
A inteligência artificial já ocupa um espaço na rotina de trabalho, estudo e consumo digital. Mas, à medida que a tecnologia avança, cresce também a percepção de riscos entre os usuários mais familiarizados com essas ferramentas. É o que revela o “Monitor de Inteligência Artificial 2026”, da Ipsos, que identifica uma combinação de alta adoção, expectativa de transformação e aumento das preocupações entre pessoas com menos de 35 anos.
O levantamento, realizado em 32 países, mostra que os jovens são o grupo etário mais propenso a sentir emoções contraditórias em relação à IA. Globalmente, 52% afirmam que produtos e serviços baseados nessa tecnologia os deixam nervosos, enquanto 56% dizem estar entusiasmados com seu potencial. No Brasil, 44% dos entrevistados com menos de 35 anos relatam sentir nervosismo diante dessas soluções.
A expectativa de impacto também é elevada. Entre os brasileiros dessa faixa etária, 60% acreditam que a inteligência artificial provocará mudanças profundas em seu cotidiano nos próximos três a cinco anos. A média global chega a 69%, indicando uma percepção disseminada de que a tecnologia deve alterar rotinas pessoais e profissionais em curto prazo.
Adoção intensa com percepção de risco
Os dados apontam ainda uma relação pragmática com a IA. Em nível global, 66% dos entrevistados com menos de 35 anos afirmam não confiar plenamente nas ferramentas, mas continuam utilizando-as. No Brasil, esse percentual é de 39%. A pesquisa sugere que a utilidade prática da tecnologia tem superado parte das dúvidas relacionadas à sua confiabilidade.
As preocupações se estendem também ao mercado de trabalho. Os mais jovens aparecem como o grupo que mais acredita na possibilidade de substituição de empregos por sistemas de inteligência artificial nos próximos cinco anos. Ao mesmo tempo, são os principais beneficiários dos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia. Na média dos países analisados, 40% das pessoas com menos de 35 anos afirmam ter economizado tempo no trabalho com o uso de IA ao longo do último ano. Entre aqueles de 50 a 74 anos, o índice é de 13%.
A percepção sobre os impactos sociais da tecnologia chama a atenção. No Brasil, 42% dos entrevistados mais jovens acreditam que a expansão da IA contribuirá para o aumento da desinformação na internet, percentual idêntico à média global. O resultado reflete um cenário em que os benefícios associados à automação convivem com preocupações relacionadas à qualidade da informação e à confiança nos ambientes digitais.
Os jovens estão mais críticos
Segundo Luciana Obniski, Líder de Curadoria e Tendências na Ipsos no Brasil, os resultados indicam uma mudança relevante na forma como os jovens avaliam a tecnologia. Ela pontuou em nota que “tanto no AI Monitor quanto no Ipsos Global Trends, identificamos que as faixas etárias mais jovens estão mais nervosas, menos entusiasmadas e mais propensas a concordar que a tecnologia está destruindo o mundo. Como os jovens são tipicamente os primeiros a adotar novas tecnologias e são usuários e apoiadores assíduos desses recursos, essa mudança pode representar dificuldades no longo prazo para as empresas do setor”.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a confiança na proteção de dados pessoais. Entre os brasileiros com menos de 35 anos, apenas 50% acreditam que empresas que utilizam inteligência artificial serão capazes de proteger adequadamente suas informações. Trata-se do menor nível de confiança registrado entre todas as faixas etárias analisadas no país. Globalmente, o índice é ainda menor, de 42%.
Os resultados reforçam um movimento observado em diferentes mercados: a consolidação da inteligência artificial como ferramenta amplamente utilizada não elimina questionamentos sobre segurança, privacidade, transparência e impactos econômicos. Pelo contrário. À medida que a tecnologia se torna mais presente no cotidiano, cresce a demanda por mecanismos de governança e uso responsável capazes de sustentar a confiança dos usuários.
O estudo ouviu 23.532 adultos em 32 países. No Brasil, a amostra foi composta por aproximadamente 1.000 entrevistados. Os dados foram ponderados para refletir a composição demográfica da população adulta de cada país.






Sem comentários registrados