Painel do Febraban Tech 2026.

A bioeconomia pode representar uma das próximas grandes ondas de inovação do Brasil, conforme discutido durante um painel no Febraban Tech 2026. O debate reuniu representantes da indústria, do setor financeiro e de venture capital para abordar como transformar biodiversidade, biotecnologia e ciência em negócios escaláveis.

A discussão mostrou que o desafio não está apenas em encontrar dinheiro para novos projetos. É preciso criar uma estrutura capaz de conectar pesquisa, empreendedores, indústria, bancos, investidores e políticas públicas. O Brasil tem ativos naturais, conhecimento científico e um mercado potencialmente enorme, o problema é fazer essas peças funcionarem juntas.

Jean Rodrigues Benevides, Diretor-executivo de Sustentabilidade e Cidadania da Caixa, aposta em uma mudança na forma como instituições financeiras avaliam negócios ligados à bioeconomia, pois não tem como aplicar os mesmos critérios usados em empresas tradicionais. Os bancos precisam considerar fatores como o território onde o negócio está instalado, a disponibilidade e regeneração dos ativos biológicos, a organização da cadeia produtiva, a existência de compradores e os impactos sociais e ambientais.

A questão das garantias também pesa. Muitos empreendimentos ainda estão em estágios iniciais e não possuem ativos suficientes para oferecer como garantia. Por isso, instrumentos como capital paciente, fundos garantidores, blended finance e políticas públicas podem ajudar a dividir o risco. Para Benevides, financiar apenas uma etapa da cadeia pode simplesmente deslocar o problema para o elo seguinte. Um produtor pode ter acesso ao crédito, por exemplo, mas continuar sem assistência técnica, beneficiamento, logística, certificação ou compradores.

A proposta da Caixa é trabalhar com uma visão de ecossistema. O crédito continua importante, mas precisa estar conectado a outros instrumentos e serviços para que o negócio consiga crescer.

Existe um buraco entre o pequeno e o grande capital

Um dos dados apresentados por Benevides ajuda a dimensionar o desafio. O projeto Teia da Sociobiodiversidade, apoiado com recursos não reembolsáveis do fundo socioambiental da Caixa, recebeu 3.860 propostas e selecionou 405 projetos nos seis biomas brasileiros. As iniciativas beneficiaram diretamente cerca de 384 mil pessoas e indiretamente outras 2 milhões. A experiência também revelou um problema de acesso ao capital.

Segundo o diretor, existe uma faixa entre aproximadamente R$ 100 mil e R$ 5 milhões que acaba pouco atendida pelos instrumentos disponíveis. De um lado, há recursos não reembolsáveis e microcrédito. Do outro, aparecem instrumentos mais sofisticados, como o mercado de capitais e investimentos em equity. No meio, muitos negócios podem ficar sem recursos justamente quando precisam investir para crescer.

A saída passa por ampliar as informações utilizadas na análise de risco. Contratos de compra, participação em cooperativas, integração a cadeias produtivas e rastreabilidade podem ajudar a demonstrar a capacidade de um empreendimento, mesmo quando seu histórico bancário é limitado.

O desafio do scale-up

Para Carolina Alcoforado, Diretora-executiva de Gestão e Novos Negócios da Melhoramentos, a dificuldade aparece com força quando uma tecnologia precisa sair do piloto e chegar ao mercado. Ela citou a experiência da Melhoramentos no desenvolvimento de novos materiais sustentáveis. A empresa investiu em pesquisa, pilotos e validação tecnológica antes de avançar para a produção comercial. O processo contou com instrumentos como a Lei do Bem, editais e financiamento da Finep.

A executiva também destacou o papel das conexões comerciais. Bancos e grandes empresas podem ajudar startups a encontrar potenciais compradores e validar aplicações para suas tecnologias. Essa ponte pode fazer diferença para empresas pequenas que têm uma solução promissora, mas ainda não conseguem provar que existe demanda suficiente para justificar um investimento maior.

Segundo Carolina, a experiência da Melhoramentos mostra que inovação não termina quando a tecnologia funciona, deve-se encontrar uma rota comercial para transformar pesquisa em produto.

Investidor vê a bioeconomia como oportunidade

Já Renato Marques Ramalho, CEO da KPTL Venture Capital, apresentou uma visão mais otimista sobre o estágio atual do mercado, apontando que a bioeconomia não deveria ser tratada apenas como um setor imaturo e cheio de riscos. Na visão dele, justamente o grande número de oportunidades ainda não exploradas torna o segmento interessante para investidores.

A KPTL já trabalha com mecanismos de dívida catalítica e equity voltados à bioeconomia, iniciativa que está avançando para um volume de aproximadamente R$ 200 milhões, com mais de um terço desse montante em dívida catalítica.

Para Ramalho, a Amazônia tem um ecossistema empreendedor que cresce rapidamente. Um levantamento realizado pela KPTL passou de cerca de 150 startups e empreendedores de base tecnológica em 2020 para 2.200 no ano passado.

O crescimento, segundo ele, supera curvas observadas em outros setores tradicionais de inovação, mas o ecossistema ainda precisa amadurecer. Muitos empreendedores não sabem qual instrumento financeiro faz sentido para cada fase do negócio, enquanto parte da pesquisa acadêmica ainda encontra dificuldade para chegar à economia real.

Ciência, indústria e capital precisam conversar

A falta de coordenação apareceu como um dos principais pontos de convergência durante o painel. Ramalho defendeu uma maior articulação entre governos, universidades, centros de pesquisa, investidores e empresas para direcionar ciência e capital para os desafios e vantagens competitivas de cada território.

Por sua vez, Carolina também cobrou uma participação maior da indústria, pois empresas precisam manter projetos de inovação ativos e criar demanda para novas tecnologias, em vez de abandonar iniciativas promissoras para voltar exclusivamente aos negócios tradicionais. O argumento vale especialmente para tecnologias que precisam de tempo para amadurecer. Sem uma empresa disposta a testar, comprar ou incorporar uma solução, uma startup pode ficar presa entre a pesquisa e a comercialização.

Ramalho avaliou que a disponibilidade de capital para a agenda climática e de bioeconomia aumentou, contudo o desafio passa a ser mostrar que esse dinheiro pode gerar negócios competitivos e retorno econômico. Ele citou o ECO Invest como exemplo dessa mudança. Na visão do executivo, o Brasil precisa transformar os recursos disponíveis em empresas e projetos capazes de gerar riqueza em diferentes biomas e cadeias produtivas.

Brasil pode repetir a trajetória do agronegócio

A comparação com o agronegócio apareceu como uma aposta para o futuro da bioeconomia brasileira. Ramalho lembrou que o país também precisou combinar ciência, empreendedorismo, tecnologia e disponibilidade geográfica para transformar o agro em um dos principais pontos econômicos nacionais. A bioeconomia pode seguir uma trajetória semelhante, com a diferença que agora o Brasil parte de uma posição privilegiada em biodiversidade e conhecimento científico relacionado a biotecnologia.

Na finalização, Benevides destacou que o sucesso da bioeconomia não deveria ser medido apenas pelo volume de dinheiro investido. A meta deve ser construir cadeias que agreguem valor e tecnologia, gerem empregos e façam com que parte relevante da riqueza permaneça com as comunidades, ao mesmo tempo em que a biodiversidade seja preservada.

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