Por Flavio Horita*

Não é novidade para (quase) ninguém que a Inteligência Artificial já faz parte das nossas vidas. Ela está em quase todo conteúdo, atividade, interação (social ou não) que realizamos hoje em dia; desde “rolar o scroll” no Instagram, marcar uma consulta até fazer compras para o final de semana. Assim como a Internet, hoje, me parece complexo ver a vida ou as tarefas diárias sem usá-la. 

Não irei entrar no mérito e impactos éticos, comportamentais, cognitivos e psicológicos da tecnologia. Do contrário, eu gostaria de explorar o resultado dela na evolução das empresas, em particular, nos pequenos e médios negócios. Para isso, trarei duas reflexões importantes: o hype da IA e o jogo da cultura organizacional vs a adoção da IA. 

O hype da IA 

Muito embora eu acredite que alguns negócios já se acomodaram após o “boom” da IA Generativa, ainda acredito que estamos no início da escada dos “Pragmáticos”, ou seja, aqueles que utilizam tecnologias que já foram experimentadas e testadas em mais escala, e sabem quando podem tirar proveito destas para melhorar suas atividades e processos. 

Muitos eventos, empresas, negócios ainda estão se tornando AI-first, após serem API-first, mobile-first e cloud-first, parece até uma crise de identidade. Como diz o ditado, quem faz tudo, não faz nada bem-feito. Fica aqui outra reflexão. 

De alguma maneira, é interessante ver no Instagram a quantidade de novas postagens incentivando cada vez mais o uso de inteligência artificial. Tudo parece muito fácil, simples, direto. “Os 10 prontos que…”, “Aquela IA que …”, etc. De novo o meu questionamento não é quanto a efetividade da ferramenta, mas sim o quanto que isso gera uma impressão errada sobre o uso das diferentes tecnologias e produtos que estão sendo criados para atender os diferentes problemas da nossa sociedade.

O jogo da cultura organizacional vs a adoção da IA. 

Quando digo início da escada é justamente porque acredito que algumas empresas, gestores, gerentes, ainda não “sabem quando podem tirar proveito para melhorar suas atividades e processos”. A motivação existe, mas ainda muito por conta de uma pressão externa, nacional e internacional, um pouco de FOMO, somado à necessidade de se manter relevante em um mundo em constante transformação. Não vejo como um erro. Isto acontece por uma dinâmica de mercado natural. No entanto, meu questionamento é sobre o quanto as empresas estão preparadas, ou são maduras o suficiente, para aceitar e adotar a IA. Bom, não é novidade que muitos projetos – agentes, assistentes, automação – falham nos seus primeiros esforços por conta da falta de adoção e institucionalização de longo prazo; Gartner mostrou isso em diversas pesquisas recentes. 

O importante é conectar as iniciativas de inteligência artificial com processos que de fato entregam um valor para empresa; e não criar apenas uma algo para dizer que está trabalhando com inteligência artificial. Isso certamente vai trazer muito mais valor para a organização. E quando eu falo de conectar IA com processos isso também tem a ver com a maturidade da organização. Vale uma pergunta: quanto a sua equipe ou seu time está aberto para a nova tecnologia? Isso vai dizer muito possivelmente sobre o processo de atuação do que vai ser desenvolvido pelo seu time. Por exemplo, é normal que seja colocado um assistente para responder perguntas básicas de recursos humanos. O questionamento é: o quanto essa tecnologia vai ser utilizada e o quanto que o time de RH vai passar a indicar essa inteligência artificial para os demais funcionários. Se o seu time de RH não indicar, não teve valia o tempo em criar assistente para economizar o tempo do time de recursos humanos.

*Flávio Horita é CTO na Climatempo, com PhD pela USP e pós-doutorado pela University of Warwick (UK) e pesquisador em Münster (Alemanha). Também é cofundador do Nexxulab, investidor e conselheiro em startups early-stage. Sua especialidade é estruturar times de alta performance para transformar plataformas digitais de software complexas em operações simples, confiáveis e escaláveis, usando processos bem definidos e inteligência artificial.

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