
O que parecia ser uma tendência que demoraria a pegar, como já vimos em muitos casos na indústria de tecnologia, os AI PCs ganham cada vez mais força. Dados da IDC apontam que os embarques de equipamentos dotados de NPU, ou unidade de processamento neural, voltada para o processamento de IA generativa localmente, deve chegar a 60% do total de computadores vendidos já em 2027. Executivos da indústria de tecnologia acreditam que em 4 anos todos os laptops já sairão de fábrica como AI PC. Mas o que isso muda na prática? Se você for trocar os equipamentos de sua empresa hoje, vale a pena investir nessas máquinas?
O Coletivo Tech conversou com executivos de Acer, Dell Technologies, Lenovo e Positivo Tecnologia para entender o posicionamento deles, seja sobre o momento certo de investir nesses dispositivos, os benefícios reais que essas máquinas trazem para o dia a dia corporativo e alguns exemplos de uso. Há diferentes formas de encarar os AI PCs em sua estratégia corporativa, seja pelo custo, pela janela de atualização do parque ou mesmo pelos planos de IA da sua empresa.
Recentemente, o Gartner produziu uma análise sobre Agentic AI PCs onde avalia que até 2031 esse tipo de equipamento se tornará infraestrutura crítica com capacidade de executar agentes autônomos para tarefas complexas. Ou seja, mais que o processamento local ou agilidade em acessar determinas funções, esses PCs avançariam ao entregarem desempenho de processamento de IA 10 vezes superior ao que entregam equipamentos atuais.
Além de olhar para potência e futuro, o documento do Gartner também destaca a necessidade de planejamento financeiro das empresas para fazer a movimentação de PCs tradicionais para o AI PC. Paralelamente, a consultoria sugere ainda um olhar não apenas pensando na atualização tecnológica per si, mas olhando aspectos de segurança e governança de IA, com intuito de evitar o uso de ferramentas não gerenciadas, a famosa shadow AI.
Tirando melhor proveito

Mas enquanto 2031 não chega, é preciso olhar para o agora e entender o que faz sentido nessas máquinas atuais. A ideia não é investir em um AI PC apenas por uma bateria que dure mais ou para ter uma máquina que ligue mais rápido. Tirar o real proveito desses equipamentos, no entanto, requer algo que vai além do hardware, como explicou o diretor de produtos da Dell Technologies para América Latina, Rafael Pacheco.
Na visão de dele, a melhor forma de tirar vantagem de uma máquina potente como essa é ter softwares otimizados para essa arquitetura. “Eu entendo que, enquanto as empresas de software não começarem a se apropriar disso, a gente vai ter benefícios pontuais. A primeira que está se apropriando é a Microsoft. E entendo que ela não só se apropria, como cria caminhos para que as empresas utilizem”, explicou Pacheco.
A percepção do diretor da Dell é compartilhada por Fabiano Takahashi, gerente de produtos da Positivo Tecnologia. “OAI PC é um motor com capacidades, mas para entregar esse benefício as aplicações precisam entender, saber e estarem preparadas para tirar vantagem. As empresas que tiram vantagem disso já tem aplicações, inclusive próprias, prontas para essa arquitetura”, avalia.
Para Leandro Lofrano, diretor de produtos para o mercado corporativo da Lenovo Brasil, o negócio não é nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Ele entende que a NPU auxilia também em processamentos não necessariamente desenhos para IA. “Ela auxilia ganho de velocidade da máquina para processamento que não são ligados à IA. Mas quando falamos de IA, ou de uso de agência, com agente performance, com Digital Twin, um assistente te apoiando, a presença da NPU vai ajudar. Mas não diria que é algo inchado para software para A ou B.”

O documento elaborado pelo Gartner entende que softwares otimizados sejam fundamentais, mas também avalia que eles estejam entre os principais desafios para tangibilizar o valor do AI PC. Embora o hardware tenha avançado rapidamente, o ecossistema de software tem operado em velocidade distinta. Além disso, muitas empresas têm suas aplicações rodando em nuvem. Isso faz com que muitos cases de uso de AI PC ainda sejam de viés mais exploratório.
“A gente ainda sofre para tangibilizar o benefício no mundo de software e na performance diária. Os primeiros casos que a gente começa a ver alguma coisa é em tratamento de áudio, de imagem. A Adobe já tem versões lançadas otimizadas para computadores com inteligência artificial. Já tem algumas coisas nessa direção, mas eu acho que o caminho gradualmente está mudando”, reforçou Pacheco.
Escassez de componentes
Se por um lado extrair o máximo desses equipamentos exige softwares otimizados ou minimamente uma estratégia de IA que inclua, por exemplo, Copilot da Microsoft (alguns desses equipamentos já vem até com um botão copilot, a exemplo do velho botão Windows), por outro, a questão financeira tem sido um ponto de atenção. Não à toa o Gartner chama a atenção para o planejamento financeiro. Globalmente, há uma alta na inflação de aparelhos de tecnologia de maneira geral provocada, sobretudo, pela escassez de componentes, como memórias.
Apesar do preço ser um ponto, Lofrano, da Lenovo, descarta uma crise de desabastecimento, pelo menos com o consumo no ritmo atual. O executivo ainda avalia que a fabricante possui uma cadeia de suprimento suficientemente robusta para lidar com momentos como o atual. “Hoje temos a melhor consistência em fornecimento de peças e produtos para computação pessoal comparado a qualquer fabricante. Tem cenário desafios pela demanda de IA, que puxa consumo de forma nunca vista e faz custo de componentes subirem”, resumiu.
A avaliação do Gartner é que os novos hardwares e softwares, no momento, excedem a capacidade dos departamentos de tecnologia de promoverem uma atualização ampla. Somada à velocidade dos lançamentos, a consultoria frisa que a questão dos preços elevados tem sido sim um impedimento para troca e muitas empresas optam apenas por atualizar máquinas que chegaram a um limite e prejudicam a produtividade do funcionário.
“Eu entendo que a gente estava em uma jornada de adoção de inteligência artificial muito mais acelerada do que talvez aconteça. A inflação de commodities está forçando os clientes a simplificar a compra. Eles param de comprar uma solução que faz sentido para atender uma urgência. E aí atender uma urgência é a necessidade atual”, pontua Pacheco, da Dell Technologies, em uma avaliação que corrobora com a análise do Gartner.
Sabendo que escassez de componentes e inflação impactam na atualização dos parques para AI PCs, Marco Vorrath, diretor comercial B2B da Acer, adiciona um ponto mais centrado no mercado brasileiro. Para o executivo, mais que esse cenário global, o Brasil naturalmente tem um ciclo de transição de tecnologia um pouco mais longo que países com economia mais aberta. “Por ter a questão da manufatura local, a gente tem um tempo mais dilatado de adoção, de uma adoção madura como a gente fala, que é ter mais de 50% do mercado consumindo aquela tecnologia atual. No Brasil sempre demorou mais do que México, Chile, Argentina, Colômbia, porque esses países são economias mais abertas, então eles importam.”

Melhor momento para compra?
Dado que para tirar melhor proveito idealmente a empresa precisa ter aplicações otimizadas ou um plano de IA e entendido o desafio da inflação, qual melhor momento para atualizar o parque de computadores? A resposta certa é depende. É preciso entender o momento da empresa, tanto em aspectos financeiros, mas também relacionado à estratégia de inteligência artificial e ao calendário de atualização de computadores.
O Gartner defende a elaboração de um plano de atualização que adote pelo menos a segunda geração de AI PCs e seja executado em até quatro anos. Idealmente a estratégia deveria ser dividida por grupos e priorizando os desenvolvedores, além de ser observada como parte integrante da estratégia de IA e não apenas como compra de hardware. Como esses equipamentos podem rodar aplicações localmente, permitem acesso a funcionalidades de IA até sem conexão à internet, os benefícios vão além da produtividade e atingem pontos de segurança e privacidade. Com boa governança também podem ser instrumentos para melhor controlar as ferramentas de IA que circulam na empresa.
“Uma coisa que sinto é que muitos já se deram conta que o computador que eles comprarem hoje sem inteligência artificial vai forçar um refresh antecipado. Eles não vão poder ficar três a cinco anos com uma base instalada, eles vão ter que mover talvez mais cedo. E acho que essa preocupação está acontecendo”, comenta Pacheco, diretor de produtos da Dell para América Latina.
O ponto trazido por Pacheco entra no entender o momento da empresa. Se chegou aquela fase de atualização de parque, ainda que sua estratégia de IA não esteja madura, talvez, faça sentido considerar a atualização para ganhar tempo e estar com a parte de hardware preparada. Essa análise também é seguida por Lofrando, da Lenovo Brasil. “Cada empresa precisa avaliar se é o momento adequado. Do ponto de vista tecnologia é melhor antecipar a habilitação que vai ser inevitável que esperar mais adiante. Estamos na terceira onda de inovação de tecnologia depois de Windows e da Internet, se não for feito agora, será feito em momento próximo, o porquê de agora é associado ao quão antes estar preparado para o futuro”, provocou.
A dinâmica do mercado também diferencia empresas grandes do grupo de pequenas e médias (PME). Enquanto as grandes, como ressaltou Vorrath, da Acer, já buscam pelos AI PCs nas propostas, as companhias de menor porte tendem a buscar preço e optam por máquinas mais tradicionais. O executivo brinca ao dizer que algumas empresas pedem os computadores com o “botão do copilot”.
“As grandes organizações que têm governança, ou que são multinacionais, ou que têm um pouco mais de regulação interna com relação à performance, à segurança de dados, são as primeiras a adotar. Mas eu recomendo fazer agora porque daqui a um ano e dois anos a empresa vai acabar caindo nisso. Se ela compra hoje um AI PC e, em dois anos, resolve implementar aplicações de IA, ela já está preparada”, avaliou Vorrath.
Futuro agêntico
O Gartner prevê para 2031 máquinas que abriguem agentes de IA e se tornem parte crucial da estrutura de IA das empresas. Mas esse futuro já é esboçado nas versões atuais. Há casos de empresas que desenvolveram aplicações específicas para serem usadas em um AI PC, aproveitando o poder das NPUs, mas também questões de latência e privacidade dos dados.
Um dos exemplos é um caso em que a Deloitte desenvolveu um software para o departamento jurídico de um cliente para ser processado usando IA local em um equipamento Dell. Como explicou Pacheco, trata-se de uma interface que ajudou o cliente a entender melhor processo jurídico. O executivo ressalta que para esse trabalho nem foi requisitada a máquina mais potente; o exemplo tende a confirmar a tese de como um computador desse, com uso direcionado, pode entregar valor real às empresas. “Softwares específicos no mundo corporativo, que são desenvolvidos sabendo que as necessidades que as empresas têm, vão começar a se apropriar disso e vão começar a usufruir muito mais rápido”, apostou.
Outra aplicação a partir de um AI PC foi de um cliente Lenovo. Por lá, uma empresa de contabilidade de pequeno porte tinha uma necessidade relacionada à data limite de imposto de renda. Como relatou Lofrano, eles apoiaram na otimização de processos de recebimento de dados dos clientes e o agente de IA imputava quase 100% das informações dentro da ferramenta. Não havia uma API, mas a declaração ficava praticamente pronta.

Os exemplos mostram o potencial desses equipamentos e, avançando como prevê o Gartner, a entrega será ainda maior com agentes rodando in loco. Mas como reforça Takahashi, da Positivo Tecnologia, o futuro aponta para soluções híbridas, ou seja, parte do processamento local, seja no AI PC ou em estruturas que a empresa decida montar para rodar IA localmente e reduzir dependência da nuvem ou mesmo reduzir custo com token, e parte em nuvem pública, especialmente para teste ou aplicações mais genéricas. “Tem coisa que vai se preferir processar localmente. Pela latência envolvida, o vai e vem da nuvem não é tolerável. Latência é detrator para processamento em nuvem (de dado que demanda tempo real)”.
Vale destacar também dois pontos trazidos pelos executivos. Vorrath, da Acer, reforça a possibilidade de utilizar funcionalidades IA on-line e off-line como algo que auxilia ainda mais a produtividade. Takahashi, da Positivo, e Pacheco, da Dell, ressaltam segurança e privacidade como benefícios, em especial, para processamento local de informações sensíveis. “As empresas vão começar a amadurecer e vão querer se proteger de usuário ficar entrando e querendo resolver coisas na nuvem. Ter soluções que executam na borda, no computador, ter soluções que executam dentro da rede em inteligência artificial é um caminho natural para se proteger um pouco de uma exposição de dados”, pontua Pacheco.







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