
Desde as primeiras discussões sobre digitalização, automação de processos e, posteriormente, inteligência artificial, a preocupação sobre empregabilidade recaía muito sobre quem tinha menos escolaridade. Mas o fato é que IA tem mexido muito com trabalhos intelectuais, colocando nesse grupo profissionais que ocupam posições antes vistas como praticamente fora de risco. Nesta lista estão os desenvolvedores. Se no início a IA ajudava esse profissional com funções de autocompletar, por exemplo, hoje elas entregam aplicações prontas (e aqui sem julgar a qualidade da entrega final), o que tem feito muita gente questionar o futuro dessa função.
Com esse avanço, como fica o papel de um desenvolvedor de software? Ela perde importância? Na visão de Nelly Andrade, líder de relacionamento com desenvolvedores da AWS Latam, essas perguntas talvez não fossem tão necessárias assim. Não porque não importa discutir o cenário, mas sim por entender que esse trabalho ganha novos contornos e seguirá muito importante.
Para ela, no entanto, manter-se relevante, seja para um profissional em início de carreira ou mais experiente, demandará o que ela chama de fluência em inteligência artificial. “Se tornar proficiente nessa tecnologia vai ajudar muito a se manter competitivo. Mas o que é isso? São coisas relativamente simples, desde fazer prompt corretos, pedir o que você quer que a IA construa ou criar arquivos de contextos necessários para que a IA crie um aplicativo com as melhores práticas. Ficar proficiente em IA vai marcar a diferença entre fazer direito ou pedir de forma simples e esperar algo bom”, explica.
Habilidades diversas
Parafraseando o CEO da companhia, Nelly avalia que é um momento de renascimento da carreira do desenvolvedor, lembrando que vivemos uma era onde ter e exercitar habilidades diversas fará a diferença. Assim como Leonardo Da Vinci não era apenas pintor, mas também arquiteto, por exemplo, o desenvolvedor precisará mostrar outras habilidades.
“Agora, não é importante apenas dominar os fundamentos do código. Para o futuro, esse profissional deverá ser polímata (indivíduo com conhecimento profundo e multidisciplinar). Sua criatividade, seus fundamentos e seu pensamento crítico se tornam seus principais ativos para competitividade”, detalha a executiva.
Não é de hoje que se discute investir em habilidades diversas, sobretudo, aquelas chamadas de soft skills ou habilidades humanas. O avanço da IA parece tornar essa necessidade ainda mais latente, já que interagir com essas plataformas demanda fazer boas perguntas, ter olhar crítico e capacidade de refinar as respostas trazidas pela máquina. Não à toa, pesquisas sobre habilidades futuras realizadas por consultorias e até pelo Fórum Econômico Mundial ressaltam esse tipo de capacidade.
No caso dos desenvolvedores, é sabido que usar IA acelera criação e facilita o processo de codificação. Mas esse processo também traz responsabilidade, já que esse profissional precisa ter a capacidade de validar aquilo que foi criado pela plataforma de inteligência artificial. E aqui reside um perigo. Os profissionais precisam ser treinados para isso. Enquanto desenvolvedores experientes conseguem tratar desse tema mais rapidamente, há preocupação com profissionais em início de carreira que, eventualmente, ainda não possuem conhecimento e/ou malícia necessária para, por exemplo, identificar uma falha no código. Esse erro pode ser exatamente o que vai comprometer o bom funcionamento do software.
“Os fundamentos serão mais importantes do que nunca, porque trabalhar com IA é validar os resultados que ela te dá. A IA amplia quem você é. Então, se tem fundamentos sólidos, curiosidade, critérios de análise, ela te multiplica. E isso é importante porque elas produzem resultados que parecem perfeitos, mas não são. Ela não te torna melhor ou pior, mas amplia suas capacidades”, resume Nelly.
Preocupação com profissionais juniores
Mesmo entendendo que pode haver um gap entre desenvolvedores em início de carreira e os mais experientes, a executiva afirma que tem se surpreendido com a familiaridade com que os mais jovens utilizam IA. Ela afirma que muitas vezes eles nem conhecem outra forma de aprender ou trabalhar. Nessa jornada de relacionamento com a comunidade de programadores na América Latina, Nelly Andrade diz que a mensagem chave que ela leva, especialmente para estudantes, é não perder a curiosidade. Além disso, ela reforça a importância de trabalhar problemas reais.
“Sempre damos essa dica, se está começando e não tem um trabalho, crie um portfólio virtual, cria um projeto dentro de uma problemática mesmo que seja algo para sua família e leve até o final, até a crianção do protótipo”, reforça Nelly, para completar: “a IA, independentemente da experiência, criou nível maior de acesos e velocidade, se é startup ou estudante e quer criar projeto e ter um MVP (produto mínimo viável), com IA você consegue. Talvez, não seja o que vai para produção, mas te dá o início.”
A preocupação com profissionais juniores tem dois lados: a pouca experiência que muitas vezes prejudica a validação do que a IA faz, então, precisa de supervisão e treinamento; e a possibilidade de redução de vagas para que esses profissionais aprendam e se desenvolvam com problemas reais. São muitas as notícias de empresas que reduziram vagas de estágio, analistas, assistentes substituindo por IA. No longo prazo, isso tende a ser um péssimo negócio.
No caso da AWS, Nelly afirma que deixar de ter essas pessoas em início de carreira não é uma opção. A executiva explica que, para vagas técnicas, o processo passa, obviamente, por conhecimento de algoritmo, estrutura de dados, independentemente da linguagem de programação que a pessoa conheça, porque essa base ajuda a ter vantagem no uso da IA. Depois vem a parte da entrevista, onde avaliam características comportamentais e habilidades de liderança, como pensar grande, comunicação, criação de narrativas, pensamento crítico.
“Nosso CEO, inclusive, comentou em entrevista recente que trocar esse pessoal (em início de carreira) por tecnologia é uma decisão ruim de negócio. Profissionais em início de carreira trazem energia, tem familiaridade com IA. Pessoas mais novas muitas vezes são mais abertas a experimentar, mas tudo precisa ser validado e conectado com as demais ferramentas”, pontuou.
Capacitação e certificação
Olhando para dinâmica de mercado e formas de adquirir essa fluência, Nelly recorre aos treinamentos e certificações das fabricantes. No caso da AWS, há um programa aberto para certificar 200 mil estudantes na América Latina até o final de 2026. Essas certificações são cobradas em dólares e podem custar até US$ 300. A empresa oferece também treinamentos por meio do AWS Treina Brasil e do AWS Skill Builder. Tem uma série de treinamentos e conteúdos gratuitos que permitem pessoas com diferentes graus de conhecimento avançarem nesse mundo cada vez mais dominado por inteligência artificial.
Outra forma de adquirir conhecimento é interagir com as comunidades de desenvolvedores e a América Latina é a região com essa comunidade mais cresce. Em 2026, foram contabilizados 2,5 milhões de programadores na região, sendo o Brasil com maior volume: 650 mil, seguido por México e Argentina. Até 2024, lembrou a executiva, era também a região com o maior porcentual de mulheres nessa comunidade.
“É um sinal de vontade e crescimento para toda região. Vejo na comunidade da AWS muitos desenvolvedores que gostam de criar conteúdo em nuvem, organizar eventos ou que gostam de programas de alto impacto. Nossa comunidade tem crescido e é uma das mais engajadas do mundo. Nosso maior grupo de usuários está na cidade de São Paulo”, detalhou.






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