
Desde o início do hype recente da IA generativa, ouvimos previsões de que profissões inteiras, especialmente na programação, desapareceriam rapidamente. Mas a história da tecnologia, a economia e a ciência dos sistemas sugerem um cenário bem mais complexo.
Minha percepção é que a IA está automatizando tarefas muito mais rapidamente do que está automatizando profissões. E isso acontece por diversos motivos.
1. O gargalo não desaparece. Ele muda de lugar.
Um emprego raramente consiste em uma única atividade. Ele é formado por um conjunto de tarefas interdependentes. Na programação, por exemplo, a IA pode gerar código muito mais rápido do que um ser humano. Mas o desenvolvimento de software não se resume a escrever código. Continuam existindo atividades como entendimento de requisitos, arquitetura, integração, testes, segurança, governança, manutenção e gestão de dívida técnica. O gargalo simplesmente se desloca.
2. Existe o problema da última milha.
Demonstrar uma IA funcionando em um ambiente controlado é relativamente simples. O desafio começa quando ela encontra o mundo real. O mundo real é repleto de exceções, ambiguidades, comportamentos inesperados e contextos que raramente aparecem nos dados de treinamento. Isso ajuda a explicar por que veículos autônomos apresentam desempenho impressionante em situações rotineiras, mas continuam enfrentando desafios relevantes diante de eventos raros e imprevisíveis. Adaptar sistemas de IA às particularidades de cada organização continua sendo uma das tarefas mais difíceis da atualidade.
3. Automatizar não é a mesma coisa que resolver um problema.
Uma tecnologia só gera valor quando resolve uma necessidade real. Em muitos casos, a automação apenas acelera um processo que já era mal concebido. Em outros, remove justamente os elementos humanos que geravam confiança, empatia ou capacidade de julgamento. Nem todo problema empresarial é um problema de eficiência operacional.
4. A redução de custos frequentemente expande a demanda.
Historicamente, quando uma tecnologia reduz o custo de um serviço, ela tende a ampliar seu mercado. Isso aconteceu com transporte, telecomunicações, computação e diversos outros setores. Não é uma regra universal, mas frequentemente a queda de custos cria novos mercados, novos consumidores e novas oportunidades de trabalho, ainda que as funções desempenhadas mudem ao longo do tempo.
5. A transformação depende de infraestrutura.
A eletricidade foi inventada no século XIX, mas levou décadas para transformar a indústria. Não bastava trocar uma tecnologia por outra. Foi necessário redesenhar fábricas, treinar profissionais, criar padrões, regulamentações e novas formas de organização. Com a IA estamos enfrentando desafios semelhantes. Existem limitações de infraestrutura computacional e energética, além da necessidade de novos modelos de governança, regulação, educação e gestão de riscos.
Por isso, mesmo que ocorram reduções de equipes em alguns setores, isso não significa que a IA tenha substituído integralmente profissões. O mais provável é que estejamos assistindo a uma reconfiguração do trabalho, e não à sua eliminação completa. A automação funciona muito bem para tarefas específicas.
Profissões, porém, são sistemas complexos compostos por conhecimento técnico, contexto, responsabilidade, coordenação humana e tomada de decisão. E sistemas complexos raramente desaparecem tão rápido quanto os ciclos de hype costumam prever.
*Cezar Taurion é advisor de IA com mais de 4 décadas de experiência no mercado de TI. Investidor e mentor de startups de IA e membro do conselho de inovação de diversas empresas e associações. Foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil, sócio-diretor e líder da prática de IT Strategy da PwC, além de passar por Shell e Chase Manhattan Bank. Escreve sobre TI em publicações especializadas e apresenta palestras em eventos e conferências. É autor de 14 livros e e-books. Membro notável do I2AI. Professor convidado da FDC, da PUC-RJ e PUC-RS, nas cadeiras de MBA “IA aplicada aos negócios” e “Transformação Digital”. Publisher da Intelligent Automation Magazine. Top Voice Linkedin.






Sem comentários registrados