Rogério Carballo, André Cassias, Carlos Pedrotti e Ana Cláudia Pinto durante o 4º CBMG

O papel da telemedicina na transformação da assistência em saúde vai muito além da realização de consultas por vídeo. Essa foi uma das discussões durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral. Especialistas de diferentes áreas defenderam que o sucesso da saúde digital depende da integração entre atenção primária, especialistas e hospitais, com foco na jornada completa do paciente.

Em comum, os participantes destacaram que a tecnologia já está disponível e consolidada. Os principais desafios agora envolvem cultura organizacional, engajamento dos pacientes, modelos de financiamento e desenho adequado dos processos assistenciais.

Ao abordar a experiência da saúde suplementar, André Cassias, Gerente Médico de cuidados integrados da saúde digital Grupo Fleury, destacou que a atenção primária depende cada vez mais da capacidade de identificar riscos antes que eles se transformem em eventos clínicos mais complexos. Segundo ele, a construção dessa visão populacional passa pelo uso integrado de diferentes fontes de informação. Dados laboratoriais, histórico de utilização dos serviços de saúde, registros de prontuários eletrônicos e informações geradas por dispositivos conectados formam uma base capaz de apoiar estratégias preventivas e ações personalizadas.

A inteligência artificial surge como ferramenta para qualificar esse processo, especialmente na organização e refinamento dos dados clínicos registrados nos prontuários. O avanço dos wearables também abre novas possibilidades para monitoramento contínuo de indicadores de saúde, como atividade física e frequência cardíaca.

Para Cassias, um dos maiores desafios está em alcançar justamente as pessoas que não costumam buscar cuidados preventivos. A telemedicina passa a funcionar como um mecanismo de aproximação entre profissionais de saúde e pacientes, reduzindo barreiras de acesso e fortalecendo o acompanhamento longitudinal. “A telemedicina permitiu de novo a atenção primária ser a porta de entrada”. Ele ressaltou ainda que o atendimento remoto permite manter o vínculo com o paciente mesmo durante viagens ou deslocamentos, reforçando o conceito de um médico ou equipe de referência responsável pelo acompanhamento contínuo da saúde.

Telemedicina resolve acesso, mas não substitui organização do sistema

Na visão de Carlos Pedrotti, Gerente Médico do Centro de Telemedicina do Hospital Albert Einstein, a efetividade da telemedicina depende diretamente da forma como ela é inserida na estrutura assistencial. Os sistemas de saúde funcionam melhor quando a atenção primária atua como porta de entrada e coordenadora do cuidado. Para isso, o acesso aos serviços básicos precisa ser simples e conveniente para a população.

A principal contribuição da telemedicina, segundo Pedrotti, está na solução de desafios logísticos relacionados a distância, tempo e disponibilidade de profissionais. “Telemedicina é uma solução logística. Ponto”, frisou.

O médico alertou que modelos que oferecem acesso direto e irrestrito a especialistas tendem a reduzir a resolutividade clínica. Sem exames prévios, histórico estruturado ou avaliação inicial adequada, o atendimento pode gerar excesso de solicitações de exames e perda de eficiência assistencial. Por outro lado, experiências de teleinterconsulta têm apresentado resultados positivos. Nesse modelo, o médico da atenção primária participa da consulta com o especialista e permanece como responsável pelo paciente. O especialista atua como consultor, fortalecendo a capacidade resolutiva da rede.

Pedrotti citou programas em operação na região Norte do país, onde a escassez de especialistas é histórica. A estratégia permite conectar profissionais de referência localizados em outras regiões do Brasil a municípios com baixa oferta de atendimento especializado. Segundo ele, áreas como endocrinologia, cardiologia, neurologia, infectologia e pneumologia apresentam bons resultados nesse formato, especialmente quando o objetivo é superar barreiras geográficas e reduzir desigualdades de acesso.

Hospitais usam telessaúde para acompanhar pacientes complexos

O Gerente Médico de desenvolvimento institucional do Hospital Infantil Sabará, Rogério Carballo, apresentou a experiência da instituição no acompanhamento de crianças com doenças crônicas complexas. De acordo com o executivo, embora representem apenas cerca de 1% da população pediátrica, esses pacientes concentram entre 40% e 50% dos gastos da saúde infantil. Isso exige modelos assistenciais capazes de garantir acompanhamento contínuo e evitar internações e atendimentos de emergência desnecessários.

A estratégia adotada pelo hospital utiliza telemedicina desde a fase de triagem até o monitoramento clínico. O processo permite avaliar previamente os casos encaminhados, evitando deslocamentos desnecessários e direcionando os pacientes para os serviços mais adequados. “Presencial quando necessário e à distância sempre que possível”, pontuou.

Segundo Carballo, a combinação entre consultas presenciais, telemonitoramento e teleinterconsultas possibilita atender pacientes de diferentes regiões do país sem comprometer a qualidade assistencial. O modelo também deixa mais forte o papel da enfermagem na coordenação da jornada de cuidado, enquanto médicos especialistas atuam conforme a necessidade clínica de cada paciente.

Barreiras são mais culturais do que tecnológicas

Apesar dos avanços, os palestrantes concordaram que a principal barreira para a expansão da telemedicina não está na tecnologia. No ambiente corporativo, Cassias apontou resistência cultural de pacientes acostumados a buscar diretamente especialistas ou serviços de urgência. O letramento digital também continua sendo um desafio relevante, especialmente entre populações com menor familiaridade tecnológica.

Já Pedrotti destacou que muitos projetos falham por priorizar a ferramenta em vez da jornada assistencial. Para ele, a telemedicina exige processos bem estruturados, integração de informações e coordenação clínica para funcionar em larga escala.

No ambiente hospitalar, Rogério Carballo chamou atenção para os desafios de financiamento. Segundo ele, muitos modelos de acompanhamento remoto ainda não recebem cobertura adequada das operadoras de saúde, mesmo quando reduzem deslocamentos, internações e atendimentos presenciais.

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