
A inteligência artificial passou a integrar a rotina do setor público brasileiro. É o que mostra a pesquisa “TIC Governo 2025”, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). O levantamento revela que 59% dos órgãos federais e estaduais já utilizam IA em suas atividades, consolidando a tecnologia como uma das principais apostas para modernizar a administração pública.
A pesquisa foi conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), e chega à sua sétima edição. O estudo acompanha, desde 2013, a evolução da transformação digital nos diferentes níveis da administração pública.
Entre os Poderes, o Judiciário lidera a adoção da tecnologia, com 94% dos órgãos utilizando IA. Na sequência aparecem o Ministério Público (92%), o Legislativo (83%) e o Executivo (55%). A presença da tecnologia também é maior na esfera federal, onde 70% dos órgãos já utilizam IA, contra 58% dos estaduais.
O levantamento mostra ainda que outras tecnologias ainda tem pouca adesão, como a Internet das Coisas (IoT), que está presente em 20% dos órgãos federais e 29% dos estaduais. Já o Blockchain foi citado por 25% das instituições federais e por 17% das estaduais.
Automatização lidera as aplicações
Entre os órgãos que já utilizam inteligência artificial, a principal aplicação é a automatização de processos e fluxos de trabalho, adotada por 39% das instituições. Em seguida aparecem mineração de texto e análise de linguagem, presentes em 35% dos órgãos, além de ferramentas de aprendizagem de máquina para análise e predição de dados, utilizadas por 31%.
Segundo nota de Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br | NIC.br, a expansão da tecnologia exige investimentos em qualificação dos profissionais. “Os resultados mostram que a Inteligência Artificial já faz parte da realidade de uma parcela significativa do setor público brasileiro. Ao mesmo tempo, evidenciam que ampliar a capacitação dos servidores públicos é um passo fundamental para que essas tecnologias sejam incorporadas de forma cada vez mais qualificada e contribuam para a melhoria efetiva dos serviços públicos prestados à população”, explicou.
Pela primeira vez, a TIC Governo avaliou a adoção de IA nas prefeituras brasileiras. O estudo mostra que 27% dos municípios utilizaram a tecnologia nos 12 meses anteriores à pesquisa. A diferença entre municípios de portes distintos é significativa: nas cidades com mais de 500 mil habitantes, a adoção chega a 85%. Entre as capitais, o índice é de 81%. Já nos municípios com até 10 mil habitantes, apenas 22% informaram utilizar IA.
Nas administrações municipais, os principais usos também estão ligados à automatização de processos (14%) e à mineração de textos (12%).
IA generativa ganha espaço na administração pública
A edição de 2025 também apresenta, pela primeira vez, um panorama específico sobre inteligência artificial generativa.
Na esfera federal, 65% dos órgãos já possuem iniciativas voltadas ao uso da tecnologia em processos internos, enquanto 29% a utilizam em serviços destinados diretamente aos cidadãos. Além disso, 59% oferecem treinamentos aos servidores, 46% contrataram ferramentas específicas e 43% estabeleceram diretrizes para utilização da tecnologia.
Nos órgãos estaduais, 56% utilizam IA generativa internamente e 28% em serviços ao público. A oferta de capacitação alcança 44% das instituições, enquanto 30% elaboraram orientações para uso da tecnologia e 27% adquiriram soluções específicas.
Já entre as prefeituras, a adoção está mais limitada. O levantamento aponta que 31% possuem iniciativas internas com IA generativa e 17% já utilizam essas ferramentas em serviços ao cidadão. Apenas 14% promovem treinamentos, enquanto 10% contrataram plataformas especializadas e o mesmo percentual disponibilizou manuais ou diretrizes para uso pelos servidores.
Capacitação ainda é o principal obstáculo
Apesar da expansão da IA, a formação das equipes continua sendo o maior desafio para ampliar sua utilização. A falta de capacitação foi apontada como principal barreira por 19% dos órgãos federais, 21% dos estaduais e por 40% das prefeituras.
Nos municípios, os gestores também mencionaram como dificuldades: a baixa prioridade dada ao tema pelas administrações, a ausência de interesse em algumas áreas, problemas relacionados à disponibilidade e qualidade dos dados e os custos envolvidos na implementação das soluções.
O levantamento investigou, pela primeira vez, o uso de computação em nuvem nas prefeituras. Um terço dos municípios utiliza serviços de e-mail e armazenamento em nuvem. O armazenamento de arquivos e bancos de dados aparece em 26% das administrações municipais, enquanto softwares de escritório são utilizados por 23%. Já recursos de processamento em nuvem ainda apresentam menor adoção, presentes em 17% das prefeituras.
Nos órgãos federais e estaduais, a contratação desses serviços é bem mais consolidada. O e-mail em nuvem está presente em 88% das instituições federais e em 61% das estaduais. Softwares de escritório alcançam 83% dos órgãos federais e 35% dos estaduais, enquanto serviços de armazenamento chegam a 66% e 47%, respectivamente.
Serviços digitais carecem de monitoramento
Embora a digitalização dos serviços públicos tenha avançado, a pesquisa aponta que boa parte das administrações ainda monitora pouco o desempenho dessas plataformas. Entre as prefeituras, 83% oferecem emissão de nota fiscal eletrônica e 69% disponibilizam emissão de documentos pela internet. No entanto, apenas 30% coletam estatísticas de uso dos serviços e somente 22% medem a satisfação dos usuários.
Nos órgãos federais, 63% acompanham indicadores de utilização dos serviços digitais e 56% avaliam a experiência dos cidadãos. Já na esfera estadual, esses percentuais são de 47% e 33%, respectivamente.
“Quando o governo oferta um serviço digital, mas não monitora o seu uso ou a satisfação do usuário ao longo do tempo, ele perde a capacidade de identificar se a ferramenta de fato atende às necessidades dos cidadãos e se está sendo útil. Por isso, esse monitoramento contínuo é fundamental para produzir evidências que permitam aperfeiçoar os serviços públicos digitais para que cheguem com qualidade e eficiência a quem mais precisa”, contou também em nota Manuella Maia Ribeiro, coordenadora de Pesquisas TIC.
Atendimento ao cidadão
Os aplicativos de mensagens também ganharam espaço como canais de atendimento no setor público. Nas prefeituras, o uso de WhatsApp e Telegram para solicitação de serviços públicos passou de 56% em 2023 para 64% em 2025, tornando-se o segundo principal canal de atendimento, atrás apenas do telefone convencional, utilizado por 83% dos municípios.
Nos demais níveis de governo, recursos de atendimento por aplicativos de mensagens estão disponíveis em 39% dos órgãos federais e em 43% dos estaduais.
Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, destacou em comunicado que “desde 2013, a TIC Governo vem oferecendo um diagnóstico da transformação digital no setor público brasileiro. Ao produzir indicadores sobre o uso de tecnologias da informação e comunicação em todas as esferas e Poderes, a pesquisa gera evidências para subsidiar a formulação e aprimoramento de políticas públicas voltadas à ampliação da oferta de serviços via Internet, promovendo maior transparência, eficiência e acesso da população aos serviços públicos”.
A TIC Governo é realizada a cada dois anos e a edição de 2025 entrevistou, por telefone, 576 órgãos públicos federais e estaduais e 3.253 prefeituras, entre julho de 2025 e abril de 2026.






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