indústrias a terem processos robotizados, mas máquinas autônomas, sensores e softwares inteligentes já começam a mudar processos em setores como agricultura, logística, varejo e até serviços financeiros.
Em um painel no Febraban Tech 2026, Carlos Bork, Superintendente de Projetos de Inovação da CNI, contou que a robótica está entrando em uma nova fase. Se as primeiras aplicações ficaram associadas às linhas de montagem, principalmente na indústria automotiva, a tecnologia agora começa a ocupar atividades mais variadas.
A tendência é ganhar espaço principalmente em tarefas de grande escala, alta produtividade ou que ofereçam riscos à saúde humana. Mineração e processos industriais com produção contínua são exemplos citados pelo executivo. A lógica é simples: quanto maior a necessidade de produtividade, qualidade e repetibilidade, maior tende a ser o espaço para máquinas automatizadas.
Bork também destacou que a expansão não deve ficar restrita às grandes indústrias. Um dos desafios brasileiros é fazer com que tecnologias robóticas também cheguem às pequenas e médias empresas. Para isso, será necessário combinar investimento em infraestrutura, pesquisa, desenvolvimento e formação profissional.
A experiência chinesa mostra o impacto que uma política industrial articulada pode ter. O país avançou na produção industrial e passou a desenvolver conhecimento próprio a partir de processos de fabricação que inicialmente eram realizados para empresas de outros países. Para Bork, o Brasil precisa fortalecer sua estratégia de reindustrialização e criar condições para que empresas, governo e instituições de pesquisa atuem de forma coordenada.
O robô evoluiu, mas o humano ficou
A indústria automotiva é um dos melhores exemplos dessa transformação. Cristina Cestari, CIO SAM da Volkswagen, lembrou que as montadoras passaram por uma forte onda de robotização nas décadas de 1980 e 1990. Na época, os robôs assumiam principalmente tarefas que exigiam esforço físico intenso.
Hoje, a tecnologia é bem mais sofisticada. Sensores acompanham praticamente cada etapa do processo produtivo e ajudam a aumentar segurança, qualidade e eficiência. Um exemplo está na identificação de ruídos em componentes, que antes dependia da audição de um trabalhador e agora pode ser detectado automaticamente pela máquina em praticamente todos os componentes.
Isso não significa, porém, que o trabalhador desapareceu da linha de produção. Segundo Cristina, o humano continua sendo fundamental para lidar com exceções. Uma fábrica pode automatizar uma enorme quantidade de tarefas, mas ainda precisa de pessoas capazes de interpretar situações que fogem do padrão e tomar decisões rapidamente.
A produção de um automóvel ajuda a entender a complexidade desse processo. Um carro reúne entre 20 mil e 25 mil peças, e uma falha em uma etapa pode comprometer toda a cadeia. Por isso, mesmo em fábricas altamente automatizadas, profissionais continuam acompanhando os processos.
Um dos maiores ganhos da robotização, para Cristina, também está nos dados gerados pelas máquinas. Eles permitem entender melhor o processo produtivo e tomar decisões com mais precisão. O robô, portanto, é apenas uma parte de um ecossistema que envolve software, sensores, dados e pessoas.
Humanoides ainda precisam provar seu valor
A discussão sobre robôs humanoides também apareceu no painel. Diretora do Instituto de Estudos Avançados da USP, Roseli de Deus Lopes apontou que a tecnologia necessária para construir uma máquina com características humanas já existe. O problema está em transformar esse tipo de equipamento em uma solução viável para uso em larga escala.
Nem sempre um robô precisa ter formato humano, ele precisa realizar a tarefa para a qual foi concebido de forma eficiente. Para Roseli, aplicações prioritárias são aquelas que substituem pessoas em tarefas de risco ou que envolvem atividades pouco atrativas e de baixa remuneração.
O custo é outro obstáculo. Robôs avançados exigem investimentos elevados em hardware, software e capacidade de processamento. Por isso, modelos de negócio baseados em serviço podem ganhar força. Em vez de comprar uma máquina, empresas menores poderiam contratar sua utilização, de forma semelhante ao que ocorreu com outras tecnologias.
A mudança também pode afetar o mercado de trabalho. O medo de perder empregos para máquinas é uma preocupação real, mas Roseli defendeu que a resposta passa pela requalificação. A tendência é que pessoas deixem tarefas repetitivas e assumam funções ligadas à criatividade, gestão, supervisão e resolução de problemas.
Banco do Brasil acompanha a evolução
No setor financeiro, a discussão sobre robótica passa por uma pergunta diferente: quando determinada tecnologia estará madura o suficiente para gerar valor? Igor Regis da Silva Simões, Especialista em Tecnologias Emergentes do Banco do Brasil, explicou que o banco mantém um acompanhamento contínuo de tecnologias emergentes. A instituição mapeia tendências para entender o estágio de desenvolvimento de cada solução e avaliar quando ela pode produzir impactos relevantes nos diferentes setores da economia.
O banco também testa uma aplicação aplicações prática em Recife (PE), onde um robô foi utilizado para receber clientes e conduzi-los até o atendimento. O objetivo é observar as capacidades da tecnologia e entender como ela pode ser aplicada em situações reais.
A robótica também pode criar novas oportunidades para o crédito, pois robôs utilizados por empresas podem ser tratados como bens de capital, com características diferentes de um bem de consumo. Isso abre espaço para linhas de financiamento destinadas à aquisição desses equipamentos. O Finame foi um exemplo de linha de crédito que abrange os robôs.
Mas financiar a compra é apenas uma parte do problema. Uma operação robotizada precisa de manutenção, atualização de software e suporte técnico para continuar funcionando. Simões defendeu que o ecossistema criado em torno do equipamento pode ser tão importante quanto a máquina em si.
Robô também será software
Outro ponto levantado por Simões é a mudança na forma de avaliar esses ativos. Um equipamento robótico sem inteligência embarcada pode perder valor mais rapidamente. Já uma máquina que recebe atualizações de software pode ganhar novas capacidades ao longo de sua vida útil.
A lógica aproxima a robótica do mercado de tecnologia. O hardware continua importante, mas o software passa a determinar parte relevante do valor do equipamento.
Essa combinação também explica por que a robótica pode se aproximar cada vez mais da inteligência artificial. A máquina deixa de apenas executar movimentos programados e passa a interpretar dados, adaptar comportamentos e tomar decisões dentro de determinados limites.
Formação será decisiva
A expansão da robótica no Brasil depende de mais do que comprar máquinas. Será necessário formar profissionais capazes de desenvolver, operar, manter e atualizar essas tecnologias.
Roseli defendeu uma articulação maior entre governo, empresas e academia. O Brasil possui bons cursos de engenharia, mas precisa aumentar a atração por essas carreiras e fortalecer também a formação técnica.
A necessidade não está apenas em formar especialistas altamente qualificados. A indústria precisará de profissionais em diferentes níveis, com atualização contínua. Cursos técnicos e programas de requalificação terão papel importante para acompanhar a velocidade das mudanças.
Quando o robô vira negócio
A adoção da robótica também dependerá do modelo econômico escolhido. Para pequenas empresas, principalmente em um país de dimensões continentais como o Brasil, contratar o serviço de um robô pode fazer mais sentido do que comprar o equipamento.
O mesmo raciocínio vale para empresas que não possuem estrutura para manter uma equipe especializada. A robotização como serviço pode reduzir a barreira inicial e acelerar a chegada da tecnologia a negócios menores.
No fim, a questão não é apenas saber se os robôs vão chegar. Eles já chegaram a diferentes setores. A questão é entender onde a tecnologia realmente resolve um problema, quanto custa e qual valor consegue gerar.
Robôs autônomos já fazem parte de operações industriais, agrícolas e logísticas. Os humanoides, por outro lado, ainda precisam provar que oferecem uma relação custo-benefício capaz de justificar sua adoção em larga escala.






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