Diogo Cortiz, professor da PUC-SP

A Inteligência Artificial (IA) está sendo apontada como o motor de uma transformação que pode superar o impacto da Revolução Industrial na história. Se no século XVIII a mudança ocorreu na forma de produzir através de máquinas, hoje a IA atua na camada cognitiva, permitindo que o conhecimento e a inovação sejam sistematizados em uma escala sem precedentes. O assunto esteve em destaque durante a Fispal Tecnologia 2026, em São Paulo, onde especialistas e líderes do setor reforçaram que essa tecnologia não deve ser encarada como um fim, mas como uma infraestrutura de propósito geral — comparável à internet e à energia elétrica — que exige uma base sólida de maturidade digital para entregar valor real.

Para Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e especialista em IA, o momento atual marca a transição para a chamada “emergência agêntica”, na qual deixamos de interagir com simples chatbots para utilizar agentes com autonomia para agir e negociar. Essa evolução introduz novos paradigmas, como o “contrafactual”, que permite ao gestor ir além da decisão baseada em dados reais e perguntar o que aconteceria se o cenário fosse diferente. Essas múltiplas simulações permitidas com plataformas de IA, quando bem utilizadas, geram outro nível de valor e possibilidades aos negócios. 

Cortiz também destaca o conceito de “cybernetic teammate” ou colega de trabalho cibernético, onde humanos e sistemas de IA colaboram em times híbridos, elevando o bem-estar laboral, de novo, como destaque o professor, quando o projeto é bem desenhado e implantado corretamente. Ele ainda faz um alerta sobre a reengenharia de processos: “plugar IA em um processo velho não funciona” e muitas empresas falham ao tentar aplicar a tecnologia onde ela nem é necessária.

Fundamentos bem trabalhados

Da esquerda para direita: Fabio Misawa, da Ajinomoto, Leonardo Andrade, da Cargill Food, Paulo Bandel, da Whirpool, e Jorge Cerezo, da McKinsey

O sucesso dessas aplicações, entretanto, não acontece por acaso. Um consenso entre os executivos de grandes indústrias é que a IA representa o topo de uma pirâmide construída sobre fundamentos de gestão e cultura que, em muitos casos, vêm sendo trabalhados há uma década. Fabio Misawa, Diretor Operacional Geral da Ajinomoto Brasil, explica que a jornada da companhia começou há dez anos com o WCM (World Class Manufacturing) e que a transformação digital e os fundamentos são os pontos mais importantes. “Antes de sistemas, máquinas ou IA, perguntamos: as pessoas estão preparadas? Processos mapeados, cultura, tudo tem de estar estabelecido para entender a dor. Antes de falar de IA, a dor precisa estar clara”, relembrou Misawa.

Essa visão é corroborada por Leonardo Andrade, Diretor de Transformação Digital na Cargill Food América Latina, que ressalta a importância de alinhar processos, pessoas e cultura para garantir a sustentabilidade tecnológica. Andrade menciona que a digitalização envolve a centralização e contextualização de dados, além de um constante mapeamento da maturidade dos ativos fabris. Para Paulo Bandel, Industrial Engineering and Strategic Planning Director na Whirlpool América Latina, a disciplina trazida por sistemas de gestão de performance nos últimos anos, aliada a uma estruturação de dados rigorosa, é o que permite hoje transformar projetos experimentais em casos de uso em escala.

Resultados reais com IA

Na prática, esses investimentos já geram ganhos significativos em produtividade e, principalmente, em redução de perdas. Na Ajinomoto, por exemplo, a IA ajudou a identificar que desperdícios em um processo de embalagem não tinham relação com a matéria-prima, mas com a angulação incorreta da máquina. Além disso, a empresa utiliza visão computacional para auxiliar operadores em tarefas manuais, identificando erros de execução em tempo real e orientando a correção imediata. Já na Cargill, a aposta passa pela democratização do conhecimento por meio de uma “academia de criação de agentes”, onde os próprios colaboradores aprendem a identificar problemas do dia a dia que podem ser resolvidos com IA. Além disso, a empresa também aposta nos gêmeos digitais que, aliados à IA, ampliam muito as possibilidades, por exemplo, com simulações.

Entre as iniciativas da Whirlpool, chama a atenção uma que mostra como a IA pode conectar diferentes pontas da operação ao integrar o atendimento ao consumidor diretamente à fábrica. Por meio da análise de áudios de reclamações no call center, o sistema consegue retroalimentar o processo produtivo de forma ágil, identificando falhas e repriorizando ordens de serviço que antes levariam semanas para serem detectadas e processadas. Como avalia Jorge Cerezo, partner da McKinsey, “o valor real da IA só é capturado quando os fundamentos e a cultura da organização estão prontos para sustentar essa nova camada de inteligência.”

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