Cezar Taurion e Luiza Sangalli durante painel no Tech Insights

A inteligência artificial virou pauta (quase) obrigatória em conselhos e reuniões executivas, mas sua trajetória não começou com o surgimento das ferramentas generativas recentes. Durante o Tech Insights: Dasafio IA, evento organizado pelo Coletivo Tech, Cezar Taurion, head of AI strategy da theGarage IA, comandou uma importante conversa com Luiza Sangalli, head de IA da B3, sobre o que está sendo colocado em prática quando o assunto é IA.

Taurion resgatou a linha do tempo da tecnologia para contextualizar o momento atual do mercado, explicando como a IA deixou de ser restrita aos laboratórios e se tornou prioridade global de negócios. O avanço dessa tecnologia vem de uma longa jornada evolutiva que ganhou novos rumos a partir da transformação das formas de interação entre humanos e máquinas. “E aí, de repente, o mundo passou a entender que existe uma coisa chamada inteligência artificial, que já estava aí. A IA trouxe uma revolução não na tecnologia, que foi um processo evolutivo, mas foi uma revolução na interface. Nós passamos a ter condição de conversar de igual para igual com uma máquina”, destacou.

Na B3, a implantação de IA requer cuidados redobrados devido às exigências regulatórias rigorosas do setor financeiro. Luiza trouxe para o debate a forma como a empresa navega entre restrições normativas e o incentivo à inovação interna, apontando que o grande desafio não reside apenas nas limitações computacionais, mas também no fator comportamental. Ela cita que “é normal a gente encontrar detratores da estratégia de inteligência artificial, porque existe uma camada psicológica por trás que atua com muita força. Às vezes é mais forte do que a máquina”.

A empresa já tem projetos em produção e busca transformar a IA em uma infraestrutura capaz de acompanhar a evolução dos clientes do mercado financeiro. A executiva apontou que a B3 “já é a infraestrutura do mercado, mas eu quero que isso seja operado por agentes de IA. Eu gostaria que o mercado pudesse se relacionar com a gente com agentes de IA. Se a gente pensar que todos os nossos clientes, os fundos, os bancos, etc., estão evoluindo, estão querendo chegar nesse caminho, nada mais justo do que nós acompanharmos”.

Transformando teste em resultados

Embora a visibilidade da IA generativa tenha explodido nos últimos anos, a adoção real nas organizações ainda apresenta diferentes níveis de maturidade. Enquanto poucas corporações utilizam estruturas avançadas de IA em escala, muitas ainda tentam dar os primeiros passos práticos. Taurion alertou para o perigo de generalizar o progresso do mercado com base em indicadores médios ou métricas de vaidade, lembrando que a maturidade varia drasticamente de uma empresa para outra.

Para impulsionar resultados concretos, a B3 combina entregas operacionais diretas com a experimentação controlada de projetos via provas de conceito (POCs). “Temos alguns projetos já em produção que saíram de POC. POC é importante, porque é o único jeito que a gente tem de experimentar. Eu gosto de incentivar fazer POC, porque mesmo que a gente não faça nada com ela, você vai ganhar maturidade, vai ganhar familiaridade com uso da ferramenta dentro da companhia e saber quais problemas e como conseguir resolvê-los. Acho que isso é fundamental”, apontou Luiza.

Em termos de eficiência operacional, os resultados na B3 já ultrapassam a fase de testes. A estratégia inclui governança, adoção interna, equipes especializadas e controle sobre modelos e custos. A executiva explicou que a empresa conta com um Delivery Team, que é quem olha para projetos que podem ter reflexos diretos na receita da companhia. Um dos exemplos apresentados envolve a automação da esteira de criação de índices por uma estrutura agêntica, onde a capacidade de criação e operacionalização desses produtos foi multiplicada. A mudança elevou o potencial de geração de índices de cerca de 16 ou 17 por ano para uma capacidade considerada praticamente ilimitada.

IA com controle e propósito

Cezar Taurion e Luiza Sangalli em conversa durante o Tech Insights

Mas em um ambiente altamente regulado, são necessários todos os cuidados para uma implantação segura de IA. A B3 tem controle sobre agentes, modelos e infraestrutura, e utiliza gateways para distribuir modelos de diferentes provedores, todos com uso devidamente homologado. Além disso a head explicou que a companhia mantém uma estrutura de governança com participação de áreas como segurança, jurídico, engenharia e RH, que acompanham a criação de agentes e seus níveis de risco.

Taurion lembrou da febre do takenmaxxing, onde as empresas incentivavam a qualquer custo o uso de IA, o que não é estratégia mas apenas um modismo. E agora está vindo o agentmaxxing, a mesma situação mas com agentes de IA. Seguindo a linha de pensamento, Luiza enfatizou que a proliferação desordenada de supostos “agentes” sem medição de retorno financeiro ou operacional gera apenas ilusão de avanço. “Todo mundo acha que tudo, que qualquer coisa é agente. E não é. As pessoas começaram a vender isso como um atrativo ou como uma prova de que a empresa está evoluindo na sua estratégia de IA. Não é incomum a gente ver no LinkedIn “hoje a empresa tem 20.000 agentes rodando”. O que que significa? Significa nada. Agora, se você me contar qual o valor ou saving que você teve com esses 20.000 agentes, aí isso significa muito”.

Outro ponto de atenção em relação à IA é a dependência de ecossistemas internacionais de tecnologia, as oscilações geopolíticas e a proximidade de governos com empresas de IA. Para esse cenário, Luiza contou que a B3 busca estratégias voltadas à soberania de dados e modelos proprietários, uma vez que a possibilidade de restrições por fornecedores externos exige infraestrutura resiliente e autonomia no roteamento de modelos de linguagem.

Pessoas no centro da tecnologia

Para além da infraestrutura técnica, a B3 ancora sua estratégia de gestão de pessoas na valorização e readequação de talentos internos, combinando capacitação em soft skills com a identificação de profissionais proativos em todos os níveis, priorizando a mentalidade de resolução de problemas. A aposta é combinar desenvolvimento interno e contratação de profissionais do mercado.

Luiza defendeu que a IA deve ampliar a capacidade dos trabalhadores, ser um alavancador de valor individual e coletivo, e não simplesmente eliminar posições. Ela também destacou a questão comportamental: “acho que soft skill é a chave para uma mudança de paradigma aqui na nesse ecossistema. Eu vejo um futuro de 5 anos de carreira completamente diferente do que a gente vê hoje”.

Em complemento, Taurion apontou que “nós estamos vendo que a agenda ativa é um complemento ao que já existe, mas é um complemento que traz uma oportunidade fantástica de se fazer coisas novas, que antes a gente não conseguia fazer. Nós queremos ter essa visão bem crítica e racional sobre a utilização de IA, mas nós queremos identificar também aonde estão as oportunidades”.

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